“Reconstrução ou barbárie?”, por Thiago Canettieri

Thiago Canettieri
Professor do departamento de urbanismo da UFMG
(thiago.canettieri@gmail.com)
10 de janeiro de 2023

“O pensamento de que após esta guerra a civilização possa ser ‘reconstruída’ – como se a reconstrução da civilização por si só não fosse a negação desta – é uma idiotice.”

Theodor Adorno

Domingo, 8 de janeiro. Exatamente uma semana após o “festival do futuro”, que se prometeu a reunificação nacional e a reconstrução da democracia; exatamente no mesmo local, observamos os efeitos violentos do bolsonarismo. Em uma ação política massiva, grupos de bolsonaristas invadiram as sedes dos três poderes em Brasília. Contando com o “corpo-mole” das forças policiais, a horda verde-amarela marchou, adentrou e depredou o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto. Foi um atestado de força. Se o governo democraticamente eleito contava com a pacificação nacional com a expectativa de reeditar o pacto do lulismo, os últimos acontecimentos desmancharam esse sonho como um castelo de cartas em uma tempestade.

Rapidamente o “neo-governismo de esquerda” assumiu uma postura austera. Como mostram memes recentes, o governo está sendo implacável contra os “terroristas”. Devem punir exemplarmente os envolvidos nos atos do último domingo. O rigor da lei, dizem, deve ser aplicado. No amplo espectro de afetos mobilizados – do legalismo ao revanchismo – está no centro a expectativa da reconstrução.

O que aconteceu – a foto que sintetiza é o manifestante-terrorista com a Constituição Federal em mãos, às suas costas, a estátua da Justiça pichada com a inscrição “perdeu, mané” – é um atestado que as instituições deixaram de funcionar ou, ao menos, deixaram de ser levadas a sério e, por isso, se tornaram ineficientes. Assim, a postura do “novo lulismo”, não mais o “Lula paz e amor”, mas o “vigiar e punir”, não será suficiente para “reconstruir” um país.


Homem mostra exemplar da Constituição que teria sido retirado do STF — Foto: Reprodução

Compreender e agir nesse cenário, a meu ver, envolve levar até as últimas consequências o derretimento institucional da Nova República, que já vem sendo desidratada desde 2015. Embora tenha tido a certidão de óbito lavrada em vários momentos (a votação do impeachment da Dilma; a aprovação da reforma trabalhista; a prisão de Lula; a eleição de Bolsonaro), a Nova República permanece como entidade que orienta a prática de boa parte da política brasileira contemporânea.

Quem parece levar a sério esse esfacelamento da política da Nova República é exatamente o bolsonarismo. Embora sejam tratados como “pirados”, quem parece espanar é exatamente o republicanismo democrático. Enche-se a boca para falar do Estado Democrático de Direito, mas seu corpo já está putrefato. Por isso, embora cercado com uma certa áurea mística, falar em reconstrução democrática soa tão extemporâneo. É o bolsonarismo que está mais coerente com o “espírito da nossa época nacional” – eles levam a sério a erosão dos antigos cimentos sociais (Estado-república-trabalho).

Foi pelas mãos do bolsonarismo que a política como conflito voltou para a ordem do dia. Dia sim e outro também anunciam que “estão em guerra”. Esse sentido profundo que anima a invasão da praça dos três poderes e os atos destrutivos em curso só pode emergir quando o indivíduo se entende em guerra. Claro, há o financiamento e a leniência das forças repressoras, mas isso não pode obnubilar a percepção mais fundamental: há muita disposição. A insurgência está nas mãos da extrema-direita. Tal postura insurgente é bem diferente do que se tornou a política da nova república em vias de ressurreição, confundida com a gestão securitária da administração do colapso.

Nesse contexto, soa quase pueril acreditar em reconstrução. Não há reconstrução possível, até porque, a rigor, não há o que valha a pena se reconstruir: reconstruir não é exatamente repor as condições dessa catástrofe e, dessa maneira, necessariamente reproduzir a autodestruição?

É preciso barrar a escalada do novíssimo radicalismo de direita no Brasil. Contudo, como isso tem sido feito ignora a questão social e política de fundo. O tratamento criminal não será eficaz, pois a atribuição do que é crime ou não passa pela legitimidade institucional – essa legitimidade foi corroída. Ao contrário, os efeitos sociais autodestrutivos podem continuar se agravando. Não se trata de anistia aos golpistas, mas de compreender o que segue seu curso no Brasil de hoje. Se se seguir a rota da reconstrução impossível, seremos todos engolidos.

Seja como for, a hegemonia da esquerda institucional – a mesma interessada em seguir a reconstrução – impede a compreensão da extensão dos fenômenos recentes. Por um lado, minimiza-se as ações da extrema-direita, seja com a patologização (“são alucinados, surtados, doidos, etc.”) ou considerando-os inofensivos, com contingentes reduzidos. Desse postulado se resulta a postura de acreditar no enfraquecimento espontâneo da turba. Por outro, há a incessante postura de buscar compreender os feitos da extrema-direita como resultado direto de interesses e objetivos determinados de certas frações da classe burguesa. Além de ignorar a dimensão libidinal e inconsciente do fenômeno, parece atribuir uma certa racionalidade onde já não existe.

Tanto de um lado como outro perde-se de vista o essencial: no cenário de guerra civil molecular não importa se são patológicos, com contingentes reduzidos, ou quem os financia. A violência alcança potencialmente a todos. A própria forma de organização do bolsonarismo é condizente com a molecularização da guerra, resultante de uma dinâmica de “dessocialização catastrófica”: um autoritarismo descentralizado.

O que resta para os republicanos democráticos alocados na amplíssima frente ampla é um oximoro: como acreditar nas instituições se são elas que devem ser reconstruídas? Para isso não há resposta – e, mesmo ano após ano insistindo no diagnóstico de dissolução e deslegitimação das instituições, essa continua a ser a resposta unidimensional.

Não há solução a vista do ponto de vista social para essa catástrofe que não passe pela superação da forma social do valor que, mesmo decadente, se perpetua como critério superior da socialização. Nesse contexto, a massa de pessoas estropiadas, espoliadas, esfoladas continuará crescendo. Essa dinâmica continuará a erodir as bases das instituições desenvolvidas para e pela modernidade, dando lugar a uma dinâmica de circulação da violência. Ou seja, é bem provável que o processo social a que chamamos de bolsonarismo continuará a se aprofundar, independentemente do governo eleito e suas medidas de reconstrução. Os efeitos da crise continuarão a se acumulando em uma pilha de destroços no horizonte. A dinâmica cega do capital continuará seu curso autodestrutivo, a dissolução do trabalho não será revertida simplesmente por atos de benevolência de quem veste a faixa presidencial no turno vigente.

Crise econômica e crise política não são causa, mas o resultado da erosão das formas sociais historicamente determinadas que desgasta todo o tecido social. Sendo assim, penso, é fundamental ter em conta os elementos mais gerais que ajudam a explicar o atual capítulo da catástrofe brasileira, isto é, o quadro de dissolução do capital por suas incoerências e contradições internas que impõem limites absolutos ao seu automovimento e, dessa maneira, dessubstancializam formas sociais.

A derrota eleitoral de Bolsonaro é insuficiente para desmobilizar o bolsonarismo. Este é muito maior, e com raízes mais profundas, do que aquele. Estaríamos, portanto, diante de um “bolsonarismo sem Bolsonaro”. A fuga atabalhoada do ex-presidente não servirá para dispersar a energia autodestrutiva que circula no país. Desde o resultado da eleição até a posse, o novo radicalismo de direita brasileiro se fortaleceu. A possibilidade de a violência explodir coincide com o ato de (re)acender a chama da esperança na velha democracia. O cenário que teremos para os próximos quatro anos é a explosão dessa “forma-terrorista” que sintetiza a maneira pela qual a guerra civil molecular se manifesta.

A mobilização permanente de extrema direita tende a se radicalizar – e o resultado da eleição deve ser lida apenas um soluço nessa história.

Enquanto isso, a razão governista continuará esperando a reconstrução. Essa “espera catastrófica” produz efeitos deletérios: um desamparo cognitivo, que limita a interpretação do mundo; e um desamparo político, que restringe a transformação do mundo. Em suma, a famosa tese onze fez água.


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