“CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS: REDES”, por Agripino Souza

01/06/2022
Agripino Souza Coelho Neto (UNEB) [1]
Caminhos de Geografia

A rede é um daqueles termos que encontrou uma ampla propagação nas últimas quatro décadas, especialmente no chamado período técnico-científico-informacional [2]. A difusão alcançada pelas redes, no plano de sua existência material, com a intensificação dos diversos tipos de fluxos (pessoas, mercadorias, capitais e informações), permitiu a Castells (2003) fazer uma leitura da arquitetura espacial da sociedade contemporânea, configurada como um “espaço de fluxos” e considerar que vivemos em uma “sociedade em rede”, sobretudo, com o advento do fenômeno que o autor vai denominar de “revolução da tecnologia da informação”.

Redes constituem a nova morfologia social de nossas sociedades, e a difusão da lógica da rede modifica substancialmente a operação e o resultado dos processos de produção, experiência, poder e cultura […] A presença na rede ou a ausência dela e a dinâmica de cada rede em relação às outras são fontes cruciais de dominação e transformação de nossa sociedade: uma sociedade que, portanto, podemos apropriadamente chamar de sociedade em rede, caracterizada pela primazia da morfologia social sobre a ação social (CASTELLS, 2003, p. 565).

A noção adquiriu tamanha força e concretude nas últimas quatro décadas que muitos objetos técnicos já não podem mais ser reconhecidos sem recorrer ao uso da palavra rede e sem o significado emblemático que ela adquiriu, sobretudo, com a chamada globalização. Alguns objetos e organizações passam a incorporar uma referência direta em suas próprias denominações sociais (“rede elétrica”, “Rede Globo”, “rede de pesca”, “rede ferroviária”, são alguns exemplos evidentes do que estamos sinalizando). Esta constatação parece ser compartilhada por Musso (2003), quando evoca uma condição de onipresença e de onipotência das redes:

Uma nova divindade se instala, uma divindade técnica, e mesmo hipertécnica, da qual a internet não é senão uma das luminosas aparições: a rede. Em todo lugar a figura da rede se impõe. Tudo é rede, e mesmo “rede de redes”. A organização da vida cotidiana torna-se um uso permanente de redes, uma busca de acesso ou de conexões às redes elétricas e eletrônicas, de comunicação e de informação, às redes urbanas, às redes de transportes, etc., e uma inserção em suas malhas apertadas que cobrem o planeta inteiro. Tornou-se banal constatar esta onipresença e esta onipotência da Rede (com R maiúsculo), para sublinhar ora os benefícios ora as ameaças (MUSSO, 2003, p. 5, tradução nossa).[3]

Verifica-se também uma intensificação de seu uso como metáfora para representar a organização espacial da sociedade e como conceito formulado para compreensão do real. No plano do conhecimento científico, diversos campos disciplinares têm se apropriado do termo para realizar uma interpretação de uma variada gama de fenômenos de naturezas distintas. Desse modo, as redes foram (e são) acionadas para explicar o funcionamento do cérebro e da circulação sanguínea no corpo humano, a articulação das infraestruturas de circulação no território, a dinâmica das bacias hidrográficas, as relações funcionais entre as cidades, os grandes sistemas técnicos de energia, transportes e comunicação, a operação mundializada das redes financeiras, os circuitos espaciais de produção flexível das grandes corporações, as ações articuladas dos movimentos sociais na sociedade globalizada, ou seja, uma quase inumerável manifestação de fenômenos técnicos, sociais, políticos, econômicos, naturais e espaciais (sem advogar uma dissociabilidade dessas dimensões). Certamente, são evidências como estas que ofereceram elementos para que Musso (2003) considerasse a rede como uma doxa no pensamento contemporâneo.

Todavia, a ideia de rede não é algo recente na história da humanidade. Antes de ocupar a posição e o alcance que adquiriu nas últimas quatro décadas, o termo foi portador de distintos sentidos e objeto de variadas apropriações em diferentes contextos históricos, incorporando novas significações na medida em que o mundo se tornou mais complexo em decorrência da profundidade e extensão das revoluções técnicas e do desenvolvimento da ciência. 

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[1] Agripino Souza Coelho Neto é licenciado e mestre em Geografia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Fez bacharelado em Economia pela FACCEBA. É doutor em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente, é professor titular da Universidade do Estado da Bahia (UNEB-DCET-Campus I), atuando no Programa de Pós-graduação em Estudos Territoriais (PROET-UNEB). Atua também no Mestrado Profissional em Planejamento Territorial (UEFS). Coordena os Grupos de Pesquisa TERRITÓRIOS (UNEB-Campus I) e TECEMOS (UNEB-Campus XI). É membro do Centro de Estudios y de Gestión en Redes Académicas (CEGRA) da Universidad Nacional de Río Cuarto (Córdoba-Argentina).

[2] Termo cunhado por Santos (1994) para denominar o período da história recente da humanidade, caracterizado pelo fenômeno da globalização e pela inédita fusão entre técnica, ciência e informação.

[3] “Une nouvelle divinité s’installe, une divinité technicienne, voire hypertechnicienne, dont Internet n’est qu’une des lumineuses apparitions: le Réseau. Partout Ia figure du réseau s’impose. Tout est réseau, voire « réseau de réseaux ». L’organisation de Ia vie quotidienne devient un usage permanent de réseaux, une quête d’accès ou de connexion aux réseaux électriques et électroniques, de communication et d’information, aux réseaux urbains, aux réseaux de transports, etc., et une insertion dans leurs mailles serrées qui recouvrent Ia planète entière. Il est devenu banal de constater cette omniprésence et cette omnipotence du Réseau (avec un grand R), pour en souligner tantôt les bénéfices, tantôt les menaces”. (MUSSO, 2003, p. 5).

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