“Ser diferentes para mudar o mundo” por Raúl Zibechi

Raúl Zibechi [1]
19 novembro 2022
Repostado de Instituto Humanitas Unisinos (IHU)
Tradução do Cepat

Todo o esforço da classe dominante está concentrado em eliminar ou achatar as diferenças nos modos de vida, nas práticas cotidianas dos povos, classes e pessoas em relação à cultura dominante. Para isso, há cinco séculos, são militarizadas regiões inteiras, produzidos genocídios e extermínios de populações.

A evangelização forçada promovida pelos conquistadores buscou destruir a autonomia política e cultural dos povos originários, ancorada em modos de vida comunitários e em espiritualidades diversas, mas irredutíveis à espoliação do capitalismo nascente. Não se tratava de uma questão de religiões, de deuses verdadeiros ou falsos, mas de que os povos não deveriam continuar vivendo do seu modo, segundo seus costumes.

A destruição dos modos de vida dos camponeses ingleses foi fundamental para a implantação e expansão do capitalismo, como analisa Karl Polanyi em A Grande Transformação. Para isso, aplicou-se a violência de cima, espoliando os camponeses das terras comunais para transformá-los em errantes que acabariam como trabalhadores encarcerados nos satanic mills (moinhos satânicos), peças-chave da revolução industrial.

A ofensiva contra as tabernas e outros espaços dos trabalhadores, em inícios do século XX, buscou destruir os lugares que os operários utilizavam em seu tempo livre para interagir de formas diferentes daquelas impostas pela lógica capitalista, transformando-os também em territórios de autonomia cultural e organização de suas resistências, como explica James Scott em A dominação e a arte da resistência.

Podemos voltar aos tempos da escravidão (quando os quilombos e palenques eram espaços de liberdade e revolta) ou aterrissar em nossos dias (quando os estádios de futebol, que foram espaços diferenciados da classe operária, tornam-se mecanismos de acumulação por espoliação e da especulação financeira) para comprovar que a história das lutas é também a da destruição e a reprodução das diferenças de classe, cor da pele, gênero e diversidades sexuais.

A guerra que os povos originários e negros de todo o continente, os camponeses, as mulheres e os jovens na luta sofrem, hoje, tem como objetivo espoliá-los de seus modos de vida e transformá-los em dependentes do capital. Para nos forçar a servir. Para nos tornar escravos assalariados, que por menos de um salário mínimo dedicamos nossas vidas a lubrificar a acumulação capitalista.

Certamente, a ofensiva brutal contra os povos originários, de Chiapas e a Serra Tarahumara ao sul do Chile, almeja expulsá-los de suas terras para transformá-las em mercadoria, mas também porque em seus territórios os povos vivem de forma heterogênea em relação ao capitalismo. Neste caso, território e diferença estão interligados e são eles que permitem a continuidade da resistência.

Em seu último trabalho (Ir más allá de la piel, Tinta Limón, p. 51), a feminista Silvia Federici aponta que, durante a Grande Depressão, as mulheres brancas da classe operária eram esterilizadas quando consideradas débeis mentais, categoria que era empregada por trabalhadores sociais e médicos para rotular mulheres consideradas promíscuas e propensas a ter filhos fora do casamento. Ou seja, por ser diferentes do modelo capitalista de mulher.

A diferença, as diferenças, são potencialmente anticapitalistas, mas não mecanicamente. No mesmo sentido, podemos afirmar que se não existem modos de vida, culturas e cosmovisões diferentes das hegemônicas, é impossível qualquer resistência duradoura, qualquer aspiração a mudar o mundo e superar o capitalismo construindo mundos-outros, novos e, sobretudo, diferentes. Este ponto foi suficientemente enfatizado pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional.

A segunda questão é que a diferença não cai do céu, não é um dado da realidade, herdado ou imóvel. Deve ser cultivada, defendida, aprofundada, todos os dias, todas as horas, em resistência contra aqueles que querem eliminá-la. O sistema faz isso de várias formas. Uma delas é a violência e o cerco, como sofrem tantas comunidades e bases de apoio, como pudemos comprovar em Nuevo San Gregorio, no território do Caracol 10.

De forma mais sutil, o capitalismo costuma nos neutralizar com a tentação do consumo, que é uma poderosa força de sedução para os jovens. O impulso à migração, a deixar de ser quem somos, é uma forma de suprimir as diferenças de baixo, complementar à violência nua e crua.

Por tudo isto, a luta se dá em múltiplas frentes: na defesa do território, na afirmação de nossa própria cultura, no empenho em não nos deixarmos arrastar para modos de vida que querem nos impor para nos desfigurar como povos e como pessoas.

A meu modo de ver, a diferença é o fogo sagrado que devemos proteger, cuidar, aprofundar e multiplicar, todos os dias de nossas vidas.


[1] Raúl Zibechi é jornalista. Autor de ‘TERRITÓRIOS EM RESISTÊNCIA: Cartografia política das periferias latino-americanas’, ‘OS LIMITES DO PROGRESSISMO: Sobre a impossibilidade de mudar o mundo de cima para baixo’, ‘BRASIL POTÊNCIA: Entre a integração regional e um novo imperialismo’ e ‘Movimentos Sociais na América Latina: O “mundo outro” em movimento’, para citar alguns de seus livros publicados pela Consequência Editora.

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