“Às vésperas do segundo turno: a Zona Oeste do Rio está com Bolsonaro?” por Timo Bartholl

Timo Bartholl [1]
Outubro, 2022
Tradução pelo autor
Publicado na COLUMNA “PERIFERIAS EN LUCHA” do desinformemonos.org

Interessante observar o destaque que mapas ganham quando se analisam resultados de eleições. Nisso, destaca-se o que mapas mostram, porém menos se discute aquilo que escondem ou não são capazes de mostrar. Qual a escala referência para os dados aos quais temos acesso? Os recortes espaciais do mapa representam unidades mais ou menos homogêneas ou heterogêneas? 

Após o primeiro turno, o mapa das zonas eleitorais aparentou mostrar um município do Rio de Janeiro claramente dividido entre Zona Sul e Centro com maioria dos votos para Lula e Zona Oeste com maioria dos votos a favor do Bolsonaro. A Zona Norte ficaria dividida, as zonas próximas ao centro com maioria para o Lula, as zonas mais distantes com maioria para Bolsonaro. O mapa extraído do portal g1 diferencia entre 4 categorias – acima de 50% para Bolsonaro azul-escuro e maioria, porém abaixo de 50% do total de votos para Bolsonaro azul-claro, e o mesmo para o candidato Lula, só em vermelho-escuro e vermelho-claro1:

Mapa do município do Rio de Janeiro com as zonas eleitorais indicando resultado dos votos para presidente nas eleições do Brasil de 2022. Cor escura, candidato com mais de 50% dos votos, cor clara, com maioria, porém menos do que 50%. Azul: Bolsonaro; Vermelho: Lula. / Fonte: https://especiaisg1.globo/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2022/mapas/apuracao-zona-eleitoral-presidente/rio-de-janeiro/1-turno/

Para todo o município o saldo se deu em 47% dos votos para Bolsonaro e 43,47% dos votos para Lula. Diante do fato que 49% dos votos válidos para governador no município foi a favor do governador reeleito em primeiro turno Cláudio Castro – que fez campanha eleitoral através de operações policiais genocidas em favelas – e com isso 15 pontos porcentuais à frente do segundo colocado Marcelo Freixo com 34,87%, a vantagem que Bolsonaro abriu na cidade do Rio de Janeiro pode até ser considerada “moderada”. Mas o que me interessa refletir aqui é uma questão de como pensar uma cartografia dos votos nas eleições a partir da periferia urbana. Pelo ponto de vista dos centros, das bolhas das classes médias, a coisa parecia clara: “A Zona Oeste está com Bolsonaro…!” 

Só que no mapa acima, já chama atenção uma zona eleitoral (ZE) que foge do padrão, a ZE 179, que oficialmente faz parte da Barra da Tijuca, está em vermelho em meio a ZE’s de azul-escuro, com 52% dos votos a favor do Lula e apenas 42% a favor do Bolsonaro. É a zona eleitoral na qual fica a favela Rio das Pedras. Ao mesmo tempo que essa favela é um dos berços da milícia do Rio de Janeiro, é território de migrantes, sobretudo de origem do nordeste do Brasil. Diante dessa ZE o contraste com a 9° ZE que abriga a maior parte dos bairros das classes médias e altas da Barra da Tijuca: aqui Bolsonaro ficou com 54% dos votos e Lula apenas com 34,5%. Quando ouvia que a “Zona Oeste está com Bolsonaro” comecei a suspeitar que talvez o mapa poderia estar escondendo um contraste que adentra a maioria das Zonas Eleitorais, mas que no caso da Barra da Tijuca ficou evidenciado. Se aqui uma zona corresponde predominantemente a bairros das classes médias e altas e outra às classes médias baixas e baixas, essa fragmentação do território urbano não segue as divisões em zonas eleitorais nas demais partes da cidade. Em outras palavras: uma possível diferença entre “asfalto” e “favela” não seria possível detectar nesse mapa das ZE’s. Com acesso a mais dados e com mais tempo para analisar, aos poucos a maior complexidade da realidade foi se desvendando e revelando.

Votos em Lula e Bolsonaro em seções eleitorais localizadas em favelas ou em suas adjacências imediatas. Fonte: Extra Online. / Fonte: https://extra.globo.com/noticias/politica/lula-bolsonaro-venceram-no-primeiro-turno-em-favelas-do-grande-rio-com-perfis-distintos-veja-quais-25588795.html

Por um lado, ZE’s com grandes conjuntos de favelas como Maré, Alemão e Manguinhos já nesse mapa tem maioria dos votos a favor do Lula. Mas o que foi interessante observar e foi notificado em matéria do Extra2 é que outras grandes favelas da Zona Oeste, mesmo que em meio a uma parte da cidade que no mapa parece toda em azul-escuro, votaram majoritariamente com Lula. Com base não do total de votos por zona eleitoral, mas diferenciando por seção eleitoral dentro ou nas adjacências imediatas de 15 favelas ou conjuntos de favelas, o Extra revelou que mesmo que localizadas em meio à Zona Oeste, em algumas favelas como a Cidade de Deus, Lula teve 52,4% dos votos diante de apenas 40,5% de votos a favor do Bolsonaro, e Rio das Pedras aparece com 58,7% a favor do Lula versus apenas 34,6% de votos a favor do Bolsonaro, e outro reduto da milícia do Rio, como Gardênia Azul, aparece com 50,3% a favor do Lula versus 42,1% a favor do Bolsonaro. Porém, há também favelas, onde o quadro se inverte e Bolsonaro ganha mais da metade dos votos, como no caso de Urucânia ou Conjunto Manguariba, ambos no extremo oeste do município. O que aprendemos e podemos refletir a partir desses dados?

Por um lado, é preciso redobrar nosso cuidado quanto à questão do que análises e mapas eleitorais não são capazes de revelar ou escondem: a Zona Oeste não é toda Bolsonaro, mesmo que no “asfalto”, nos bairros suburbanos apoiadores de Bolsonaro predominam no espaço público e amedrontam e ameaçam a quem pensa diferente. E mesmo que seja assustador que há muitas moradoras e moradores de favela que apesar de tudo e apesar de quatro anos de um governo destruidor continuam desejando um segundo mandato do Bolsonaro, há aparentemente mais moradoras e moradores de favelas que identificam nesse governo um inimigo de sua classe e de seus territórios. 

Mas também é preciso olhar para um dado que pouco se considera nas análises: No município do Rio de Janeiro, no primeiro turno, abstenções (24,19), votos nulos (3,28%) e brancos (1,58%) somaram 29,05%! Isso quer dizer que um candidato que obtiver 50% dos votos válidos, conta com apoio de apenas 35% das pessoas aptas a votar. Isso em um país de obrigatoriedade do voto é um dado que não pode ser ignorado. Não poucos parecem não se sentir representados pelos projetos de governo em disputa.

E, assim, é preciso também questionar criticamente algumas questões que vieram à tona entre primeiro e segundo turno dessas eleições. Vimos um despertar entre setores da esquerda e nas redes milhares de mensagens, fotos, vídeos que apoiam com muita criatividade o candidato Lula. Em um dessas mensagens se lê: “Faz quatro anos que domingo que vem não chega”. Nada mais sincera do que essa afirmação: parece que muitos mesmos reduzem política às eleições. Porém: um governo liderado por um protofacista como no caso do Bolsonaro que chega ao final de quatro anos de mandato e não foi derrubado pelo povo bem antes não é um governo de extrema-direita derrubado: é um projeto de extrema-direita que se consolidou (vide o sucesso nas eleições do partido PL e outros partidos de direita). 

E se estamos unânimes na nossa avaliação de que a qualquer esforço é preciso derrubar esse governo, por que não vimos uma efervescência de militância a partir do primeiro dia que o governo Bolsonaro desgovernou? Será que havia uma postura de espera mesmo: vamos superar esses quatro anos, reeleger o Lula, e continuar na nossa zona de conforto? Pelo ponto de vista das favelas, é evidente que o bolsonarismo é uma tragédia. Mas também os muitos companheiros e as muitas companheiras de luta que fazem o “L” sabem que um governo Lula-Alckmin não vai ser um governo que vai fazer políticas radicalmente pró-povo e pró-favelas. Aqui na Maré lembramos muito bem do que significou um ano de ocupação militar fruto de uma parceira do governo estadual Cabral com o governo federal Dilma… e há “n” razões que não preciso alistar aqui que apontam para o óbvio: seja qual projeto de governo ganhe a presidência no domingo, nas bases e a partir das bases a luta precisa seguir firme. Na torcida de que ninguém volte para a sua zona de conforto a partir de segunda-feira. Tomaram as redes e as ruas para apoiar o Lula? Vai aqui o convite: venham para as lutas nas bases que acontece a cada dia independente de eleição ou não e de quem nos governa ou desgoverna ou não. Lutas que não cessarão e precisarão de todo apoio e criatividade todos os dias até e para além das próximas eleições.


[1] Vive e participa no trabalho de base nas favelas da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro. Ele participa no “Coletivo Roça!” que procura articular o trabalho comunitário, as economias coletivas e a agroecologia. Como professor e investigador, trabalha na Universidade Federal Fluminense, Niterói, defende a ciência como um instrumento de luta e procura fazer Geografias em movimento(s).

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s