“Violência fractal: sobre os mass shooting e o novo conteúdo do social numa sociedade em colapso” por Thiago Canettieri

Thiago Canettieri
Professor do departamento de urbanismo da UFMG (thiago.canettieri@gmail.com)
Junho de 2022


Até o início de junho, ocorreram mais de 250 mass shooting (tiroteios onde quatro ou mais pessoas – não incluindo o atirador – são feridas ou mortas) neste ano de 2022 nos Estados Unidos. Têm sido em média mais de um evento desse tipo por dia até agora esse ano. Nem uma única semana de 2022 passou sem pelo menos quatro tiroteios em massa. Se há algum lugar que parece traduzir de forma suficientemente sintética a noção de “Guerra Civil Molecular”, de Hans Magnus Enzensberger[1], esse lugar é a “Terra da Liberdade”.

Claro, essa liberdade é uma liberdade fetichizada. Reduzida a capacidade comprar armas de alto poder ofensivo no supermercado, a liberdade estadunidense só faz sentido se acompanhada da racionalidade paranóica que parece circular por todo o mundo.

Uma teoria crítica do atual estado de coisas em colapso tem que se haver com uma explicação coerente para essa situação. Por que os mass shooting têm aumentado nos últimos anos?  Em 2021, ocorreram quase 700 incidentes desse tipo, um salto dos 611 em 2020 e 417 em 2019. Antes disso, os incidentes não haviam ultrapassado 400 por ano desde que a ONG Gun Violence Archive começou a rastrear em 2014.

Criador: Mark Wilson | Crédito: Getty Images | Direitos autorais: 2018 Getty Images

Com certeza o fato de existir disponível para fácil acesso (parcelado no cartão de crédito) armas de altíssimo grau de agressão que disparam rajadas de balas que atravessam objetos, paredes e tecidos humanos em alta velocidade é um dos fatores. Entretanto, a meu ver, é preciso ir mais fundo do que uma simples relação de oferta no mercado.

O que permite existir o afeto que leva a tais situações? Longe de propor uma resposta unívoca, este texto é uma breve tentativa de colocar alguns elementos a mais na análise e interpretação da violência fractal que assola os Estados Unidos e parece estar potencialmente pronta para se manifestar em todo lugar do mundo.

De pronto poderia sugerir uma hipótese: a deflagração dessa violência fractal acontece pari passu ao desmonte das formas historicamente constituídas de mediação social.

O capital nada mais é do que uma forma fetichista de mediação social que se formou ao longo do tempo. Trata-se de uma maneira de reprodução social dos indivíduos presa ao invólucro da forma-mercadoria e submetida ao imperativo da valorização do valor. Esse mesmo processo é intrinsecamente contraditório: a própria produção ampliada do capital coloca os limites e as barreiras a sua própria reprodução e, assim, conduz a si próprio para um estado de crise. Esse processo imanente de crise foi descrito por Marx[2]. A noção de mais-valor relativo, como descrito por Marx, é central para essa compreensão. Se os capitais individuais precisam aumentar a produtividade do trabalho, estes o fazem elevando a composição orgânica do capital, o que significa uma redução da massa de trabalho vivo disponível e, por fim, menos valor é criado no sistema geral. Essa formulação teórica de Marx, ainda no século XIX, se mostrou verdadeira quase um século mais tarde, na década de 1970, quando o desemprego se generalizou e continua aprofundando cada vez mais, em ciclos que parecem cada vez mais autonomizados da conjuntura econômica[3].

Ora, o resultado disso é a dissolução de formas historicamente determinadas de mediação social constituídas sob a égide do capital ocasionada pelo seu próprio funcionamento interno. Dentre várias formas-sociais, podemos chamar atenção para o trabalho, substância do valor — que não é uma categoria estritamente econômica em Marx, mas uma categoria de crítica social. O trabalho funciona nessa sociedade como o princípio de mediação entre os indivíduos, de formação de identidade e de reconhecimento intersubjetivo. Essa mesma sociedade que alçou o trabalho a este posto o derruba — sem nada pôr em seu lugar. Desta maneira, a erosão deste pilar, o trabalho, faz todo o edifício social ruir.

Assim, ocorre a constituição de uma sociabilidade baseada na violência como forma prioritária de mediação social[4]. Essa violência é dispersa, molecular e generalizada, bem diferente do que foi a violência “organizada” do século XX, e guarda uma certa homologia com o mito da concorrência generalizada no mercado de cada um por si. Como notou Marcos Barreira[5], “a iniciativa individual assume, então, uma forma ainda mais selvagem, na qual os indivíduos socializados diretamente pela concorrência já se preparam com armas na mão para os próximos estágios da crise”. A sociedade passa por um processo de “dessocialização catastrófica” e produz indivíduos enquanto mônadas asselvajadas, que atuam como operadores de uma nova forma de guerra, mesmo que não tenham consciência de seu papel social.

Encontrar numa sociedade deflagrada as razões da disseminação da violência, como são os Estados Unidos, passa por compreender pela dissolução do trabalho como forma de mediação social que é paulatinamente substituída pela violência. Desse contexto se “fermenta” toda sorte de ressentimento que vai acumulando até o ponto de ruptura em explosões violentas.

Durante um tempo existiu nos Estados Unidos uma expectativa de produzir formas de controle social para esse grupo socialmente supérfluo e potencialmente perigoso. A proposta apresentada por um ex-conselheiro do presidente Jimmy Carter seria um tittyainment: uma mistura de comida suficiente e diversão, entretenimento embrutecidos, capaz de produzir sob essas pessoas um “estado de letargia feliz, semelhante à que sente um recém-nascido que mama no seio (tits, no jargão americano) da mãe”[6]. Parece, com os acontecimentos recentes, que a estratégia do tittyainment deixou de funcionar e a deflagração dessa sociedade em pé de guerra continua a aprofundar e a se generalizar.

Essa situação de violência poderia remeter ao filme Le Couperet, dirigido por Costa-Gravas. A trama do filme apresenta uma situação semelhante: um engenheiro químico despedido que, depois de anos desempregado e ressentido, resolve estruturar uma operação para retornar ao trabalho. Cria uma empresa falsa para receber currículos de seus concorrentes e mata um a um. A diferença da realidade contemporânea é, contudo, enorme: no filme o tal engenheiro, após eliminar – literalmente – seus concorrentes – consegue novamente um emprego; hoje, o tipo de violência que ocorre, dá testemunho que os seus perpetradores já não possuem essa expectativa. Como notou Jappe[7], nessas condições, essas matanças são uma espécie de “suicídio ampliado”.

Seria um equívoco enxergar na ideologia da concorrência a afirmação positiva dos indivíduos. No contexto contemporâneo, do acirramento absurdo da concorrência, não há mais sujeito, mas apenas uma pulsão de morte da subjetividade concorrencial que vem à luz como sua última consequência. “Quanto mais a concorrência abandona os indivíduos ao vácuo metafísico real do capital, tanto mais facilmente a consciência resvala em uma situação que aponta para além do mero “risco” ou “interesse”: a indiferença para com todos os outros se reverte na indiferença ao próprio eu”[8].

Não há surpresa em lembrar que o ideal da concorrência capitalista produziu um imperativo sobre a objetividade e subjetividade da vida social: transformou a reprodução da vida em termos de uma guerra perpétua individualizada em que cada qual, para lograr êxito no mercado cada vez mais estreito, deve eliminar seus adversários-inimigos-concorrentes. O cálculo frio e indiferente do início do século XX já não mostra resultados satisfatórios para passar no buraco de agulha da crise contemporânea. A estratégia agora é outra: agressividade selvagem. Talvez seja por isso  que prolifera hoje esse tom de auto-ajuda que remete a fantasia atávicas para dar dicas de “como sobreviver na selva”.

Na crise mundial, a concorrência se transforma em concorrência econômica de aniquilamento e, portanto, em concorrência social existencial que, por seu turno, se inverte em concorrência violenta imediata e “masculinista”[9].

Esse estado de desagregação social, somada a ética concorrencial do neoliberalismo tem produzido o desmanche das poucas ilhas de segurança social que formavam barreiras contra as explosões de violência fractal[10]. Nesse sentido, Götz Eisenberg[11] sintetiza precisamente a combinação que produz a faísca dessa explosão.

Desintegração social (portanto, estreitamento do mercado de trabalho, exclusões múltiplas, guetização) + desestruturação psíquica (diminuição do superego, expandida fraqueza do eu, falta de elos sociais, raiva e não integração) = probabilidade de que aumentam as explosões de violência incontroláveis.

É preciso reconhecer que essa situação é produzida pelo desenvolvimento “normal” do capitalismo[12]. E mais: é preciso reconhecer que a continuação dessa situação estão relacionadas com esse “novo espírito do capitalismo”[13] que continua a propagar a liberdade fetichizada num mundo em colapso que só pode resultar em mais violência.

Nesse contexto de capitalismo de “acumulação flexível”[14] (na verdade, tudo o que há é apenas um espetáculo de acumulação), as características que eram valorizadas pelo regime fordista se tornaram disfuncionais. Como argumenta Anselm Jappe[15], o “novo sujeito” mais adaptado ao modelo social do colapso é o “sujeito borderline”, com sua personalidade instável. Diferentemente da personalidade autoritária, que sente “raiva” e a dirige contra um bode expiatório, o sujeito narcísico e borderline produz um “ódio sem objeto”: “Vê-se devorado pelo receio de que a sua estrutura psíquica possa dissolver-se inteiramente, e a agressão lhe serve como mecanismo para conservar o eu” – vale notar, exatamente quando não há mais eu. Afinal, sua identidade se constituía pelo trabalho e as experiências de perda dessa estrutura identitária e interpessoal faz liberar a energia destrutiva da violência amok.

No mundo contemporâneo, submetido aos critérios da produtividade da terceira revolução industrial, as forças produtivas no mercado mundial continuam a produzir mercadorias sem valor. Isso conduz ao embotamento das formas de mediação social historicamente constituída. As pessoas são dispensadas do trabalho, mas não da forma-trabalho, afinal essa forma capitalista constitui a própria forma do sujeito. Por isso, a experiência de perder o emprego é tão potencialmente destrutiva. A lógica de aniquilação nada mais é do que a elevação da concorrência ao princípio fundamental da relação social que se manifesta como explosão de violência fractalizada. Como já foi dito, no limite, a vontade de aniquilação se realiza de duas formas: “por um lado, visa a aniquilação dos outros, aparentemente com a finalidade da autopreservação a qualquer preço; por outro, é também uma vontade de auto-aniquilação, que executa a falta de sentido da própria existência na economia de mercado”.[16]

A autoconsciência em crise da modernidade, não raro, olha para seus próprios efeitos de forma fetichizada. Geralmente concebe-se essas explosões de violência como irracionalidade ou como extrusão pré-moderna. Todavia, é importante, para compreender a epidemia da violência amok que ela faz parte de uma certa razão e é expressão das contradições da própria era moderna em colapso.

Assim, o conteúdo social do momento de colapso que vivemos é dado pela violência fractal, cada vez mais dispersa e danosa. E em vias de normalização. A escalada dessa guerra civil molecular vai revelar o fundo de tacho da sociabilidade capitalista em crise: barbárie.


[1] ENZENSBERGER, Hans Magnus. Guerra Civil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

[2] MARX, Karl. 2013 [1867]. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo.

[3] KURZ, Robert. 2018 [1986]. A crise do valor de troca. Rio de Janeiro: Consequência.

[4] Sobre isso, conferir meu livro A condição periférica (Consequência, 2020). Em especial, o capítulo  “Violência como nova forma de mediação social”.

[5] BARREIRA, Marcos. 2020. Brasil em tempos de declínio social: comentários sobre a pós-política no governo Bolsonaro. Margem Esquerda, n.35, p.84.

[6] JAPPE, Anselm. Crédito à morte: a decomposição do capitalismo e suas críticas. São Paulo: Hedra, 2013, p.211.

[7] JAPPE, Anselm. 2021 [2017]. A sociedade autofágica: capitalismo, desmesura e autodestruição. São Paulo: Elefante, p.247.

[8] KURZ, Robert. 2002. A pulsão de morte da concorrência. Folha de São Paulo, 26 de maio de 2002. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2605200218.htm Acesso em: 9 jun. 2021.

[9] KURZ, Robert. 2019 [2003]. Guerra de ordenamento mundial, p.41. Disponível em: https://www.exit-online.org/pdf/A_Guerra_de_Ordenamento_Mundial-Robert_Kurz.pdf Acessado em 09 jun. 2022.

[10] A relação do neoliberalismo com o afeto belicoso próprio da guerra é algo explorado por Pierre Dardot, Christian Laval, Haug Guéguen e Pierre Sauvêtre em “A escolha da Guerra Civil” (Editora Elefante, 2021).

[11] EISENBERG, Götz. 2015. Zwischen Amok und Alzheimer. Zur Sozialpsychologie des entfesselten Kapitalismus. Frankfurt: Brandes und Apsel, p.216.

[12] KURZ, Robert. 2014 [2012]. Dinheiro sem valor: linhas gerais para uma transformação da crítica da economia política. Lisboa: Antígona.

[13] BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Eve. 2009 [1999]. O novo espírito do capitalismo. São Paulo: WMF Martins Fontes.

[14] Cf. HARVEY, David. 2005 [1989]. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as transformações culturais. São Paulo: Edições Loyola.

[15] JAPPE, Anselm. 2021 [2017]. A sociedade autofágica: capitalismo, desmesura e autodestruição. São Paulo: Elefante, p.259.

[16] KURZ, Robert. 2019 [2003]. Guerra de ordenamento mundial, p.56. Disponível em: https://www.exit-online.org/pdf/A_Guerra_de_Ordenamento_Mundial-Robert_Kurz.pdf Acessado em 09 jun. 2022.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s