RESENHA: ‘Movimentos sociais na América Latina: O ‘mundo outro’ em movimento’, de Raúl Zibechi

por Bronzi Rocha [1]
bronzi_rocha@id.uff.br

ZIBECHI, Raúl. Movimentos sociais na América Latina: O “mundo outro” em movimento. Rio de Janeiro: Consequência, p. 108, 2020.

“Movimento sociais da América Latina: O ‘mundo outro’ em movimento’ é um livro descomplicado de 108 páginas, possui uma leitura rápida e fluida, que pode ser proveitosa numa tarde de domingo. Traz um panorama da pluralidade de lutas que vem sendo travadas na América Latina (tanto campesinas quanto urbanas), é uma revisão de luta de anos recentes no continente que se conectam questões profundas de raízes colonizatórias do continente e de atual fase neoliberal extrativista. 

O livro tem a apresentação de Timo Bartholl e Eduardo Tomazine Teixeira, dois dos tradutores do livro. O terceiro tradutor que não assina apresentação do livro é Luiz Rafael Gomes. Essa é a segunda edição do livro publicado em primeira edição no México em 2017 pela editora Bajo Tierra Ediciones e El Rebozo, sendo assim como a Consequência Editora, editoras independentes localizadas naquele país.

Existem duas introduções ao livro de 2020. A primeira que se dedica exclusivamente a edição publicada no Brasil, e após, a introdução dedicada a primeira edição. Nessas duas introduções o autor Raúl Zibechi irá nos indicar que este livro texto é fruto de um contínuo acompanhamento dessas lutas, feito junto aos movimentos. Portanto, trata-se de uma análise de alguém que acompanha esses movimentos sociais na América Latina de perto há muitos anos. Neste sentido, inclusive é indicada a prévia leitura do texto do Apêndice em ambas introduções, pois esse texto, de 2003, é crucial para entender as auto-críticas e reformulações teóricas do autor. 

O professor Raúl Zibechi tem 70 anos, milita desde jovem, quando era estudante, em 1969, foi militante da Frente Estudiantil Revolucionario (FER) um grupo vinculado ao Movimiento de Liberación Nacional Tupamaros. Meio a ditadura militar argentina, o professor teve que se exilar, foi para Madrid (Espanha) onde ficou e atuou durante mais de dez anos junto ao Movimento Comunista local. Ali atuando com educação popular realizando atividades de alfabetização junto a campesinos e se organizando em movimentos antimilitaristas contra-OTAN. O professor Raúl Zibechi, portanto, vem há muito não só atuando junto aos movimentos sociais, mas num movimento de investigação militante, elaborando a partir das lutas.

Por isso, escapa o papel do intelectual neutro e descolado da realidade, seja de forma crítica ou conservadora. Faz suas análises, notável em leitura, de uma forma sincera a respeito dos ‘povos em movimentos’ e cheias de afeto, demonstrando que na luta se recriam laços de relações sociais. Da forma que escreve transmuda as inúmeras linhas de experiências junto aos movimentos em sua trajetória. 

Em passagem Raúl diz, 

Meu sonho, meu desejo mais profundo, é que esses sujeitos coletivos priorizem suas culturas e visões de mundo, que não cedam às formas ocidentais e institucionais de política e construção de poder. Em suma, que sejam portadores dos novos mundos de que tanto precisamos nesta hora, marcada por um capitalismo predatório que nos afoga e mata. (p. 21)

Essa passagem se conecta com outro do seu trabalho escrito junto a Décio Machado, publicado a Consequência Editora em 2017, intitulado “Os limites do progressismo: Sobre a impossibilidade de mudar o mundo de cima para baixo”. Outro livro que levanta um resgate crítico da recente-história da América Latina, naquele momento se concentrou na crítica da impossibilidade de mudar o mundo de cima para baixo, não adentrando, como no livro de 2020 nas experiências contra-hegemônicas de movimentos sociais nomeados ‘povos em movimentos’ pelo autor e que atuam nos seus territórios com diversas territorialidades de resistência.

Na introdução destinada à edição brasileira, Raúl retoma 2013 dizendo que aquele ano foi um ‘tsunami’ que trouxe uma diversidade de coletivos e formas de ação que já existiam nas profundezas da vida social coletiva, mas que emergiram naquele momento com um potencial transformador. Na introdução brasileira cita em como em resposta àquele momento desembocamos num governo e movimentos de extrema-direita em ascensão. É impossível separar o crescimento e triunfo desse governo sem entender que se trata de uma reação contra o ‘tsunami’ de coletivos de resistência que atuaram tomando projeção e ainda atuam no tecido da vida social coletiva de forma cotidiana, destaca-se, por exemplo, uma reação contra o feminismo popular. 

Na introdução brasileira destacamos também que o autor faça menção a movimentos brasileiros como o Movimento da Comunidade Populares (MCP) e também o Movimento Passe Livre. Ou, ainda, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). 

O livro está estruturado em quatro capítulos nesta edição de 2020. Com um texto anexo, após as introduções que versa especificamente da situação dos movimentos meio a pandemia, escrito em 2020, intitulado “O mundo outro em movimento”.

Esse texto é fruto de muitos anos de participação e movimentos sociais latino-americanos localizados em diferentes localidades da América Latina, fruto de um trabalho contínuo há muitos anos. Portanto, o autor indica na introdução dedicada à primeira edição estrangeira que o trabalho em questão dialoga com um texto dele próprio escrito em 2003.

No capítulo 1, “Um balanço de 15 anos”, o autor faz um panorama dos movimentos e insurgências das últimas duas décadas. Situa fatos históricos, é nessas últimas duas décadas que chegam ao poder governos progressistas em diversos países da América Latina e vai falando de levantes populares situados em diferentes países. Durante, propõe uma análise de características semelhantes entre eles, mas com destaque às suas diferenças. Por exemplo, tratando da interseccionalidade das lutas que se centram nas relações sociais, e aí reside a sua potência de resistência, pois não se desvincula da realidade vivida, tornando questões de classe, étnico-raciais e de gênero centrais nas pautas políticas. Destaca como eixo centrais na análise o papel desempenhado pela educação popular (EP) e o papel das mulheres (e jovens!).

Esses movimentos mais se conectam por conta de suas diferenças do que pelas suas semelhanças. Assim o autor diz que o que é mais comum entre os movimentos pode ser tenso atenção anticapitalista. Mas que ela se manifesta mesmo assim de muito diferentes. Nesses movimentos há criação de identidades. Não apenas ou estritamente uma manutenção e resgate de uma tradicional, pré-concebida noção de identidade. São movimentos de resgate e também de mutações criativas que criam identidades contingentes. 

O autor destaca também que teve um importante papel o ‘enraizamento territorial’. Ou seja, em um diálogo com a Geografia em que na virada do século ganha destaque o território como categoria chave para trabalhar com as lutas e movimentos sociais. Relembramos e no texto o autor faz o uso dessas outras categorias, bebendo diretamente da ciência geográfica, da tríade território-territorialidade-territorialização. Raúl também confere que o território está para além da materialidade, dando ênfase a dimensão simbólica do território. 

O autor vai trazer também diversas experiências desses movimentos no que tange a educação, à educação popular especificamente. Por exemplo, cita a experiência Zapatista com a educação autônoma e organização da estrutura escolar dentro das comunidades, é inspiradora essa parte do texto em específica. 

Neste balanço de quinze anos o autor também recapitula os movimentos de mulheres e feminismo latino-americano e demonstrando alguns aspectos. Em primeiro lugar que houve a expansão do movimento de mulheres. Segundo que sua dinâmica se verifica ao nível local de que as mulheres têm ocupado lugar de destaque dentro de suas comunidades. Em terceiro que é importante registrar trajetórias de um feminismo que na última década se diversifica e se enriquece. Como, por exemplo, o fortalecimento dos femininos negros, indígenas, populares e autônomos, anticoloniais, os ecofeminismos, entre outros. Também destaca que agora muita das feministas são jovens de 14 e 15 anos, ocupando papeis expressivos nos movimentos e dentro de suas comunidades.

O autor também vai trabalhar algumas dos desafios vividos dentro dos movimentos autônomos como, por exemplo, como diluir a ação de autoridades ou de funções que se destacam enquanto autoridades, como segurança e autodefesa,  e, como, ao mesmo tempo, desvincular essa autoridade da vida política ou manejar esses interesses conflituosos

Mostrando que existem diferenças entre os movimentos e uma diversidade de práticas de luta, Raúl nos mostra uma ampliação do conceito de luta em uso pelos diferentes movimentos sociais que atuam na América Latina, a pluralidade é chave e é isso que faz o autor compor um quadro tão rico de experiências neste livro.

No segundo capítulo o autor vai falar dos aspectos presentes nestes muitos movimentos latino americanos, por exemplo, destacando que eles estão em constante ressignificações de suas lutas. Não se pode supor uma homogeneidade dessas lutas de base, já que se trata de relações sociais heterogêneas ou localizadas, e, por isso mesmo, contra-hegemônicas, opondo-se ao par homogeneidade x heterogeneidade, frisando a contra-hegemonia e criação não de um novo mundo, mas de um “mundo outro”.

São seis aspectos que destaca: 

  1. O primeiro é que os movimentos resistem e criam ao mesmo tempo. Ele frisa isso e diversos momentos do texto que esses movimentos são altamente criativos. 
  2. O segundo é que se destacam uma dupla centralidade exercida pela comunidade e pela reprodução. Retomando o papel das mulheres de politizar a ‘reprodução’ e serem pivôs no interior de suas comunidades de luta. 
  3. O terceiro é a massificação do papel das mulheres e dos jovens. 
  4. O quarto aspecto é que se observa uma afirmação dos povos negros e povos indígenas (de terras baixas), que são autônomos e elegem suas próprias pautas. Portanto, comunidades negras e indígenas rejeitam a nota a lógica capitalista e paternalista ocidental, reafirmando e recriando suas culturas. 
  5. O quinto destaca que os povos criam os seus próprios poderes, sua própria justiça e suas próprias formas de defesa e autodefesa criando, portanto, ‘outro’ mundo com uma outra organização política. 
  6. Em sexto lugar uma característica é que os movimentos assumem uma poderosa atitude anticolonial.

Por dizer colonial e anti-colonial, não só se levanta crítica a colonização na época das navegações, mas se refere a uma atitude anticolonial, anticolonização de seus territórios que implica o extrativismo em relevo nesta fase do neoliberalismo-extrativista tão contemporâneo em terras latino-americanas.

No terceiro capítulo o autor vai falar de pensamentos autóctones que guiam muitos desses grupos de re-existência.

Sob poder-saber-colonial, muitos desses povos foram atacados em suas cosmologias e cosmovisões. Assim, o resgate e reafirmação de suas próprias ontologias e epistemes. A colonização promove uma subordinação dessas formas e modos de existências ao herói ocidental, homem branco, colonizador e cristão, agora esses grupos resgatam e reconstroem suas epistemes, assentados em suas práticas territoriais e culturais. 

Se trata de saberes-localizados e saberes-comunitários e coletivos, não é um indivíduo que detém o ‘conhecimento’ e sim são saberes coletivos gerados pelas comunidades de luta. Esse ‘povos em movimento’ pregam a partir de suas próprias práticas são uma desconstrução da lógica vigente do pensamento crítico situado nas cadeiras universitárias e de instituições.

No quarto e último capítulo, o mais curto, em que o autor traz considerações sobre metodologias, abrindo com uma belíssima citação de Silvia Cusicanqui, uma autora boliviana aymara: “Revelar e desmudar o que se conhece do “outro” (…) equivale então a uma traição”. Levantando considerações sobre metodologias, o autor faz uma (auto-)crítica necessária aos pesquisadores e intelectuais ditos ‘críticos’ que são que, recorrente, tornam-se ‘especialistas’ nos movimentos sociais, resguardando distância ou relações verticais com estes. 

Este livro ele é composto por muitas vozes. Quando o autor faz as (auto-)críticas, principalmente ao exercício acadêmico e universitário, mas ao campo ‘progresssita’ em geral, ele traz concepções e noções referenciadas nos próprios sujeitos em movimento, povos em movimento.

O autor destaca, neste momento, a mobilização de formação de intelectuais destes próprios movimentos, rompendo com um ideal de pesquisa de sujeito-objeto ou de sujeito objetificado pelo processo de pesquisa, para quando os sujeitos que pesquisam suas próprias realidades, provocando fissuras num paradigma científico que se ancora numa ciência colonial.

Resgata algumas modalidades de pesquisa-ação, por exemplo, defende a história oral como exercício de desalienação coletiva, outras metodologias. Portanto, ocupar as cadeiras universitárias/acadêmicas, é escrever outros textos, a partir da perspectiva do sujeito em movimento. Assim, critica processos da construção academicisa/universitária descolada das realidades dos movimentos acontece, por vezes, uma provisória aproximação do pesquisador com a realidade pesquisada, num movimento de atividade extrativa de saberes localizados, e no final, a carência de retorno as comunidades pesquisadas/entrevistadas. Quando os próprios sujeitos-coletivizados e localizados nas comunidades pesquisam, pesquisam para transformação ou para auto-afirmação, assim, os próprios pesquisadores são sujeitos coletivos de luta retornam esses saberes em suas comunidades de forma orgânica.

Por fim, o livro finaliza com o apêndice, o texto que menciona revisitar, escrito e publicado em 2003. Raúl recomenda prévia leitura deste antes dos capítulos iniciais, já que cronologicamente há uma transformação das ideias do autor e autocríticas que vão sendo tecidas durante os capítulos de 2020. Esse texto do apêndice intitulasse “Os movimentos sociais latino-americanos: tendências e desafios”. 

Enfim, em Movimentos sociais na América Latina: O ‘mundo outro’ em movimento Raúl Zibechi fala de características que aproximam e conferem singularidades a essas criações ‘outras’ a partir das fissuras de uma hegemonia predatória que se impõem sobre os territórios e territorialidades, de forma material e simbólica. Não supõe estagnar em retrato emperrado um panorama de lutas antissistêmicas, mas, ressoa em ecos uma conjuntura de lutas anticapitalistas, anticolonialistas e antipatriarcalistas latino-americanas.


Referencias e indicações de leitura

BARTHOLL, Timo. Por uma Geografia em movimento: a ciência como ferramenta de luta. Rio de Janeiro: Consequência, p. 164, 2018.

CARACOL El apañe de los piños. Mini entrevista a Raúl Zibechi – Investigador Militante Uruguayo (Caracol TV). YouTube, 30 de nov. de 2019. Disponível em: https://youtu.be/T6hjFpqxEBs Acesso em 13 de junho de 2022.

LEMTO UFF. Conjuntura Latino-americana: entrevista com Raúl Zibechi. YouTube, 15 de mar. de 2016. Disponível em: https://youtu.be/Ntyem3-qgGY Acesso em 13 de junho de 2022.

Para conhecer Raul Zibechi. Instituto Humanitas Unisinos, 2017.  Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/573354-para-conhecer-raul-zibechi Acesso em 13 de junho de 2022.

UnBTV. Diálogos: Resistência em Movimentos Sociais na América Latina. YouTube, 10 de nov. de 2017. Disponível em: https://youtu.be/kcCibWQmu_o Acesso em 13 de junho de 2022.

ZIBECHI, RAÚL. Traficantes. Disponível em: https://traficantes.net/autorxs/zibechi-raúl Acesso em 13 de junho de 2022.


[1] Bronzi Rocha é graduando em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Bolsista no Programa de Educação Tutorial (PET) Geografia UFF/Niterói. Estagiário e integrante do Núcleo de Estudos Território e Resistência na Globalização (NUREG/UFF), coordenado pelos professores Rogério Haesbaert e Timo Bartholl. Compõe a Comissão Editorial da Revista Ensaios de Geografia do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFF (POSGEO/UFF). Tem como interesses de pesquisa: teoria queer; anarquismo; sexualidades; ensino de Geografia; educação; estudos decoloniais; [contra-]cartografias. Além disso, é integrante da Equipe de Comunicação da Consequência Editora.

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