RESENHA: ‘POR UMA GEOGRAFIA DAS EXISTÊNCIAS: Movimentos, ação social e produção do espaço’, de Cátia Antônia da Silva, Andrelino Campos e Nilo Sérgio d’Avila Modesto

por Bronzi Rocha
bronzi_rocha@id.uff.br

SILVA, Cátia Antonia da; CAMPOS, Andrelino; MODESTO, Nilo Sérgio d’Avila. Por uma geografia das existências: Movimentos, ação social e produção do espaço. Rio de Janeiro: Consequência, p. 116, 2014.

Por uma geografia das existências não pretende formar um novo campo de estudos da Geografia, é uma proposta por outras metodologias no fazer e pensar a ciência geográfica a partir e pelos sujeitos do cotidiano. O cotidiano é uma das chaves de análise dessa aposta metodológica, e metodologicamente o diálogo é uma ferramenta científica que permite “superar a geografia das formas” e dos “discursos hegemônicos”. 

Trata-se de um livro publicado em 2014 pela Consequência Editora, escrito, então, pela professora Cátia Antonia da Silva e pelos professores Andrelino Campos e Nilo Sérgio d’Avila Modesto, todas três da Universidade Estadual do Rio de Janeiro da Faculdade de Formação de Professores que fica em São Gonçalo, terceiro mais populoso município do RJ que integra a Região Metropolitana do estado (RMRJ) e se localiza no entorno da Baía de Guanabara no Leste Fluminense.

O livro reúne três textos, um de cada autor, neles se propõe pensar uma Geografia que evidencia a vida cotidiana e coletiva do que Milton Santos chamou ‘homens lentos’ ou dos ‘homens ordinários’ de Certeau, redirecionando nossos olhares. Lastimavelmente, o professor Andrelino Campos faleceu em 2018.

É um livro que aponta para uma crítica epistemológica e aponta para novas metodologias no fazer-pesquisar-pensar em Geografia. Na apresentação de abertura do livro, escrita pela professora Anita Loureiro, diz ela que se trata de um “fazer geográfico conectado às existências [que] produz orientações de método” (p. 11).

Toma destaque a inspiradora apresentação do livro escrita pela professora Anita Loureiro de Oliveira, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro do campus de Nova Iguaçu (IM/UFRRJ), outro campi universitário situados numa periferia do RJ, em municípios precarizados e periféricos. Ela diz que a geografia das existências empreende alcançar a leitura dos sujeitos subalternos, subvertendo as metanarrativas dos grandes projetos, agentes e formas, aceita, assim, que a produção científica e apenas uma das várias formas de leituras possíveis da realidade. Isso significa, e, sutilmente propõe outras orientações, mais plurais e criativas, no se pensar e fazer Geografia(s) buscando compreender as resistências e insurgências dos sujeitos cotidianos. 

É um livro endereçado para pessoas ligadas com a Geografia, no sentido de que não pesquisadoras/es estritamente do campo da Geografia, mas aquelas disciplinas em interface, como colegas das Ciências Humanas no geral, podem se beneficiar das discussões travadas pelos autores. Até porque com uma leitura fortemente influenciada por Milton Santos, a Geografia é tida como uma Filosofia das técnicas, e, o espaço (e suas demais categorias) num contexto de globalização é fundamental para compreensão da totalidade social. Nos tópicos a seguir, apresentamos em linhas gerais da discussão de cada um dos três textos que compõe o livro.  

De Catia Antonia: O fazer geográfico em busca de sentidos ou a Geografia em diálogo com a sociologia do tempo presente 

A professora Catia Antonia da Silva, tem outros livros publicados pela Consequência Editora, ela trabalha muito na interface da Geografia Humana e educação ambiental, trabalhando, principalmente, pesquisando com os pescadores da Baía de Guanabara. Ela discute em outros trabalhos de forma empírica, como a urbanização-industrialização afetada a vida e cotidiano desses sujeitos. 

O texto em questão é o primeiro do livro e se divide em três momentos. Primeiro a professora vai fazer um resgate da geografia, isso é epistemologia e desenvolvimento histórico da disciplina, reforçando a ideia de uma geografia ativamente engajada com a produção social. Assim, é uma postura que assume a parcialidade do fazer geográfico e científico. Em uma passagem do texto a professora irá dizer que “(…) existem muitas formas de produção de conhecimento realizadas pelas empresas, pelo Estado, pelos homens comuns, pelas bases étnico-culturais e pelo fazer do cotidiano e do trabalho”, e assim que a “produção científica é [apenas] uma delas, talvez a mais prepotente de todas, ao conformar-se como ocidentalização do mundo e como forma de racionalidade dominante (…)”. 

No segundo momento debate como é complexa a ciência geográfica, já que reúne esforços para o entendimento do mundo considerando fenômenos físicos e humanos. Trabalha nessa parte com Morin (1996), quem reforçar o debate da transdisciplinaridade. Ela ressalta que enquanto pesquisadoras/es e professoras/es críticos, devemos estar comprometidos contra uma rotinização estando cientes dos perigos da produção de leituras do mundo nos fazeres científicos. Neste sentido, a ciência geográfica, como qualquer outra, mas talvez escancaradamente, é inevitavelmente ideologicamente orientada.  

A terceira parte do texto se dedica a menção ao trabalho de Ana Clara Torres Ribeiro, socióloga que trabalhou durante bastante tempo junto ao Milton Santos e desenvolveu alguns conceitos tais como sujeito corporificado, cartografia da ação, impulsos globais, entre outras ideias que desenvolveu em sua extensa bibliografia. Na sua interlocução com Milton Santos, dialogou com os conceitos do geógrafo de espaço banal, homens lentos, território usado e espaço como abrigo. Assim, temos uma noção da abordagem da socióloga que visa privilegiar em conta o cotidiano, não as macroestruturas, enquanto não nega uma coisa a outra. 

De Andrelino: Movimento em estruturas “sócio-espaciais”: em busca dos sujeitos subalternos 

Andrelino Campos se graduou em Geografia pela Universidade Federal Fluminense em 1980, obteve o mestrado e doutorado pela Federal do Rio de Janeiro orientado pelo professor Marcelo Lopes de Souza. Seu trabalho de mestrado tem o mesmo título (diferindo em subtítulo) que o seu livro Do quilombo à favela: A produção do “espaço criminalizado” no Rio de Janeiro, publicado em 2005 pela Bertrand Brasil.  Ele foi um importante autor referência nos estudos sobre o urbano, também desenvolveu trabalhos em respeito ao movimento negro. É lamentável que o professor tenha falecido precocemente em 2018. Na constelação de personalidades geográfica ocupa um significativo lugar. 

O texto de Andrelino em ‘Por uma geografia das existências’ vai centrar forças no esforço teórico nas discussões de método. Ele levanta algumas questões no início e no decorrer do texto, não visando respondê-las objetivamente, mas fornecer caminhos para nossas pesquisas. A sua contribuição com uma geografia das existências é repensar a relação entre “sociedade, espaço geográfico e tempo histórico”, essas que o professor caracterizou como dimensões da totalidade social. 

Para o professor, o movimento é inerente ao social, seja compreendido em seus processos de transformação ou de permanência, até mesmo a palavra processo discrimina o tempo como uma componente da totalidade social e do espaço geográfico. É uma discussão embebida em Milton Santos. Ele faz um jogo com as categorias da Geografia, tocando na questão da escala, discutindo que os movimentos sociais, um mesmo movimento de sujeitos, pode ter a sua universalidade, mas se caracteriza, principalmente, pelas suas particularidades, e, essa singularidade dos sujeitos-coletivizados é condicionada pelo espaço geográfico e tempo histórico.  

É um texto complexo, se conecta muito a uma geografia miltoniana. Assim, discute conceitos como fixos e fluxos, verticalidades e horizontalidades, circulação e circuitos, portanto, um/a não geógrafo/a teria certa dificuldade com as ideias que se referenciam fidedignamente ao campo geográfico. É comum ouvirmos dizer que a leitura de Mílton Santos é uma leitura difícil porque complexa, esse texto de Andrelino se embaraça e desembaraça a complexidade em Milton para propor uma geografia corporificada, que desvela estruturas, em seus sentidos materiais e também imateriais, aponta para uma geografia dos sujeitos cotidianos. 

De Nilo: A “ausência assistida” do poder político na compreensão dos sentidos das ações dos sujeitos sociais na produção do espaço

Nilo Sérgio d’Avila Modesto atua como professor do Ensino médio do Colégio Pedro II e também é professor adjunto da UERJ-FFP, e é o atual Coordenador da pós de Dinâmicas Ambientais da UERJ-FFP. Tem experiência na área de pesquisa de Geografia com ênfase nas relações de poder, por exemplo, seu doutoramento teve como título o trabalho A (re)produção espacial em marcha na consolidação dos Grupos de Poder Hegemônico em São Gonçalo, muito dialoga com o texto em questão.  

O texto desenvolve a ideia de “ausência assistida”, que envolve a invisibilidade social, mas diante de uma discussão complexa a cerca de algumas ideias. Parte de uma definição de sujeitos da ação política, discutindo primeiro o que é o ‘sujeito’, em termos filosóficos e também linguísticos. Avançando o texto traz reflexões sobre o Estado Ampliado numa visão gramsciana, discutindo o que é o Estado, hegemonia, totalidade social, correlação de forças e bloco histórico. Nesse sentido, termina por dialogar bastante com o texto anterior de Andrelino Campos.

O autor ira fazer uma retomada de conceitos gramscianos, como os de sociedade civil, sociedade política, aparelhos privados de hegemonia 

Discute também a ideia de  sociedade civil e de sociedade política, em Gramsci. Se refere a ideia poder em disputa pela hegemonia, a hegemonia mais entendida como capacidade de orientação das ações, e o poder desenvolvido pelo autor está referenciado em dois autores, Foucault e Hobbes, são ideias distintas de poder, não antagônicas. 

Apesar de discutir hegemonia ele não se centra no grupo hegemônico, ele vai travando uma discussão teórica e metodológica, de que de alguma forma produza uma geografia política dos sujeitos. Exalta, assim, o papel do sujeito na disputa por hegemonia e essa disputa esse conflito é político, portanto a sociedade civil não está isenta de ser uma sociedade que se atrela a política, entrelaça a vida política à vida social. O autor desenvolve a ideia de que o espaço em que se produz e se difunde representações ideológicas é a sociedade civil, e, os aparelhos privados de hegemonia podem ser tidos como famílias, igrejas, escolas, sindicatos, partidos que são elementos do espaço, portanto, elementos da sociedade civil.

A entidade Estado, nessa concepção, afirma que os demais grupos visam alcançar a hegemonia dentro do Estado, disputam tornar-se grupo hegemônico, assim ele traz a ideia de que “ausência assistida” é de uma hegemonia precária. Na sua análise a partir de contextos sociais urbanos periféricos grupos que dominam e querem afirmar sua hegemonia territorial se utilizam de moedas de troca como o clientelismo ou assistencialismo. Daí a ideia de ausência assistida. 

Em linhas gerais, o que o autor tenta fazer é apontar para geografias que caminhem o sentido contra-hegemônico e desvendando/denunciando ações de grupos hegemônicos e seus interesses. São esforços teóricos e metodológicos de uma geografia comprometida em tirar sujeitos de sua ‘invisibilidade’, neste sentido, tanto sujeitos contra-hegemônicos da visibilidade, mas também os sujeitos hegemônicos. Os sujeitos estão em ação, e, portanto, ativamente engajados no confronto e em disputa da hegemonia.

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Essa é uma significativa contribuição ao pensamento crítico em geografia, de fazer uma geografia do cotidiano e dos sujeitos corporificados, que por se entender como uma geografia das existências, rejeita a geografia das formas e dos grandes agentes, que confere o raciocínio geográfico a um caráter técnico e instrumental. Uma geografia das existências visa apreender uma totalidade social, compreendendo a dialógica da parte do todo, é uma geografia sensível ao outro, uma geografia que se nutre dos sentidos. “Vida longa e criativa à Geografia das Existências!” (p. 11)


[1] Bronzi Rocha é graduando em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Bolsista no Programa de Educação Tutorial (PET) Geografia UFF/Niterói. Estagiário e integrante do Núcleo de Estudos Território e Resistência na Globalização (NUREG/UFF), coordenado pelos professores Rogério Haesbaert e Timo Bartholl. Compõe a Comissão Editorial da Revista Ensaios de Geografia do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFF (POSGEO/UFF). Tem como interesses de pesquisa: teoria queer; anarquismo; sexualidades; ensino de Geografia; educação; estudos decoloniais; [contra-]cartografias. Além disso, é integrante da Equipe de Comunicação da Consequência Editora.

[2] Indicamos a leitura do Manifesto escrito por Milton e colegas “O papel ativo da Geografia . Esse manifesto que muito dialoga com a obra de Ana Clara Torres Ribeiro. Disponível em: <http://miltonsantos.com.br/site/wp-content/uploads/2011/08/O-papel-ativo-da-geografia-um-manifesto_MiltonSantos-outros_julho2000.pdf&gt;.

[3] O professor Denilson Araújo de Oliveira escreve um belíssimo texto em homenagem ao professor Andrelino. Indicamos fortemente a sua leitura. Disponível em: <https://www.academia.edu/41280484/LEGADO_DE_UM_PROFESSOR_UMA_HOMENAGEM_A_ANDRELINO_DE_OLIVEIRA_CAMPOS&gt;.

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