RESENHA: ‘POR UMA GEOGRAFIA EM MOVIMENTO: A ciência como ferramenta de luta’, de Timo Bartholl

por Bronzi Rocha¹
bronzi_rocha@id.uff.br

BARTHOLL, Timo. Por uma Geografia em movimento: a ciência como ferramenta de luta. Rio de Janeiro: Consequência, p. 164, 2018.

‘Por uma geografia em movimento’ é um livro publicado em 2018 pela Consequência Editora, em 164 páginas apresenta reflexões contundentes e atuais para se pensar-fazer, ou melhor, ‘sentipensar’ uma Geografia dos/nos/com movimentos (sociais). Seu autor, Timo Bartholl, é alemão radicado no Morro do Timbau (das favelas da Maré no Rio — RJ, Brasil), é geógrafo pela Universidade Eberhard-Karls de Tübingen (2006) e doutor pela Universidade Federal Fluminense (UFF), tem uma trajetória de militância envolvendo coletivos autônomos e redes internacionais.
Timo compõe o coletivo e espaço comunitário Roça!, que se territorializa no Morro do Timbau na Maré. Até o lançamento do livro ainda não era, mas, atualmente é professor do Departamento de Geografia da UFF de Niterói. O autor elabora uma Geografia libertária (e libertadora), atua na interface movimento social / universidade, tensionando justamente o que traz no livro pensar-fazer, teoria e prática, na práxis em movimentos de base, desenvolve reflexões acerca de territórios/territorializações/territorialidades de resistência.
Este livro é parte de um projeto independente apelidado pelo autor na apresentação do livro de “Favelas: territórios de resistência”. O livro é fruto do primeiro ciclo da pesquisa-ação militante que fundamenta a tese de doutorado de seu autor, intitulada: “Territórios de resistência e movimentos sociais de base: uma investigação militante em favelas cariocas”. Este primeiro ciclo trata da investigação militante, nele o autor está interessado em discutir como a Ciência (Social), no geral, e a Geografia, em particular, pode fortalecer as lutas sociais.
Assim, é um livro que não se endereça a geógrafos ou a um campo temático em específico. Ele transgride em termos acadêmicos, extrapolando no seu próprio desenvolvimento de escrita os muros da universidade e dos escritórios de pesquisa. É um livro que se escreve (ou inscreve) no(um) (con)texto de movimentos sociais de base, e, portanto, enriquece a militância ativa daqueles que se territorializam nas resistências. Logo, é um convite aos sujeitos em movimento.
‘Por uma geografia em movimento’ desponta para um ‘outro olhar’ a partir e com os territórios de resistência. No contexto desse ciclo 1, muito ambientado na militância desenvolvida em Favelas da Maré, se discute, principalmente, um enfoque em movimentos sociais de resistência de base urbana. Neste sentido, pretende contribuir teórico-conceitualmente com saberes-fazeres das formas e práticas de movimentos sociais urbanos.
Este primeiro ciclo compõe uma trilogia proposta pelo autor, pois se trata de uma pesquisa organizada em ciclos, sendo eles: Saberes | Territórios | Movimento. Durante a leitura do segundo capítulo do livro compreendemos que a organização em ciclos refere-se a escolha do autor por desenvolver uma abordagem metodológica de pesquisa-ação, inspirado em diversas correntes e experiências empíricas dessa abordagem.
Além da preciosa discussão levantada apontando para horizontes de uma Geografia libertária (e libertadora), contribuindo imensamente nesse sentido para um campo em construção de uma Geografia libertária (e libertadora) brasileira, o livro traz no seu bojo uma discussão internacional, já que no seu desenvolvimento, o autor, ora por sua militância, ora por sua trajetória migrante, traz um referencial transnacional e transdisciplinar.
O texto ainda conta com alguns gráficos que ajudam a compreender o movimento-reflexão-construção do autor. Notavelmente, são gráficos que se articulam logica e cognitivamente com o desenrolar da discussão, muito bem elaborados, que colabora com os leitores em seus próprios processos particulares de fazer pesquisa.
A leitura do texto é fluída e descomplicada. Quanto a sua estrutura, o texto traz muitas citações, neste sentido, dialogando com um campo amplo. O primeiro capítulo do livro traz autores da Geografia Crítica brasileira e geógrafos/as de outros países, sobretudo do norte-global, um nome que aparece bastante, neste primeiro momento, é David Harvey. No segundo capítulo, o diálogo se nutre de diversas e plurinacionais experiências de pesquisa-ação. No terceiro capítulo o livro dialoga com autores/as de(s)coloniais (como Zibechi e Boaventura de Sousa Santos), e, pontualmente, pós-estruturalistas, discutindo a desconstrução e construção de saberes.
‘Por uma geografia em movimento’ está organizado em três capítulos e dentro deles, seus sub-itens. Apresentamos a seguir suas partes:

Geografias em movimento

(…) que a reflexão da luta pela transformação seja também uma luta pela transformação da reflexão. (BARTHOLL 2018 p.49)

O que o autor chama de ‘Geografias em movimento(s)’ é a construção de uma Geografia de saberes-com, saberes gerados junto a movimentos sociais de base. No primeiro capítulo, o mais extenso, em 50 páginas o autor desenvolve a fundamentação da ideia de uma geografia em movimento, é também interessante o caráter de um ‘estado da arte’ das Geografias Críticas qual é apresentado a nós leitores.
A estrutura dos sub-itens deste capítulo são: ‘Geografia, vivência, militância’, ‘Da crítica à Geografia à Geografia (que) critica (para transformar)’, ‘Geografias e(m) movimentos’ e ‘Movimento social, Geografia, ideologia’. Neles, com propriedade o autor resgata conceitos de Boaventura de Sousa Santos — como ‘diálogo de saberes’ (cargo chefe do terceiro capítulo) e ‘ecologia de saberes’ — conectando-se com as ‘epistemologias do sul’.
O autor discutirá que a ideologia é inerentemente uma componente da prática, inclusive uma componente da ciência. Afinal, em termos libertários não se pressupõe uma ciência pura/purificada, ou neutra e universal, ainda que se localize no lócus universitário, na ‘universidade’, é ali mesmo onde se disputa e se propõe, discursivamente, gerar saberes que fortaleçam práticas de luta de sujeitos em movimento.
Tecendo um diálogo com Haesbaert [2014] das categorias/conceitos a) da prática, b) de análise e c) normativos; que se relacionam em determinados momentos com maios ou menor coesão, respectivamente (mas não restritamente), à dimensão social, dimensão epistêmica e dimensão política (tabela da página 69).
Assim, se toda ação tem um sentido, toda prática está mais ou menos explicitamente orientada por uma ideologia. A quem serve e qual nossa orientação ideológica quando conduzimos nosso(s) fazer(es) em pesquisa, militância, investigações, geradores/as de saberes? Portanto, não é a busca por uma razão primordial ou final, é um livro que parte de (auto)crítica em desconstrução e construção da geração de saberes. No sentido de fortalecer a (auto)emancipação, aponta para nutrir relações horizontais nos processos de investigação militante, e que não se dão sem o diálogo de saberes (entre saberes) num mesmo plano, por isso, a chave da categoria do território.
Neste capítulo são apresentados debates em que capturamos rixas da plural formação de diferentes correntes de Geografia Crítica (Brasil) e/ou Radicais (países de língua anglófona), nesta última entre teóricos de um campo marxista e anarquistas. Mas, logo, pelos próprios referenciais do autor, que reúne autores/as ligados/as a diversos campos teóricos, nota-se que ele renuncia a adentrar o território de um jogo (crítico) egóico, que pretende homogeneizar a Geografia em uma direção restrita em busca de uma (1) razão. Logo, abre portas para enriquecer o diálogo de saberes-com, a visa de compor ‘geografias’ que se desenvolvem junto/com movimentos sociais (de base), assim, lança mão de métodos que tem como horizonte metodológico a investigação militante.
Neste sentido, fazer geografias em movimento trata de um pensar vinculado às práticas de luta por transformação e de uma transformação do próprio pensar, são reflexões de nenhuma forma prescritivas, que mais ajudam a questionar o que orienta(rá) nossas práticas.

Pesquisa em movimento: investigação militante
O segundo capítulo discute as diferentes abordagens metodológicas refratárias de um horizonte de pesquisa-ação que inspiram ‘Por uma Geografia em Movimento’, sendo seus sub-itens: “Apenas aquele que odeia realmente conhece”: conricerca, “Pesquisa-ação como pesquisa social crítica”: Aktionsforschung, “Como investigar a realidade para transformá-la?”: investigacción acción participativa, “[…] Impossível entender uma vizinhança sem ser um vizinho”: action oriented social research, “Um foco na luta a partir da perspectiva da luta”: militant research, “A partir de la potencia de estos saberes subalternos”: militancia de investigación.
Aqui não se cabe delinear cada corrente em específica, dado que haveria o perigo de reduzir essas inúmeras experiências a um breve comentário. O ponto principal é que neste capítulo Timo explora essas muitas experiências de pesquisa-ação ou investigação militante e as discute para se aproximar ou desvelar a que compõe a sua própria.
Parte demasiada atraente é que aos sub-itens finais menciona vários grupos e coletivos de diversos contextos que vem desenvolvendo investigações ativas e militante, que intervem propositivamente nas realidades nas quais atuam, e produzem saberes compartilhados e disponibilizados online. Como exemplo, resgatamos o Colectivo Situaciones ou o grupo Counter-Cartographies Collective, ou os Iconoclasistas, dentre outros.
No entanto, apesar da ligeira apresentação, caberia aqui a inserção gráfica elaborada pelo autor que apresenta as perspectivas emancipatórias de uma investigação militante:

Fonte: Retirado do texto do livro, página 81.

Assim, apresenta sustentação para uma geografia que atua. Atua investigando e investiga atuando, se envolvendo em processos emancipatórios que são geradores de saberes (auto)emancipatórios.

Saberes e sujeitos em movimento
Uma geografia em movimento é antes uma geografia da militância, que tem uma relação com saberes-fazeres e saberes da prática militante. São saberes em prol de um da (auto-)emancipação coletiva, saberes de uma geografia (des)envolvida junto/com movimentos sociais de base. Militância não no sentido esvaziado, nem militância no sentido hegemônico que usurpa para dominar em vias de tornar-se totalitária. Mas, por/pôr uma busca de práticas como práticas territorializadas em que evocamos nos sentidos de agenciamento e de uma Geografia menor (aqui fazemos referência a Educação Menor em Gallo [2002], ou Literatura Menor em Deleuze e Guattari [1975]).
Portanto, o autor propõe dois momentos que são intermináveis movimentos a compreende-se uma geografia em movimento, além de comprometida com fortalecer a luta de sujeitos em movimento, está sempre inacabada, e, por assim, está por (re)fazer-se (em/no movimento). São esses momentos: 1) momento de desconstrução, em termos pós-estruturalistas, rompendo com paradigmas de superioridade do saber científico supostamente neutro, e 2) ‘momento de abertura’, e é nesta abertura que se constrói, ou mais apropriado seria dizer, geram novos saberes emancipatórios e (auto)emancipatórios.
Há outras organizações reflexivas do autor, como, por exemplo, inspirado em Fanon[1952], liga as pontas com o que chama de saberes da zona-do-ser, privilegiadas que visam dominar e, portanto, trata-se de saberes-sobre, e, saberes da zona-do-não-ser, que são saberes-fazeres, localizados não ali nas universidades dentre outros lócus de poder-saber (resgatando Foucault [2021]), mas sim no(s) movimento(s) e resistências.
O autor avança e estrutura a reflexão de três tipos-saberes propostos: a) saber-com emancipatório, b) saber-fazer (auto)emancipatório, e c) saber-sobre de dominação. Ainda não exclui que em determinados momentos da luta os sujeitos em movimento e coletivos de resistência possam lançar mão de saber-sobre os grupos dominantes (tabela da página 139).

Na leitura de Por Uma Geografia em Movimento (2018) compreende-se o papel da geografia comprometida com a (auto-)emancipação dos sujeitos. E, é por isso que em nossa leitura relacionamos a ‘pedagogia engajada’ e ‘comunidade pedagógica’ de bell hooks [2017] com a geografia em movimento que gera
Saberes emancipatórios [que] somente o são onde há (e quando propiciam/reforçam) relações emancipatórias, onde nos encontros e nos debates cada um(a) tem seu momento de fala e opinião e onde todas e todos decidem juntos(as) sobre os rumos a serem tomados juntos(as), enquanto coletivo/movimento, e não há ninguém que decida sobre o rumo do outro. (BARTHOLL, 2018, p. 128-129)
Não podemos isolar ou individualizar os movimentos (coletivos) de construção de saberes. Assim, “um diálogo horizontal somente pode estabelecer-se onde o concordar e o discordar fazem parte do entendimento mútuo” (BARTHOLL, 2018, p. 128).
Enfim, o livro aponta para fazeres científicos menos solitários e mais solidários, afinal propõe que pesquisa se faz em movimento, e neste sentido, saberes(-com e emancipatórios) são gerados coletivamente. A ciência pode ser uma ferramenta nas lutas sociais em prol de sujeitos em movimento! Se isolarmos os sujeitos, não travarmos os diálogos que é(são) movimento(s).


Referencias desta resenha 

BARTHOLL, Timo. Por uma Geografia em movimento: a ciência como ferramenta de luta. Rio de Janeiro: Consequência, p. 164, 2018.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Kafka: por uma literatura menor. Rio de Janeiro: Imago, 1977.

FOUCAULT, M. Historia da sexualidade 1: A vontade de saber. 12ª edição. Rio de Janeiro / Sao Paulo: Paz & Terra, 2021 . p. 175 . Tradução de Maria Thereza da Costa. Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque.

GALLO, S. Em Torno de uma Educação Menor. Educação & Realidade, 27(2), p. 169-178, 2002. Disponível em: <https://seer.ufrgs.br/index.php/educacaoerealidade/article/view/25926> Acesso em 18 de abril de 2022.

HAESBAERT, R. Por uma constelação geográfica de conceitos. In: Viver no limite: território e multi/transterritorialidade em tempos de in-segurança e contenção. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Capítulo 1, p. 23-51, 2014.

HOOKS, B. Ensinando a transgredir: A educação como prática da liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. 2ed. São Paulo: Editora WMF, Martins Fontes, 2017.

Os demais links encontram-se no corpo do texto!


¹ Bronzi Rocha é graduando em Geografia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Bolsista no Programa de Educação Tutorial (PET) Geografia UFF/Niterói. Estagiário e integrante do Núcleo de Estudos Território e Resistência na Globalização (NUREG/UFF), coordenado pelos professores Rogerio Haesbaert e Timo Bartholl. Compõe a Comissão Editorial da Revista Ensaios de Geografia do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFF (POSGEO/UFF). Tem como interesses de pesquisa: teoria queer; anarquismo; sexualidades; ensino de Geografia; educação; estudos decoloniais; [contra-]cartografias. Além disso, é integrante da Equipe de Comunicação da Consequêcia Editora.

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