Desde a invenção da questão social[i], a ideia de um “edifício” tem sido a metáfora comumente mobilizada. A referência arquitetural parecia apropriada: afinal, era preciso um projeto da cidadania, preparar o terreno, assentar tijolo sobre tijolo com argamassa. Quando as coisas estivessem avançadas o suficiente poder-se-ia passar à fase de acabamento. Esperava-se que a construção do Edifício Cidadania fosse algo paulatino e cumulativo – ao passo que fosse sendo levantado, poderia incluir mais e mais pessoas. Poderia até demorar, mas, com fé no progresso, a construção continuaria. Contudo, o fato de a metáfora ignorar solenemente a brutalidade do canteiro de obras[ii] é algo que pode dizer muito sobre ela. De toda forma, vale notar, a entrada no edifício sempre foi limitada pelo identificador de inclusão nessa sociedade, o trabalho. O reconhecimento da cidadania era circunscrito à capacidade dos indivíduos se provarem que são trabalhadores produtivos – a cidadania só existiu sob essa reserva.

Seja como for, são poucos aqueles que hoje ainda acreditam na construção de tal edifício. Com o avançado estado de colapso da modernização, mesmo que de forma inconsciente, já não se tem expectativas que as medidas adotadas para a questão social logrem a ampliação da inclusão – como foi nos tempos de progresso[iii]. Por isso as políticas públicas empreendidas são diminutas, direcionadas à públicos focalizados e, claro, sempre destinadas a alguma forma de “reativação econômica”.

Nesse contexto, talvez, a metáfora arquitetônica se transforme: já não é mais o caso de construção. No contexto de destruição que estamos vivendo, a medida cidadã possível, orientada pelo princípio da responsabilidade, é apenas uma: frear o colapso. Agora a questão é colocar escoras no edifício em desabamento.

Ewerton Correia/RTC

Ewerton Correia/RTC

É, portanto, curioso que essa tenha se tornado a autoconcepção de boa parte da esquerda: o desenvolvimento de escoras de contenção. Talvez, aterrorizados com a explosão violenta da “barbárie”, enquanto um excesso inaceitável e desrecalcado que aparece no tecido social, a medida emergencial é tentar impedir a continuidade da demolição. Ou, mais precisamente, a política – em especial a de esquerda, institucional ou não – se tornou na tentativa, sempre atrasada, de aplicar mais alguma medida profilática ao colapso. Silvia Viana escreveu que, nessa situação, a política foi convertida em construção de diques. Subtraída da sua natureza conflitual, como reconstituiu Douglas Rodrigues Barros, a política é apenas gestão. Gestão de que exatamente? Ora, gestão do colapso que tenta adiar o esboroamento.

A história dessa administração é longa. Ela se desenvolve a partir do desaparecimento do horizonte de transformação da sociedade. Como nota Felipe Catalani, “na gênese histórica do social, em meados do século XIX (após o trauma de 1848, certamente), está também uma questão de segurança”. Trata-se, portanto, de uma gestão securitária – e é isso que a política se transformou e tornou evidente hoje. Seguir o fio da meada da “questão securitária” será fundamental, pois ela não é apenas a colocação de escoras, mas também, é o rastilho de pólvora que acionou a demolição de todo o prédio da cidadania.

Enquanto a crise sistêmica do capital se desenvolveu, minguaram os recursos necessários para fazer a gestão das populações supérfluas economicamente. Afinal, esse grupo nunca parou de crescer. Assim, de público-alvo das políticas públicas passa-se, sem muito constrangimento, a ocuparem o alvo das alças de miras – seja do aparato Estatal de violência, seja das facções criminais, seja da milícia. A gestão dos sobrantes agora ocorre por eliminação.

O cenário de crise permanente fez elevar o número dos supérfluos, que são jogados para fora das formas de sociabilidade propriamente capitalistas. Conjuntamente, também aumentaram os expedientes violentos para dar conta da avalanche de sobrantes que se acumulam. A forma própria da periferia se generaliza e periferiza todo o centro. Nesse contexto, já não há mais inclusão – ou melhor, existe apenas uma inclusão negativa: as pessoas não entram mais no sistema de cidadania, mas integram o grupo dos matáveis. Se se esperou que o sistema de cidadania continuasse expandido, agora essas expectativas estão definitivamente frustradas.

A bem da verdade, no Brasil, as periferias nunca receberam a cidadania, apenas as doses homeopáticas e pré-moldadas prometidas pelas instituições democráticas e cidadãs. Além dessa miragem inebriante, a guerra não declarada, anunciada em versos e rimas pelo rap periférico, já estava deflagrada há muito tempo.

Já não há mais Edifício Cidadania possível. As escoras tombaram e agora o edifício não passa de escombros e ruínas que se acumulam. As ideias de liberdade, igualdade e fraternidade se revelam nada mais do que como abstrações que só se realizam como ideais no momento do consumo de serviços e bens – o que, é claro, impede sua efetivação de fato. A crise do capital resulta justamente na perda dessa capacidade de consumo e na generalização da condição periférica – que o lema da modernidade nunca alcançou plenamente. O cinismo próprio da modernidade, quando o colapso anunciado da civilização burguesa despontou no horizonte, não hesitou em rifar as velhas salvaguardas ideológicas que um dia foram bravateadas pelos arautos do capital. Liberdade, igualdade, fraternidade não passavam de um embuste. O mesmo desfecho teve a ideia de justiça ou democracia, que não deixa de esboroar em todo o mundo. O tempo de cidadania definitivamente passou.

Com o tempo, a mentira da inclusão é descoberta pelos de baixo. Não há chance dessa promessa se realizar mais – e eles sentem isso na pele, todos os dias. É próprio das artimanhas dialéticas que esse momento de esclarecimento desemboque no seu contrário: trata-se de uma “solidariedade social negativa” que percebe qualquer sistema de seguridade como um privilégio – melhor seria destruir tudo, já que inclusão não é mais possível. Quem soube aproveitar dessa verdade para produzir um verdadeiro evento político foi o novíssimo radicalismo de direita. A própria ideia de gestão foi inutilizada dada as irracionalidades intrínsecas do capital. Assim, estão com os ponteiros do relógios síncronos com o tempo do mundo quando afirmam com todas as letras: “é preciso desconstruir muita coisa”. Já não basta a lenta erosão do Edifício Cidadania. Ele passa a ser alvo das baterias de tiro do radicalismo de direita. Não é por menos que a reação da sociedade já não é mais um movimento de inclusão na sociedade do trabalho – acreditar nisso seria algo estranho ao nosso tempo de catástrofes. Trata-se, na verdade, de uma reação que assume a forma de uma cruzada[iv]. Há, portanto, um fio, puxado pelo Paulo Arantes, que conecta o público-alvo da cidadania à cidadania como alvo.

Ethan Miller/Getty Images

Ethan Miller/Getty Images Nas ruínas da cidadania desenvolve-se uma economia de novo tipo, baseada na pilhagem e extorsão, de inspiração claramente miliciana. Trata-se da exploração econômica violenta, com extorsão, eliminação e trambiques de todo tipo, que parasitam o funcionamento territorial e se valem da oferta de segurança; agora virada

Notas


[i] Tenho em mente aqui os escritos de Robert Castel, como Qu’est-ce qu’ètre protégé? (Le Seuil, 2003) e Les metamorfoses de la question sociale (Fayard, 1985).

[ii] Vale conferir, sobre isso, o trabalho de Sérgio Ferro, em O canteiro e o desenho (Editores Associados, 1982).

[iii] Como escreve Hans Magnus Enzensberger, “o progresso já viu dias melhores”.

[iv] Não é por outro motivo que a série de história “alternativa” do Brasil, que ressalta uma interpretação conservadora dos processos históricos foi batizada de “A última cruzada” – o anacronismo salta aos olhos, mas isso pouco importa aos seus adeptos. O que realmente está em questão é o caráter de “libertação” orientada por um divino desígnio.

Sobre o autor: Thiago Canettieri é doutor em geografia e professor do departamento de urbanismo da UFMG. Autor do livro “A CONDIÇÃO PERIFÉRICA“, link: http://www.consequenciaeditora.net.br/p-11223288-A-CONDICAO-PERIFERICA.-Thiago-Canettieri-(Autor)

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