Imagem: Sergio Lima/AFP via Getty Images

Terminado o Sete de Setembro, a esquerda se regozijou: o capitão reformado do exército que ocupa a cadeira presidencial está fraco. As manifestações foram mais esvaziadas do que o previsto. Esse “derretimento” do governo indicaria a impossibilidade de um golpe, afinal, estaria sem o apoio popular e os tanques são fumacentos. Tal análise não poderia estar mais errada.

Como alertou Paulo Arantes na sua mais recente intervenção em live, no Brasil, basta um tiro ser disparado para que o país mergulhe de vez no conflito. Se esse tiro ainda não ocorreu não significa que seja impossível. O risco é iminente à medida que as tensões aumentam.

O que importa destacar é como a análise do paulatino enfraquecimento do governo é equivocada, não só no entendimento do fenômeno imediato, como nos seus desdobramentos. Ainda que, segundo as pesquisas de popularidade e de intenção de voto, o governo esteja em seu pior patamar, é de se surpreender que consiga angariar mais de 100.000 pessoas na Avenida Paulista e uma quantidade aproximada na Esplanada dos Ministérios, onde ainda estão acampados e dispostos a arrumar alguma confusão. Quem vê essa adesão e diz de “enfraquecimento” do governo só pode estar sendo enganada pelo “otimismo da vontade”.

Um presidente que com menos de 25% de aprovação consegue emparedar as instituições não é de se ignorar. Ainda mais quando seus asseclas estão unificados e potencialmente armados – não só os civis, mas sabe-se que as forças militares brasileiras são fiadoras dessa adesão catastrófica. Como não deixou de notar Vladimir Safatle, “uma insurreição nunca precisou da maioria da população para impor sua vontade”.

Erra quem conjuga esse cenário no futuro. Erra quem o concebe como uma possibilidade. “O golpe já está acontecendo – ou, em grande medida, já aconteceu. O golpe já está”.

Por um lado, há aqueles que ainda estão apegados à forma política institucional da nova república, mesmo que paradoxalmente reconheça seu esfacelamento. E para esses, as categorias da política tal qual como conhecíamos ainda continuam válidas. E é baseado nessas leituras que podem decretar o enfraquecimento do governo Bolsonaro. Em geral são os mesmos que decretavam a inviabilidade do então candidato em setembro de 2018 – e ficaram com cara de tacho um mês depois. Vale lembrar que na ascensão do fascismo italiano, Mussolini foi dado por politicamente morto diversas vezes. Sabemos como a história terminou. Por outro lado, há aqueles que ficam otimistas com as notas de repúdio do empresariado, afinal, o interesse econômico parece se chocar com os rumos que esse governo adota para o Brasil. No final das contas seria algo contraproducente para a acumulação de capital. Esses também ficarão surpresos, tal qual o economista que provava, com base nos interesses dos cervejeiros bávaros, a impossibilidade da nazificação da Alemanha. Também sabemos os resultados dessa história.

O princípio para entender nossa catástrofe nacional não está na sobrevida do governo. O que realmente importa é entender as condições que produziram uma forma social que, por falta de nome melhor, chamamos de “bolsonarismo”. Foi o bolsonarismo que produziu Bolsonaro, escreve Douglas Rodrigues Barros, e não o contrário. E o bolsonarismo pode muito bem viver independente da ocupação do palácio do planalto.

Depois do Sete de Setembro, as ruas continuam apinhadas com esses sujeitos, adeptos do colaboracionismo de catástrofe que vivemos. Não se sabe quanto deles estão armados, mas sabe-se que estão animados a radicalizarem cada vez mais: no dia seguinte já tentaram invadir o Ministério da Saúde; no dia nove seguem fechando a Esplanada dos Ministérios; caminhoneiros em todo o país fazem lockout fechando estradas; há vídeos circulando nas redes que prometem intensificar essas medidas.

Quem viu as ruas do Sete de Setembro pode sentir essa presença. A situação claramente é séria e catastrófica. A situação vai continuar escalando até o ponto de o inimaginável ocorrer. Estranhamente, o inimaginável se torna mais familiar, mais próximo.

Hans Magnus Enzensberger, ao escrever sobre a guerra civil molecular, notou que é preciso apenas uma pessoa para iniciar um conflito. Se os protestos bolsonaristas “floparam” ou não pouco importa: no Brasil, basta um tiro deflagrado; e ele está na iminência de ser disparado.

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