Publicado na conta pessoal de Rogério Haesbaert do Facebook/ Professor do programa de pós-graduação em Geografia da UFF e autor do livro “Travessias” publicado pela Consequência Editora.

Ontem, na live do dia do geógrafo organizada pelos colegas Saulo e Vanda, e que reuniu diversos companheiros e amigos num encontro inédito na nossa Geografia, foi proposto o desafio de responder à questão “o que é ser geógrafo”.

Pensei primeiro num tema que há muito me é caro, a problemática da identidade – afinal, perguntar sobre o que somos, ainda que enfatizando nossa condição profissional, é questionar (parte) de nossa construção identitária. E todo processo de identificação, bem sabemos, nunca é construído sozinho. É sempre, também, a produção de (e o ser produzido por) um outro.

Quem seria, então, “o outro” do geógrafo? Foi a primeira indagação que me fiz. Como resposta, me pareceu que, como para falar de espaço temos obrigatoriamente que falar de tempo, “o outro” do geógrafo seria o historiador – esse pensador que já foi nossa “cara metade”, quando saíamos formados conjuntamente geógrafos e historiadores, na primeira metade do século passado. Obviamente, tempo e espaço são dimensões gêmeas e indissociáveis, mas elas foram concebidas, digamos, uma a partir da outra, numa aparente simples mudança de olhar: o espaço olhando mais para o simultâneo, o lado a lado, o tempo olhando mais para o sucessivo, o um depois do outro.

Se ser geógrafo é olhar prioritariamente para o que/quem está do nosso lado, convivendo, coexistindo conosco, isso significa tomar consciência, o tempo inteiro, do(s) espaço(s) da desigualdade e/ou da diferença do Outro, seja sua classe, sua etnia, seu gênero, sua capacitação físico-biológica, sua geração… e é, sobretudo, olhar para o contexto ou o entorno geográfico em que ele está situado. Olhar nossa “situação” espacial é olhar, também, para uma questão fundamental onde demonstramos toda a força de nossa intuição e de nossa reflexão como geógrafos (em sentido amplo): a questão da distância e, a ela intimamente acoplada, a questão dos limites. Como sabiamente afirmam os indígenas aikewara, da Amazônia, nossa vida é pautada pela busca da “boa distância” em relação aos outros. E buscar uma “boa distância” é também, sem dúvida, um jogo de ir e vir entre nossos limites, uma busca dos “bons limites” que tanto precisamos conhecer para a própria sobrevivência humana sobre a Terra. Até onde devemos/podemos avançar no espaço/nos limites do outro (humano e não-humano), redefinindo o(s) nosso(s)?

Nosso mundo, relembremos, é pautado pelo antropocentrismo – como se, na maior prepotência, fôssemos os únicos seres do universo; pela lógica contábil – onde a razão instrumental capitalista transforma tudo em mercadoria, em objeto de compra e venda, e pelo individualismo – onde tudo parece se reduzir à violência egoísta da apropriação e do gozo privados (ou de pequenos clãs). É preciso, portanto, mais do que nunca, ser geógrafo pelo compromisso com o debate da “boa distância” e do “bom limite” que, como na dramática pedagogia da pandemia, nos força a admitir que há momento para nos recolhermos/abrigar-nos nos limites de um lar (pois ninguém vive sem uma “clausura relativa”, como dizia Castoriadis), e momentos de expandir-se, abrir-se para encontrar e se solidarizar com a dor e/ou a alegria dos outros.

É necessário pensar o ser geógrafo como em constante devir, um geografar, conflitivo ou apaziguador, e que coloca em primeiro plano nossa capacidade permanente de, na interação com o espaço do outro, mudar de perspectiva. Nunca ser geógrafo no sentido de encarar o espaço como a esfera da possibilidade de mudança de perspectiva sobre o mundo foi tão necessário. Precisamos urgentemente imaginar e praticar outro(s) mundo(s), outro(s) espaço(s), outro(s) limite(s) que recomponham nossa condição de seres ao mesmo tempo naturais e sociais, racionais e sensíveis, individuais e coletivos, onde nossa perspectiva estabeleça também um novo limite, um novo horizonte de sentido para a vida, alicerçado na partilha do comum que hoje menosprezamos. Combater os limites do individualismo e da lógica contábil em nome de espaços mais “comunais”, afetivamente partilhados, parece ser a única saída – onde, de alguma forma, todos seríamos geógrafos – e historiadores – pois saberíamos nos situar na integralidade humano-natural de nossos espaços, conscientes da herança dos múltiplos saberes geográficos que construímos e que compõem um passado-presente capaz de dar alguma esperança na construção de um outro futuro.

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