Publicado em: Krisis – Crítica da sociedade da mercadoria – Lohoff, 1998

“Nostálgicos do neokeynesianismo estão esperançosos. A socialdemocracia está de volta na Europa. Isso, no entanto, não marca de modo algum o início de uma nova era de reformas, mas a passagem da negação da crise para a administração do Estado de emergência”.

“A transição para o keynesianismo marcou o início da ‘Era socialdemocrata’ (Ralf Dahrendorf). Enquanto as forças liberais e conservadoras se voltavam para o ponto de vista intervencionista estatal e, assim, assumiam um momento substancial da socialdemocracia, esta, por sua vez, já não tinha como referência um contexto de fundo marxista. No futuro, poderia agir como um Estado-partido sem a obrigação de pleitear um Estado essencialmente diferente e, desse modo, o que cresceu lado a lado, permaneceu unido.

A doutrina keynesiana não só desempenhou uma função central na construção do consenso dos Estados ocidentais do pós-guerra, como também parecia ter um desempenho brilhante no seu próprio campo, a condução macroeconômica. A expansão ulterior da atividade estatal, após a Segunda Guerra Mundial, coincidiu com um impulso de acumulação sem paralelo na história do capitalismo. Isso foi razão suficiente para que os keynesianos triunfantes e a maioria dos seus contemporâneos vissem o boom como resultado da atividade expandida do Estado. Era, pois, óbvio para eles que os instrumentos keynesianos não apenas podiam ser usados para lidar com rupturas de crises agudas, como podiam até mesmo assegurar um crescimento perpétuo.

No entanto, é claro que o cerne dessa concepção se baseia em uma confusão muito simples entre causa e efeito. Não foi o uso das soluções milagrosas keynesianas que causou o grande boom; pelo contrário, foi antes de tudo o boom fordista autossustentável que permitiu a expansão acelerada dos sistemas de proteção do Estado social e o desenvolvimento contínuo de um sistema de infraestrutura profundamente escalonado. É claro que a expansão da atividade do Estado era indispensável para o progresso normal do movimento de acumulação, na medida em que o assegurava em termos materiais (rotas de transporte, etc.) e sociais (produção em massa da força de trabalho suficientemente qualificada e livre dos laços familiares tradicionais); no entanto, tudo isto só pôde ser financiado durante um período mais longo, na medida em que o dispêndio em termos de produção de valor da massa adicional de trabalho vivo nos setores industriais emergentes compensava a liberação causada pela racionalização nas áreas de produção tradicionais e a quantidade emergente de mais-valia adicional criava uma correspondente margem de manobra financeira. No entanto, essa base real estava fora do alcance da intervenção estatal. Ela dependia do desenvolvimento tecnológico interno ao setor produtivo e do seu efeito sobre a composição orgânica do capital […]

A ilusão keynesiana do Estado manteve seu esplendor enquanto o grande impulso da acumulação ainda prosseguia, suportando com facilidade o fardo do gasto estatal crescente. Ao longo dos anos 1970, porém, isso mudou radicalmente. Como o motor fordista de crescimento do intervencionismo estatal keynesiano só poderia fornecer o óleo lubrificante do motor, mas nunca o combustível, as contínuas tentativas estatais de reabastecimento do motor engasgado não o colocaram novamente para funcionar. As medidas econômicas em geral alcançaram apenas efeitos superficiais e permaneceram impotentes em face da dinâmica fundamental de expulsão progressiva do trabalho vivo nos setores produtores de valor e, por conseguinte, da massa decrescente de mais-valia real. O simples fato de todas as atividades do Estado dependerem do dinheiro, que, em última análise, só pode vir do valor agregado do capital privado produtivo ou da impressora, tornou-se cada vez mais dolorosamente visível. A Era socialdemocrata do keynesianismo chegou ao fim com a crescente montanha de dívidas governamentais e a infame “estagflação”, a coexistência de desvalorização monetária e aumento do desemprego. O embaraço do keynesianismo de modo algum significou o fim da ilusão estatal. A crise de base da sociedade do trabalho, que não podia ser resolvida por nada nem por ninguém, também permaneceu fora do campo de visão da teoria econômica e da política econômica. O avanço da doutrina monetarista marcou apenas uma mudança de sinal. Como o intervencionismo estatal não foi capaz de resolver a crise, a própria atuação do ajudante impotente foi então exposta erroneamente como a verdadeira causa da crise. Dessa forma, o demiurgo saiu de cena apenas para continuar a viver como encarnação do Anticristo. A ideologia neoliberal denunciava o Estado como um agregado e parasita esbanjador que produzia o mal enquanto fingia combatê-lo.

Naturalmente, a retirada do Estado como tal, reivindicada pelo monetarismo, pode proporcionar muito menos crescimento e prosperidade do que o avanço estatal. A não ser que a doutrina neoliberal seja executada à custa da capacidade de reprodução social, como na Grã-Bretanha sob Thatcher, a almejada redução dos gastos estatais não poderia ser realmente alcançada em lugar nenhum. É, antes, o oposto que acontece. No entanto, com a hegemonia do neoliberalismo, teve início um segundo milagre de crescimento, ainda mais prodigioso que o boom fordista que havia se esgotado […]

A acumulação real não podia mais ser colocada em marcha a partir da sua própria dinâmica. Em lado algum podemos ver as inovações de base que teriam permitido possíveis usos produtivos até aqui desconhecidos para o trabalho vivo liberado. Nessas condições, no fundo, sem esperança, havia ainda um modo de adiar o colapso da sociedade do trabalho: a antecipação da utilização do trabalho vivo, que pode eventualmente ser gasto em algum lugar e em algum momento no futuro, reanimou o movimento de acumulação enfraquecido como acumulação de valores fictícios. A dinâmica própria dos mercados financeiros globais permitiu que o capital, independentemente da diminuição estrutural da sua base viva, isto é, o trabalho, contasse provisoriamente com essa riqueza. Mais ainda: a acumulação simulada transformou-se absurdamente no motor da economia e da estabilização parcial do emprego, o que parecia dar a esse conto ao estilo Münchhausen uma base real para os negócios.

Por menos que este desenvolvimento seja explicado a partir das ideias fora da realidade dos modelos monetaristas, a ideologia da desregulamentação e, especialmente, a efetiva desregulamentação radical da superestrutura financeira foram indispensáveis para o boom do capitalismo de cassino. A redução do consumo estatal, à qual as declarações oficiais dos monetaristas atribuem grande importância, teria sido apenas contraproducente para a manutenção da sociedade do trabalho. A transição para um mercado total foi um sucesso de crescimento porque não passou de uma renúncia total ao controle da superestrutura do dinheiro e abriu caminho para um novo capitalismo que vive apenas de transferências sem cobertura para o futuro. Sob as novas condições, mesmo o aumento acelerado da dívida estatal, que na década de 1970 ainda indicava a insustentabilidade do modelo keynesiano, foi transformado em moeda multiplicável. O que se refletiu no orçamento público como déficit acumulado aparece, do ponto de vista dos credores, como uma segunda área de valorização fictícia e de multiplicação do capital-dinheiro, ao lado do crescimento explosivo dos mercados de ações e, portanto, como um aumento fantasmagórico da riqueza capitalista que forneceu combustível adicional para o pseudocrescimento pós-fordista. Enquanto o consumo estatal na década de 1970 ainda tinha um efeito inflacionário direto, pois havia sido cofinanciado basicamente por uma política monetária expansionista, o seu acoplamento aos mercados transnacionais de capitais monetários desenfreados contribuiu bastante para a ‘inflação de ativos’, para a acumulação de capital monetário mediada pelo alongamento das cadeias de crédito, sem a cobertura de ativos reais […]”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s