Publicado em Krisis – Critica da Sociedade da Mercadoria

O final do século XIX e o início do século XX foram, em geral, uma era de otimismo desenfreado no progresso, que esperava o Céu na Terra a partir da evolução permanente da razão e o triunfo da técnica moderna. Mas, enquanto o concorrente ‘burguês’ estava preocupado principalmente com a dominação da natureza pela ciência natural, o marxismo, como variante democrática da religião do progresso, colocou o trabalho como a verdadeira garantia do futuro luminoso. De acordo com o credo marxista, o capital representa apenas os interesses privados. O trabalho, por outro lado, é o verdadeiro portador do triunfo do homem sobre a natureza, ao qual todo homem tem uma parte por meio da sua criação produtiva. A forma profundamente racionalizada de atividade capitalista, reduzida ao seu núcleo funcional, foi celebrada como encarnação do fazer humano por excelência e, ao mesmo tempo, se tornou um pré-requisito do êxito do objetivo socialista. A vitória da emancipação parecia inevitável aos olhos do marxismo, porque ele acreditava que, com o poder do trabalho, seria capaz de colocar a ‘razão pura’, que se tornara prática e com impacto nas massas, contra a cega relação de exploração capitalista. A suposição de que o trabalho industrial e a dominação capitalista devem se mostrar, em última análise, como incompatíveis, foi desde o início construída teoricamente sobre a areia. No entanto, foram necessárias muitas décadas até que, depois de todos os tipos de combates, essa expectativa também em termos práticos foi desacreditada pelo desenvolvimento real. O resultado foi ainda mais claro: a luta pelo direito ao trabalho (industrial) e seu portador social, a classe operária , de modo algum levou à rebelião prevista por Marx contra todas as circunstâncias em que o homem precisa viver como um “ser oprimido”. Em vez disso, o avanço do regime fabril e os êxitos do movimento operário ajudaram a figura do trabalhador normal branco e masculino a alcançar um modo de existência altamente (auto) repressivo e destrutivo.

A classe operária – uma classe de proprietários da força de trabalho – de modo algum enfraquece os fundamentos da dominação do homem pelo homem, como pensava o marxismo, mas sim os fundamentos ecológicos, além de contribuir para a nova fundação da dominação patriarcal. O trabalho racionalizado, tanto quanto a razão, encarna uma lógica patriarcal-masculina indiferente no que diz respeito a toda sensibilidade.

Do ethos do trabalho proletário ao orgulho do trabalho feminino de reprodução: a esquerda levou em conta esta reviravolta preocupante na medida em que, em geral, abandonou a crença na classe operária como portadora da emancipação, o mais tardar no final dos anos 1970. Além da questão ecológica, a crítica feminista teve um papel fundamental. O movimento das mulheres insistiu corretamente que o hino ao trabalho industrial se baseava na depreciação das atividades domésticas.

Embora o marxismo do movimento operário tenha saído de moda, a ideia marxista original de que a emancipação tinha um poderoso aliado na lógica inerente ao desenvolvimento produtivo capitalista sobreviveu ao ‘adeus do proletariado’ (André Gorz). O caminho para a emancipação é aberto não pelo triunfo do trabalho industrial, e sim pela sua retirada. Ele colocou ‘o libertar-se do falso trabalho’ (Thomas Schmitt) na agenda histórica, de acordo com a doutrina prevalecente na discussão da ‘crise do trabalho’ no início dos anos 1980. Uma sociedade em que o primado do trabalho remunerado é dissipado gradualmente por falta de massa, desenvolverá outras noções de atividade menos repressivas do que aquelas típicas do capitalismo industrial. Se a relação de trabalho normal fordista, orientada principalmente para a venda da força de trabalho branca e masculina, se tornar um modelo ultrapassado, então sai da sombra social o trabalho de reprodução ‘esquecido’, realizado, de acordo com a ordem de trabalho patriarcal, quase exclusivamente por mulheres. As formas de atividade baseadas nas qualidades específicas do trabalho das mulheres e, por conseguinte, mais compatíveis social e ecologicamente, foram chamadas a tomar o posto do trabalho industrial.

Feminização repressiva: um quarto de século depois, tais expectativas aparecem sob uma estranha luz. O prognóstico da ‘crise de trabalho’ é agora um diagnóstico. Em vez de relativizar a importância do emprego remunerado, essa evolução apenas levou a sua importância ao extremo. Nunca antes a sociedade do trabalho foi tanto e exclusivamente uma sociedade do trabalho como na sua crise. Não há descrição de funções em que as qualificações ‘suaves’ (competências de equipe e de comunicação, flexibilidade), antes classificadas como ‘femininas’, já não estejam em alta. Com esse tipo de ‘feminização’, no entanto, o mundo do trabalho não se tornou de modo algum mais humano, mas apenas mais duro e mais totalitário. Já não é suficiente realizar responsavelmente as tarefas atribuídas oito horas por dia. Requisita-se agora ‘a pessoa como um todo’ na luta da concorrência e, em princípio, 24 horas por dia. Enquanto isso, as relações normais de trabalho foram, de fato, desmanteladas em todos os sentidos. As formas de emprego tipicamente femininas antes marginalizadas multiplicam-se de forma explosiva e substituem o trabalho sujeito à contribuição social. Isso não permite de modo algum um modo de vida mais rico e adaptado às necessidades das pessoas que trabalham, mas significa antes um impulso no empobrecimento que, por sua vez, afeta principalmente as mulheres.

As elevadas expectativas de emancipação pós-industrial da esquerda nos anos 80 eram, portanto, ainda piores do que os sonhos de libertação industrial do marxismo. Não por último, foi graças às lutas do movimento operário tradicional que a generalização do regime fabril pelo menos se fez acompanhar da implementação de melhores condições de sujeição no terreno da dominação capitalista. A desintegração do regime clássico da fábrica, por outro lado, levou a uma deterioração permanente das condições gerais de reprodução e a intensos processos de dessolidarização. Esse desastre não é motivo para retirar a crítica das relações normais de trabalho de caráter patriarcal, a fim de transfigurar retrospectivamente de modo nostálgico as condições fordistas. Seria, no entanto, igualmente errado continuar com as expectativas de emancipação da década de 1980 e ignorar o rebentar dos sonhos de então como se fosse um acidente causado apenas pela correlação de forças política adversa. Uma crítica radical da sociedade do trabalho é mais urgente do que nunca, embora ela precise de fundamentos teóricos mais sólidos […].

Ernst Lohoff, “Depois do trabalho”, 2005.

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