Originalmente publicado em: Krisis 13 (1993) – publicado em português por Krisis – Crítica da Sociedade da Mercadoria

Em relação ao populismo do pós-guerra, que para ele foi um “recurso comum da direita no gerenciamento moderno de crises”, e cuja “estrutura básica” seria “vestir a política de direita com roupas de esquerda” (Kebir 1989 I, p.41), Gramsci traçou o seguinte resumo otimista: “pode-se ver nisso algo do que Vico chama de ‘esperteza da natureza’, ou seja, um impulso social, que realiza exatamente o contrário de seu objetivo” (apud Kebir 1989 I, p.42). O populismo é entendido como “um episódio de ‘educação popular’ indireta” (idem), de uma educação na direção do socialismo. Tal “esperteza da natureza” mencionada por Gianbattista Vico, que Hegel chamou de “astúcia da razão” e que no final das contas nada mais é que a lógica da “segunda natureza” fetichista e na forma do valor também conseguiu utilizar o socialismo para seus fins, como tentei demonstrar; um desenvolvimento que uma contemporânea de Gramsci, a teórica francesa Simone Weil, compreendeu com clareza: “a história do movimento operário se mostra sob uma luz cruel e especialmente forte. É possível resumi-la completamente sob a fórmula segundo a qual o movimento operário demonstrou sua maior força quando serviu a algo diverso de uma revolução proletária. O movimento operário pode criar a ilusão de poder enquanto contribuiu para extinguir os resquícios do feudalismo e instituir a ordem capitalista, seja sob a forma do capitalismo privado ou do capitalismo de Estado na Rússia” (Weil 1934, p.52). Tal veredito, que, em sentido amplo, também cabe a Gramsci, ainda hoje parece ser ininteligível a muitos de seus adeptos. Ele relativiza em larga medida seu significado teórico para a atual época de crise do sistema mundial produtor de mercadorias. Pois se compreendermos Gramsci como teórico da modernização da sociedade burguesa, então isso significa que ele nada nos tem a dizer sobre uma época em que a modernização capitalista entrou no estágio de sua dissolução. É verdade que podemos adotar abstratamente sua idéia de que todo movimento de oposição que almeja a uma transformação fundamental da sociedade de alguma forma tem que conquistar a “hegemonia social”. No entanto, se se livra tal idéia de todas as implicações marxistas e de teorias da modernização que ela ainda tinha em Gramsci (queda da dominação de classe, criação da unidade nacional, imposição de um “Estado do trabalho” etc.), então não resta muito mais do que trivialidades. Desta forma, podemos conceder a Gramsci o merecimento de em suas reflexões ter estado à altura de seu tempo. Mas, à medida que hoje autores e políticos de esquerda ou de direita se referem à sua teoria (ou partes dela) de forma positiva, eles apenas comprovam que uma época de decadência não se liberta automaticamente dos pesos mortos de seu passado, e que o esforço da crítica permanece necessário.

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