Publicado em: Temáticas, Campinas, 28, (56): 310-331, ago./dez. – Renato Lemos é professor titular de História do Brasil no departamento de História da UFRJ e um dos organizadores do livro “Empresariado e ditadura no Brasil” lançado pela editora Consequência em 2020.

Entrevistadores: Professor Renato Lemos, primeiramente, gostaríamos de agradecê-lo por nos conceder essa entrevista. Para começarmos, você poderia nos contar um pouco sobre sua trajetória acadêmica?

Renato Lemos: Agradeço o convite e é um prazer poder contribuir com essa iniciativa. Eu cursei História na Universidade Federal Fluminense (UFF) de 1971 a 1976. Era, como se vê, um momento de grande dificuldade para a vida acadêmica, por conta do regime ditatorial em que vivíamos, mas havia certo grau de liberdade na UFF, muito menos visada do que universidades como as de São Paulo (USP), Brasília (UnB) e Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Entrevistadores: Ainda sobre sua trajetória, como foi o seu processo de inserção no mundo acadêmico e como tem sido sua vida como professor universitário em sua área de pesquisa?

Renato Lemos: Quando entrei na vida acadêmica já tinha uma visão de mundo definida, basicamente, pela militância como estudante secundarista em uma organização clandestina de oposição ao regime ditatorial então vigente. Nos grupos de estudos que formávamos na organização, eu entrava em contato com os temas de história nacional e mundial que marcavam os debates políticos da época. Quando iniciei a graduação, já conhecia boa parte da bibliografia mobilizada nas disciplinas. Mas é claro que a universidade me propiciou conhecer os aspectos acadêmico e profissional da área de História, aliás, bem diversos dos atuais.

Entrevistadores: Ao longo de sua trajetória, quais os principais temas e problemas que você se dedicou a estudar? Mais especificamente, quais suas contribuições teóricas e metodológicas para os estudos sobre os militares no Brasil?

Renato Lemos: Tive algumas experiências, ainda como graduando, como assistente de pesquisa de professores. Na época, praticamente inexistiam bolsas de iniciação científica. Na UFF, os professores de História começavam, em sua maioria, a se pós-graduar e pagavam, dos seus salários, alunos para os auxiliarem na pesquisa para dissertações e teses. Meu primeiro emprego na área foi no Centro de Pesquisa e Documentação em História do Brasil Contemporâneo (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas. Fui admitido em 1979 como pesquisador no projeto do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro (DHBB). Produzi dezenas de verbetes sobre personagens da nossa história política pós-1930 e adquiri conhecimentos factuais e metodológicos na zona de interseção biografia/história que contribuiriam decisivamente para as minhas perspectivas enquanto pesquisador. Concluído o DHBB em 1983, passei a integrar uma equipe formada para desenvolver o projeto de História Política do Estado do Rio de Janeiro. Coube-me, especificamente, pesquisar a história política fluminense nas conjunturas históricas de transição da Monarquia para a República e de consolidação da nova ordem na primeira década republicana. A pesquisa resultou em três capítulos da obra coletiva A República na Velha Província, publicada em 1989. As partes de minha autoria incorporam resultados da minha dissertação de mestrado – A implantação da ordem republicana do estado do Rio de Janeiro (1889-1892) –, que defendi na UFF em 1985.Em 1987, aceitei um convite para dirigir o Centro de Pesquisas de História da República do Museu da República, subordinado ao Ministério da Cultura. Lá atuei por dois anos, tendo, também, dirigido a Divisão de Documentação e Pesquisa, que incluía o Centro, o Arquivo Histórico e a Biblioteca do Museu. Era um período totalmente subordinado aos objetivos de reabrir o Museu, fechado durante alguns anos para restauração do prédio, e prepará-lo para as comemorações do centenário da República. Absorvido pelas tarefas administrativas, pouco fiz na área acadêmica. Em 1989, ingressei no doutorado em história da UFF, com um projeto de tese voltado para o estudo do conservadorismo político fluminense. No fim do ano, fui transferido para o Museu Casa de Benjamin Constant (MCBC), para atuar somente como pesquisador. No segundo ano do doutorado, precisei trancar o curso. O trabalho com o arquivo pessoal de Benjamin Constant acabou me induzindo a abandonar o meu projeto original e, tendo retomado o doutorado, passei a me dedicar à biografia do patrono do MCBC.Por razões financeiras – o Ministério da Cultura não dispunha de um quadro de carreira que valorizasse a condição acadêmica – e intelectuais – desejo de me forçar a estudos com escopo mais variado do que a pesquisa especializada me exigia –, projetei ingressar na área universitária como professor. Em dezembro de 1996 me demiti do serviço público. No mês seguinte, defendi a tese Benjamin Constant – vida e história, publicada com o mesmo título em 1999, simultaneamente a Cartas da Guerra – Benjamin Constant na Campanha do Paraguai, coletânea de exemplares remanescentes da sua correspondência, por mim transcrita e comentada.Depois de um ano e meio trabalhando para o CPDOC-FGV como colaborador externo na atualização do DHBB, quando fiquei responsável por alguns dos verbetes mais importantes, prestei concurso para o Depar-tamento de História (atual Instituto de História) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Aprovado, iniciei a minha trajetória como professor em junho de 1998. Como se sabe, os encargos de professor nas universidades federais de grande porte incluem atuar na graduação e na pós-graduação e é isso que tenho feito nesses 22 anos. As atividades de minha livre orien-tação, em termos de pesquisa e aulas, têm se estruturado, basicamente, em torno de temas ligados à história da relação entre militares e política no Brasil – tema para o qual despertei quando trabalhava no MCBC, com o acervo do general Pery Constant Bevilaqua, sobre o qual publiquei vários trabalhos – e à história do regime ditatorial instalado no país a partir do golpe que depôs o presidente João Goulart em 1964. Neste sentido, tenho oferecido cursos na graduação e na pós-graduação. Há cerca de 20 anos ministro o curso “Ditadura militar – história e historiografia”, que reputo muito importante no quadro historiográfico respectivo, porque nele debato com os alunos de pós-graduação textos de importantes autores pouco considerados pelas correntes hegemônicas na área, como Florestan Fer-nandes, René Armand Dreifuss e Guillermo O’Donnell. Em outra esfera, venho, desde o meu ingresso na UFRJ, oferecendo a alunos de todos os níveis e, mesmo, de outras instituições, o Laboratório de Estudos sobre os Militares na Política (LEMP). Tenho organizado programas de estudos que combinam temas históricos com questões contemporâneas relativas à presença dos membros das Forças Armadas no cenário político. Tenho a permanente preocupação metodológica com a abordagem a adotar em relação ao tema. Critico as teses consagradas, principalmente a liberal e a conservadora, e procuro avançar na perspectiva marxista, que situa as relações entre militares e processos políticos a partir da visão classista do Estado, instância da sociedade em que se estruturam as Forças Armadas. O LEMP publicou a revista eletrônica Militares e Políticae foi, durante dez anos a partir de 2005, a base de simpósios temáticos organizados nas reuniões nacionais e regionais da Associação Nacional de História (ANPUH). Da convergência entre as atividades do LEMP e na graduação e na pós-graduação, têm surgido monografias, dissertações e teses que fazem avançar o conhecimento na área temática. Exemplos de teses originadas nessa convergência e publicadas são as de Fabiano Godinho Faria, Os militares e a crise de 1964 (2014), e de Cláudio Beserra de Vasconcelos, Repressão a militares na ditadura pós-1964 (2018).Desde o cinquentenário do golpe de 1964, venho diversificando as minhas atividades de pesquisa nos campos temáticos do processo político durante a ditadura. Nesse sentido, publiquei em 2018 o livro Ditadura, anistia e transição política, no qual analiso a relação da ditadura com a formação de um complexo industrial militar e a configuração do anticomunismo empresarial-militar no Brasil, temas sobre os quais tenho publicado capítulos em obras coletivas. No momento, aguardo o lançamento do livro Empresários e ditadura no Brasil, coletânea que organizei com dois companheiros do Grupo de Trabalho empresariado e ditadura.

Entrevistadores: Nos últimos anos têm se discutido muito a importância da divulgação do conhecimento científico para públicos mais amplos. No caso da História Militar, como podemos construir diálogos que ajudem a tornar mais público personagens e elementos centrais da história dos militares no Brasil?

Renato Lemos: Bem, antes de tudo, preciso esclarecer que não trabalho com “história militar” em sentido estrito – batalhas, organização, armamentos etc. –, mas com a história das relações dos militares com a política. Mas entendo que os problemas sejam os mesmos. É o problema da aproximação da vida acadêmica com o cotidiano da população. As atividades ditas de extensão parecem ser o melhor caminho para isso no âmbito da universidade. Mas entidades civis, como a ANPUH e a ABED (Associação Brasileira de Estudos de Defesa), também podem cumprir um papel importante no sentido de disseminar mais amplamente as questões e o conhecimento relativos à área temática.

Entrevistadores: Você poderia aprofundar um pouco qual tem sido sua relação com as fontes de pesquisa? Olhando em perspectiva para o conjunto de seus trabalhos, você encontrou dificuldades para acessar materiais específicos? Perguntamos isso porque, apesar da lei de acesso à informação brasileira, alguns pesquisadores que estudam a História Militar relatam dificuldades de acessar certos arquivos e documentos. Isso já ocorreu com você ou com seus orientandos?

Renato Lemos: Sim, os estudos que envolvam arquivos privados – individuais ou coletivos – e públicos relativos a militares ou instituições castrenses, geralmente, enfrentam problemas de acesso. Às vezes, na forma de dificuldades administrativas, outras vezes, de tipo restritivo mesmo, próximo à censura. Pesquisas sobre a participação de militares no regime ditatorial, por exemplo, frequentemente se deparam com a informação da inexistência de um determinado acervo documental de que se tem registro em códices levantados na fase de levantamento de fontes.

Entrevistadores: A História dos Militares está inserida, em geral, na história da formação dos Estados Nacionais. No caso brasileiro, em que medida a história dos militares compõe a narrativa histórica do Estado Nacional? É possível pensar a construção da política atual a partir da História dos Militares?

Renato Lemos: Na história de várias formações sociais, as forças armadas tiveram papel fundamental na formação dos Estados nacionais. Em algumas situações, até mesmo antecederam, ou melhor, atuaram na construção desse tipo de Estado, como nos casos da Rússia, Portugal e Espanha. O caso do Brasil guarda alguma semelhança, apesar da singularidade de ter sido uma colônia. Como a transição para o Estado independente se fez sem maiores rupturas com a Metrópole, as Forças Armadas – Exército e Marinha –, cuja organização foi mantida, de alguma forma antecederam o Estado Nacional. Mas eu penso que a história das Forças Armadas não pode ser tomada como um fio condutor para o conjunto da nossa história política. Já nos quadros da República, sim. Não só por se tratar de uma forma política cuja existência histórica se deve, em grande parte, à ação de segmentos militares, mas porque temos vivido um processo de construção e crise de regimes políticos em que as Forças Armadas têm sido um elemento central (…)

Entrevistadores: É possível notar que alguns dos pilares fundamentais para a construção de visões políticas que modulam o debate contemporâneo são o resgate de valores conservadores e os usos políticos da memória, principalmente as relacionadas ao poder político exercido pelos militares após o golpe de 1964. É possível sugerir que os valores conservadores e autoritários fazem parte do conjunto da sociedade brasileira? Como relacionar essa questão com os chamados de alguns setores sociais pela intervenção militar em momentos de crise, como ocorreu em 1964 e, recentemente, nas manifestações populares que tomaram as ruas no decorrer dos últimos anos?

Renato Lemos: Não seria exagero dizer que a participação dos militares em posição protagonista constitui um traço da longa duração da formação social brasileira. E isto intriga os analistas da política brasileira contemporânea. Do meu ponto de vista, a presença maciça de militares, atualmente, em várias instâncias governativas da nossa sociedade é produto do cruzamento de duas tendências. Uma, de médio prazo, é o processo de militarização dos Estados capitalistas a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, acentuado dramaticamente pelo chamado “Atentado às Torres Gêmeas”, nos Estados Unidos, em 2001. Outra, de curto prazo, é a crise do regime político democrático instituído pela Constituição de 1988. A participação militar em episódios cruciais como a destituição da Monarquia em 1889, a deflagração do golpe do Estado Novo em 1937 e a deposição do presidente João Goulart em 1964 se explicam, em grande parte, pela percepção castrense de que a ordem sócio-política se encontrava ameaçada por algum fator que poderia ser anulado pela intervenção militar. Esta perspectiva está presente na atual conjuntura, ainda que os principais argumentos para a intervenção estejam muito colados na situação contemporânea. Mesmo assim, o campo militarista maneja argumentos de longa duração, como a desqualificação da política e dos políticos em confronto com uma suposta superioridade moral e técnica dos militares, argumento tão antigo quanto a Guerra do Paraguai.

Entrevistadores: Na sua perspectiva, quais são as referências incontornáveis para compreender a História dos Militares no Brasil? Quais sugestões você daria para alguém que está iniciando os estudos sobre esta temática ou mesmo para um público mais amplo que tenha interesse em conhecer o papel dos militares e dos militarismos no país?

Renato Lemos: A historiografia brasileira apresenta muitos e diversificados trabalhos sobre a história da relação entre os militares e a política. Mas nem todas as obras têm este tema como central em suas pesquisas. Às vezes os militares surgem na dinâmica da conjuntura, outras vezes como elemento do sistema político. No meu campo de estudos, há trabalhos importantes por seu pioneirismo em termos de abordagem e outros, pelas propostas de análise e resultados obtidos. Uma lista referente apenas a autores fundamentais para a compreensão dos paradigmas analíticos disponíveis no campo historiográfico militares-política destacaria obras de Alan Rouquié, Alfred Stepan, EdmundoCampos Coelho, José Murilo de Carvalho e Nelson Werneck Sodré.

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