As cenas da invasão do capitólio em Washington, D.C. pareceram surpreender o consenso primeiromundista em torno da democracia liberal. “Como seria possível algo do tipo acontecer na mais consolidada democracia ocidental?” Do lado de cá, a reação foi acompanhada de um temor: “Será que coisa parecida poderá ocorrer por aqui?”. Os preocupados com o futuro institucional do Brasil podem ficar tranquilos. Algo do tipo já aconteceu por aqui, e desde então não parou de não acabar. Esse capítulo é mais um na longa jornada de periferização do mundo, na qual a condição periférica – que era própria do “Sul Global” – se universalizou (CANETTIERI, 2020). Esse processo em curso de um “devir-periferia do mundo” não é apenas a generalização da precarização das relações sociais, mas acompanha também o derretimento institucional das repúblicas democráticas do ocidente.

Como bem demonstrou Robert Kurz (2002 [1994]), a forma-política está conectada geneticamente à forma-mercadoria e, assim, conformou o quadro do que entendemos por política hoje. Mas tal construção nunca foi ubíqua. Na periferia do capitalismo a instabilidade política seria condição necessária para a produção ampliada de mercadoria. É fundamental aqui reconhecer que o capital hoje enfrenta uma crise absoluta de valorização (KURZ, 2018 [1986]). Esse problema não é um economicismo vulgar: reconhecemos, tal qual Marx o fez, que as classes são tão somente máscara de caráter de um processo automático. Esse processo de valorização do valor é, portanto, o processo de reprodução social – ainda que esteja totalmente dominado pelo moderno arcaísmo do fetichismo da mercadoria. Mas esse mesmo processo é intrinsecamente contraditório: a própria produção ampliada do capital coloca os limites e as barreiras a sua própria reprodução. Esse processo imanente de crise foi descrito por Marx (2013 [1867]) n’O Capital que, infelizmente, ainda é lido como um livro de Economia – e o subtítulo precioso, Crítica da Economia Política, segue sendo solenemente negligenciado. O processo descrito por Marx como mais-valor relativo, aquele pelo qual o capital se universaliza é central para essa compreensão. Se os capitais individuais precisam aumentar a produtividade do trabalho, estes o fazem elevando a composição orgânica do capital, o que significa uma redução da massa de trabalho vivo disponível e, por fim, menos valor é criado no sistema geral. Essa formulação teórica de Marx, ainda no século XIX, se mostrou verdadeira quase um século mais tarde, na década de 1970, quando “observamos um ciclo independente de desemprego em massa, que tem crescido de forma quase autônoma em relação aos ciclos conjunturais” (KURZ, 2018 [1986], p.61). Ora, o resultado disso é só um: a dissolução de formas historicamente determinadas de mediação social constituídas sob a égide do capital ocasionada pelo seu próprio funcionamento interno. O trabalho, substância do valor — que não é uma categoria estritamente econômica em Marx, mas uma categoria de crítica social —, funciona como o princípio de mediação entre os indivíduos, de formação de identidade e de reconhecimento intersubjetivo. Essa mesma sociedade que alçou o trabalho a este posto o derruba — sem nada pôr em seu lugar. Desta maneira, a erosão deste pilar, o trabalho, faz todo o edifício ruir e aumenta a pressão sobre o outro pilar fundamental: a política (KURZ, 2002 [1994]).

Hoje, passado meio século desde os anos 1970 quando o patamar de valorização do valor alcançou seus limites absolutos, parece que a crise política já se torna mais evidente e indultável. Não é surpresa que um dos consensos mais urgentes hoje seja exatamente preservar o pouco de democracia (formal e institucional, tão somente). E, assim, muitos se apressam a colocar as escoras para segurar os pilares danificados. A despeito do abnegado esforço, falham miseravelmente. Dia após dia, as fileiras do exército de desempregados aumentam. Disso fermenta toda sorte de ressentimento e frustração que são facilmente mobilizados por discursos filofascistas que entregam, ao mesmo tempo, a dignidade de reconhecer o apocalipse que enfrentam e a promessa de abertura de uma nova era.

Há aqui uma intricada dialética do radicalismo fascista: de um lado, como bem notou Adorno (2020 [1967], p.52), “eles de certo modo querem a catástrofe, eles se nutrem com fantasias do fim do mundo”. De outro, como notou Kurz (2020 [1993], p.39) para o fascismo histórico, eles se propunham antes de mais nada a cumprirem o papel de agentes de modernização: “A máquina mortal nacional-socialista era hipermoderna e orientada para o futuro” (KURZ, 2020 [1993], p.39).

Nesse sentido, Catalani (2020; 2019) tem pensado essa dialética imposta no regime histórico do capítulo mais recente do radicalismo de direita. Como, ao mesmo tempo, há o desejo pelo fim do mundo e existe um impulso aceleracionista em direção ao futuro? Essa dialética se resolve com uma certa “orientação pela catástrofe”:

[…] Os populistas de direita, isto é, os reacionários, se tornaram “progressistas” no sentido de que querem acelerar o tempo e adiantar o futuro – mas por isso são apocalípticos. Apocalípticos porque amigos do apocalipse, porque eles não têm pudor em acelerar o processo de devastação do meio ambiente, em aniquilar pessoas (ou simplesmente deixar morrer, como no caso italiano em que impediram que um barco de refugiados atracasse) e em transformar a sociedade em uma guerra de todos contra todos em que sobrevive o mais armado – e isso não é nenhum “retorno à Idade Média”, é o próprio ápice do desenvolvimento capitalista, cuja verdade não é nenhuma versão democrática e luminosa de sociedade, mas sim esse grande Nada destrutivo. A referência temporal dessa nova direita não é nenhum passado, mas essa “nova era”, que é, para eles, “a última cruzada” (CATALANI, 2019, s.p.).

Talvez o aspecto ideológico mais fundamental seja o fato que estes levam a sério a catástrofe, até as últimas consequências – tanto que pretendem realizá-la a todo custo. Encontram, assim, no cruzamento do desejo aceleracionista com uma razão apocalíptica um momento de verdade.  Para seus adeptos, apenas esse futuro escatológico pode abrir portas para uma nova era.

Portanto, esse novo radicalismo tem como seu combustível a lógica social do colapso, que parece agregar uma massa enorme de indivíduos que foram descartados de seus trabalhos e degradados de suas posições sociais. Disso resulta o fermento do ressentimento e frustração, que, combinado com o medo e descontentamento crescente torna-se uma mistura explosiva. As instituições democráticas e republicanas já não ofertam nenhum consolo ou podem servir de amparo para estes indivíduos. Eles já sabem disso de sua experiência mais imediata com o Estado. O filme Les Miserables (Ladj Ly, 2019) sobre os novos miseráveis dos banlieus franceses mostra exatamente isso ao explorar as formas “informais” que surgem para a administração do social em pedaços. Há o autoproclamado Le Meire, que organiza a vida social dos conjuntos habitacionais; o traficante Sovinas; os religiosos, como Salah; até a polícia, que age completamente à revelia da lei. Todas essas forças são convocadas para dar alguma coesão a algo em pleno colapso. No filme, mostram-se outras formas de gestão informal que não passam pela legalidade ou pela institucionalidade: o mundo do crime, o uso militarizado da força estatal, a esfera religiosa e a política não-institucional (baseada ou não em relações de força e mando).

A expectativa é que tudo pode apenas piorar. Trata-se de uma era de expectativas decrescentes, formula o filósofo Paulo Arantes (2014). Para que esses gases que sobem do subsolo de um social em ruínas entrem em combustão e incendeie tudo, basta apenas uma fagulha. E, vez ou outra, algum piromaníaco pode aparecer para liderar esse sentimento.

Claro, “esse comportamento de forma alguma é só psicologicamente motivado, ele tem também sua base objetiva” (ADORNO, 2020 [1967], p.54). Uma dessas outras causas seria a dinâmica própria do capital que implica na “desclassificação permanente de camadas que eram completamente burguesas de acordo com sua consciência de classe subjetiva” (p.46). Assim, à medida que avança o assombro do “fantasma do desemprego tecnológico” mais as pessoas que “estão no processo de produção sentem-se já como potencialmente supérfluas” (p.47). Trata-se, segundo o frankfurtiano, de medo diante das consequências do desenvolvimento geral da sociedade, que “se encontra em crise permanente” (p.49). Por isso, movimentos desse tipo buscam sempre construir o que Adorno vai chamar de “bandwagon effect” (p.53), um efeito de adesão poderoso que agrega um amplo espectro da população, que vai desde as classes mais baixas até as classes mais altas (cada com uma razão e com um interesse para seu engajamento) como forma de resistir ao momento de crise.

O novo radicalismo de direita também deve ser visto diante desse pano de fundo. Trata-se de um fenômeno de crise, mas sob as novas condições e, assim um fenômeno de crise da própria democracia de mercado em decomposição. A própria universalização total das suas formas de base a conduzem ad absurdum. […] O novo radicalismo de direita já é ele mesmo uma forma visível do esgarçamento daquelas vestes, um fenômeno da desrazão das particularidades não mais generalizáveis dos sujeitos concorrenciais que se veem diante do universalismo abstrato totalizado da mercadoria e do dinheiro que não é capaz de integrar (KURZ, 2020 [1993], pp.58-59).

Todavia, o nacionalismo exacerbado, as palavras de ordem populistas, as promessas e os sacrifícios e a preparação para uma guerra vindoura não podem reverter o colapso da modernização e, ao que tudo indica, darão forma ao curso da crise. Já não se fala em inclusão e integração na sociedade do trabalho porque esse limite já foi ultrapassado (BARREIRA, 2020).

Tudo somado, o que se tem é uma adesão a formas de uma concorrência asselvajada que substitui a esfera política tal qual como conhecemos. Diante deste cenário, é possível compreender o porquê de a política continuar como um horizonte possível para muitos, como uma contraposição ao novo radicalismo. Contudo, trata-se de uma miragem.

É preciso notar que a ascensão do extremismo de direita faz um uso ambíguo dos instrumentos legais. O tempo todo existe um tensionamento entre ultrapassar os limites legais e se refugiar dentro de seu perímetro de validade, manobrando suas massas de maneira complexa num terreno arenoso cheio de espelhos e fumaças. Por isso, o discurso que legitima tal extremismo deve reivindicar e reconhecer sua própria ilegitimidade (como um outsider) ao passo que se coloca como um defensor da lei, mesmo que por métodos ilegais. O surpreendente é que, devido a adesão que essa pirotecnia discursiva causa, não raro a sociedade se perde em análises de discurso e análises estritamente legais, enquanto o movimento extremista vai ganhando força social. De Caux (2020, p.296) está correto ao perceber o definhamento da forma-jurídica neste contexto. Para o autor, estaria em curso no Brasil (mas não só, como os recentes episódios nos Estados Unidos deixam claro) um processo no qual “frações de classe que operam à margem da lei (mesmo que eventualmente conquistando as bênçãos da lei a posteriori, o que na prática significa que lograram se impor à lei)” têm sido capazes de se imporem. Portanto, devemos ter sempre em mente a boa definição de João Bernardo (2002): O fascismo não é simplesmente uma revolta, mas uma revolta na ordem. Uma vez entendido o movimento de ascensão do extremismo de direita enquanto uma expressão desordem organizada – como bem demonstrou Franz Neumann (2009 [1942]) em sua análise sobre o regime jurídico e o estado no III Reich, no livro Behemoth –, é preciso reconhecer que esse processo se efetiva à medida que decai a forma política enquanto amálgama social.

A medida em que a forma política abandona as ruinas do cenário social em crise, outra coisa passa a ocupar o critério da mediação social: a violência. Como é notado por Silvia Viana (2020), as relações de concorrência impostas que sustentam a sociedade terrorista característica de nossa época é um eufemismo para atenuar a situação. Efetivamente, trata-se de guerra – confirmado pelo sem número de manuais de auto esfolamento contemporâneos. A truculência aparentemente sem sentido é o excesso necessário deste mundo administrado em crise.

De tal forma, seja com golpe ou sem golpe, com ditadura ou sem ditadura, com tanque na rua ou não, com camisas pardas ou predas, a tendência é que a violência, pelo aparato do Estado ou não, ocupará cada vez mais a vida social num estágio avançado de crise. Como foi o fascismo histórico, a gangsterização da economia e o exercício do poder tão disperso quanto violento das milícias parecem estar em via de realização.

Por isso, não devemos nos chocar (tanto) ao ver o apelo à estética militar que os adeptos do novo radicalismo de direita adotam. Se armam até os dentes e constroem bunkers, se preparando antecipadamente para o colapso que vêm. Mesmo que esses possam se enquadrar naquilo que Adorno (2020 [1967]) chamou (tomando o termo dos americanos) de lunatic fringe, a franja dos lunáticos, não é por aí que se explica esse fenômeno. Há algo de verdade, como percebeu Catalani (2020), nesses lunáticos. Trata-se de apreender a realidade concreta do colapso e fazer algo diante disso. Portanto, se preparam para a nova forma de governo que a barbárie inicia: a milícia como forma de governo da/na crise. Isso significa uma destruição das formas Estatais de governo que pressupunham uma ação articulada única em todo território nacional. Parece que o modelo dessa “política de colapso” serão as facções criminosas em constante disputa uma com a outra, numa guerra civil molecular dispersa pela sociedade (KONICZ, 2020).

Na Europa, desde 2017 a venda de armas tem crescido, com vários movimentos – muita das vezes liderados por organizações vinculadas ao novo radicalismo de direita – para desregulamentar a posse e porte de armas de fogo. Nos Estados Unidos, local onde historicamente as armas de fogo sempre se fizeram presente na vida social, o crescimento é praticamente constante desde 2007, mas bateu os recordes de vendas no ano de 2020, durante a pandemia do Sars-Cov-2 e, em especial, se acelerou nos meses próximos à eleição de novembro. A invasão do capitólio em Washington D.C., no dia 06 de janeiro de 2020, foi protagonizada por homens brancos de meia idade, com equipamentos militares – depois da ação, como era de se esperar, descobriu-se que alguns posavam nas redes sociais empunhando armas de fogo e não raro entre os apoiadores do ato estão membros das forças armadas. No Brasil o mesmo discurso já vem ganhando força desde muito tempo, mas encontrou no presidente Jair Messias Bolsonaro seu principal porta-voz. Essa parece ter se tornado sua pauta principal, como se viu nas gravações da fatídica reunião ministerial “vazada” do dia 22 de abril de 2020[1].

Erra quem procura encontrar uma racionalidade genocida no novo radicalismo de direita. O uso da violência talvez seja a principal diferença entre o fascismo histórico e o que vivemos hoje. À época a organização do holocausto era uma necessidade[2]. Hoje, contudo, a melhor expressão é de Tomasz Konicz (2020): trata-se de uma guerra civil molecular. Diferentemente da retórica desesperada pelo despreparo da Esquerda, não se trata da formação de um exército paralelo ou de uma força paramilitar organizada e coesa como a Sturmabteilung do Führer ou os camicie nere do Duce. Na verdade, são vários grupos armados motinizados em estado de conflagração permanente. Até mesmo as medidas de Bolsonaro que visam a implementação da violência como modo de agir do Estado, como a ampliação do “excludente de ilicitude” para policiais envolvidos em homicídios está no registro da guerra civil molecular e dispersa, já que perpetua (e facilita) a atuação violenta de agentes que atuam por conta própria. Essa forma de ação violenta – diferente do que foi a violência “organizada” do século XX – guarda uma certa homologia com o mito da concorrência generalizada no mercado do cada um por si[3]. “A iniciativa individual assume, então, uma forma ainda mais selvagem, na qual os indivíduos socializados diretamente pela concorrência já se preparam com armas na mão para os próximos estágios da crise” (BARREIRA, 2020, p.84).

Bolsonaro em campanha de 2018: “vamos fuzilar a petralhada”. (Poder 360, 2018).

Essa condição faz parte tanto da experiência de fim de linha imposta na crise absoluta do capital – já que aparece forma barbarizadas de sobrevivencialismo – como faz parte também do aceleracionismo em direção ao colapso, como uma queima do mundo capaz de separar o caput mortum de uma promessa edificante de futuro (mesmo que para poucos). Assim, esses grupos, mesmo que dispersos em células de combate, fazem parte de um movimento que se desloca em uma mesma direção.

Tal dispersão, “seu caráter fragmentário” que Adorno (2020 [1967], p.66) pôde perceber, é condição para sua agregação que acontece em algum lugar no futuro. A promessa de ascensão é algo fundamental para construir a unidade na diferença dessas mônadas asselvajadas. Diante de um horizonte de expectativas tão rebaixado, qualquer promessa de melhora, mesmo que impossível, é um poderoso combustível para a agregação. Os neonazis alemães dos anos 1970-1980, desde a Nationale Aktivisten já mobilizavam esse tipo discurso. Hoje não é surpresa que o lema trumpista seja “make America great again” ou que Bolsonaro por aqui prometa “uma nova era”. Afinal de contas, são esses os “revolucionários” de hoje. Como já foi dito, não se trata de lunáticos – embora sejam: são a expressão de uma condição social objetiva fermentada a fogo lento que finalmente se entornou do caldeirão. Sua origem, portanto, está umbilicalmente conectada ao colapso da modernização.

É um tremendo erro de diagnóstico achar que “os novos radicais de direita devem ser uma espécie de acidente genético civilizatório, que possibilita o afloramento de impulsos atávicos. A democracia civil de mercado não teria nada a ver com isso; pelo contrário, ela oferece a única defesa contra tal atavismo” (KURZ, 2020 [1993], p.23). A genética do fascismo é a mesma da democracia. Aquele aparece na derrocada desta. Por isso, devemos evitar a interpretação de que a ascensão do novo radicalismo de direita seja uma forma de regressão. Ao contrário, os movimentos dessa extrema-direita são resultado do progresso – um progresso em direção ao fim desta forma social que produz tal morbidez.

Deve-se ter em mente, portanto, que “fascismo não foi um mero desastre histórico, um acidente de percurso: ele não surgiu do acaso. Pelo contrário, ele é, na afirmação enfática de Horkheimer, a verdade da sociedade moderna” (CATALANI, 2020, p.12). Seria o caso de lembrar o aforismo de Hegel (2008 [1807]), no vigésimo parágrafo da introdução da Fenomenologia: “só no fim é o que é na verdade”. Até algo se desenvolver plenamente ele nunca é o que é, mas no fim é quando ele acaba. A verdade da democracia, demonstrada com o seu fim, é o fascismo. Eis aí o enigma revelado da história.

Assistimos à última inspiração profunda da política. Nesse átimo que se prolonga indefinidamente, podemos torcer, rezar, sonhar e esperar para que o quadro seja revertido por passe de mágica. Depois do colapso a generalização da barbárie parece ter produzido “uma nova qualidade de sociedade”, como escreve Adorno (2008 [1951], p.51), na qual “perpetua-se a catástrofe”. Quando escutarmos a última expiração talvez seja tarde demais.

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor. 2008 [1951]. Minima Moralia. Rio de Janeiro: Beco do Azouge.

ADORNO, Theodor. 2020 [1967]. Aspectos do novo radicalismo de direita. São Paulo: Editora Unesp.

ARANTES, Paulo. 2014. O novo tempo do mundo e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo.

BARREIRA, Marcos. 2020. Brasil em tempos de declínio social: comentários sobre a pós-política no governo Bolsonaro. Margem Esquerda, n.35, pp.79-88.

BERNARDO, João. 2015 [2003]. Labirintos do fascismo: na encruzilhada da ordem e da revolta. Disponível em: https://colectivolibertarioevora.files.wordpress.com/2015/05/labirintos-do-fascismo-nova-versc3a3o.pdf Acessado em: 12 de jan. 2021.

CANETTIERI, Thiago. 2020. A condição periférica. Rio de Janeiro: Consequência.

CATALANI, Felipe. 2019. A decisão fascista e o mito da regressão: o Brasil à luz do mundo e vice-versa. Blog da Boitempo. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2019/07/23/a-decisao-fascista-e-o-mito-da-regressao-o-brasil-a-luz-do-mundo-e-vice-versa/ Acesso em: 10 de jan. de 2021

CATALANI, Felipe. 2020. Apresentação à edição brasileira: depois da meia-noite no século, Adorno e as análises do fascismo. In: ADORNO, Theodor. Aspectos do novo radicalismo de direita. São Paulo: Editora Unesp.

DE CAUX, Luiz Philipe. 2020. Hipótese de definhamento da forma jurídica (e o atual capítulo brasileiro de seu processo). Sinal de Menos, n.14, v.2, pp.283-300.

HEGEL, Georg. 2008 [1807]. Fenomenologia do espírito. Petrópolis: Vozes.

KONICZ, Tomasz. 2020. A marcha das Milícias. Blog da Consequência. Disponível em: https://blogdaconsequencia.wordpress.com/2021/01/07/a-marcha-das-milicias-por-tomasz-konicz/ Acessado em: 11 de jan. de 21.

KURZ, Robert. 2002 [1994]. O fim da política. Disponível em: http://www.obeco-online.org/rkurz105.htm Acesso em: 10 de jan. de 2021.

KURZ, Robert. 2018 [1986]. A crise do valor de troca. Rio de Janeiro: Consequência.

KURZ, Robert. 2020 [1993]. A democracia devora seus filhos. Rio de Janeiro: Consequência.

NEUMANN, Franz. 2009 [1942]. Behemoth: the structure and practice of national socialism. Chicago: Peter Hayes.

POSTONE, Moishe. 2012 [1980]. Antissemitismo e nacional-socialismo. Revista Sinal de Menos, n.8, v.1, pp.14-28.

VIANA, Silvia. 2020. Acabou! Argumentum, v.11, n.2, pp.17-30.


NOTAS:

[1] Vale ter em mente parte da fala do então presidente: “Aí, que é a demonstração nossa, eu peço ao Fernando e ao Moro que, por favor, assine essa portaria hoje que eu quero dar um puta [sic] de um recado pra esses bosta! Por que que eu estou armando o povo? Porque eu não quero uma ditadura! E não da pra segurar mais! Não é? Não dá pra segurar mais. É. Quem não aceitar a minha, as minhas bandeiras: família, Deus, Brasil, armamento, liberdade de expressão, livre mercado. Quem não aceitar isso, está no governo errado. Esperem pra vinte e dois, né? O seu Álvaro Dias. Espere o Alckmin. Espere o Haddad. Ou talvez o Lula, né? E vai ser feliz com eles, pô! No meu governo tá errado! É escancarar a questão do armamento aqui. Eu quero todo mundo armado!”

[2] Neste sentido, Postone (2012 [1980]) é fundamental: “Nenhuma explicação funcionalista do Holocausto e nenhuma teoria do antissemitismo como bode expiatório pode sequer começar a explicar o porquê de, nos últimos anos da guerra, quando as forças alemãs estavam sendo esmagas pelo Exército Vermelho, uma proporção significativa de veículos ter sido desviada do apoio logístico e utilizada para transportar os judeus para as câmaras de gás”. Para Postone o horror do antissemitismo nazi se deve à uma “revolta do concreto contra o abstrato”. Para uma análise pormenorizada do tópico, Cf. Catalani (2020, pp.24-27).

[3] De tom quase premonitório, o filme Le Couperet (Costa-Gravas, 2005) apresenta essa situação: um engenheiro químico despedido que, depois de anos desempregado e ressentido, resolve estruturar uma operação para retornar ao trabalho. Cria uma empresa falsa para receber currículos de seus concorrentes e mata um a um até conseguir novamente um emprego.

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