(*) José Cláudio Souza Alves é autor do livro “Dos barões ao extermínio: Uma história da violência na Baixada Fluminense”, segunda edição revista e ampliada publicada pela Editora Consequência

Publicado em: https://contrapoder.net/

Ele era meu amigo. Conhecíamo-nos desde 1986. Nos últimos anos a vida não tinha sido fácil para ele. O desemprego, a falta de grana e a aposentadoria que não saía o desesperava. Morava na casa que os pais haviam deixado. Mas em todo este tempo, nunca perdeu a generosidade que lhe era peculiar. Sofreu uma queda de bicicleta e teve um coágulo no cérebro. Ficou quase duas semanas no Hospital de Saracuruna (o Adão Pereira Nunes), em Duque de Caxias, junto com mais 49 pacientes, numa única e imensa enfermaria, cujas camas ficavam a um palmo, uma das outras e sem divisórias. Neste período, usou sua própria roupa e não lhe deram banho. Ao receber alta, voltou para casa. Passou, então, a ter um quadro de febre muito alta. Levado às pressas para um Posto de Saúde, faleceu. O laudo da causa mortis falava em insuficiência respiratória. Não fizeram o teste para coronavírus. Como havia suspeita de contaminação, não houve velório. Enterro com dois parentes e caixão lacrado. Os familiares que cuidaram dele ficaram de quarentena. Há uma grande probabilidade de ter contraído coronavírus no hospital. Logo, há uma probabilidade do caso ser uma subnotificação de coronavírus disfarçada de insuficiência respiratória. Independente da causa verdadeira da morte, a família teve que desembolsas R$ 2.800,00 pelo enterro, num caixão que parecia feito de MDF. A única funerária que detêm o monopólio dos enterros, numa cidade de um milhão de habitantes, acumula indícios de ser mais um dos negócios lucrativos da milícia, some-se a isto o controle que exercem sobre os serviços nos hospitais públicos. Da consulta ao enterro, passando pelos exames e o preço da urna funerária, a morte, indiferente à causa, em si mesma, torna-se uma manifestação de poder. A estrutura legal e formal de hospitais, cartórios, funerárias e cemitérios são perpassadas pelo poder miliciano, com seus representantes na Delegacia, no Batalhão, na Câmara de Vereadores e na Prefeitura. O coronavírus é a ajuda que recebem no momento, em meio à crise de uma economia em quarentena.

A morte sempre foi a manifestação derradeira de poder. Grupos de extermínio, ainda mais em sua fase miliciana, sempre souberam disto. Bolsonaro ao se eleger, enaltecendo torturadores e assassinos da ditadura militar, comprovou o efeito eleitoral disto. A dimensão da morte é tão eficiente, que nem precisa ter corpo, ou prova. Pelo contrário, o que venho chamando de chacinas invisíveis mostra que é possível aprofundar e ampliar o poder da morte pelo desaparecimento dos corpos. A princípio, haveria uma aparente contradição no uso desta expressão, já que chacina implica em algo visível, exposto, com o objetivo de demonstrar força no uso da violência. Neste sentido, invisível não seria um adjetivo aplicável. Contudo, chacinas invisíveis realizam a junção de duas práticas, ambas violentas. De um lado, o homicídio de muitas pessoas e do outro o desaparecimento destes corpos. Fica explícito, pela junção das duas dimensões, uma potencialização do ato violento. A visibilidade invisibilizada da chacina revela o alto poder de dano provocado à vida de inúmeras pessoas presenciada pelos habitantes do local onde ocorreram as mortes e a dissuasão de qualquer forma de registro, investigação ou aplicação da lei. Ao final, ocorre a potencialização da força e impunidade dos assassinos frente à impotência e aprofundamento do terror para os moradores daquela região.

Com o coronavírus, a morte apenas segue seu percurso de exaltação nacional. Os mais desprotegidos entregues ao sistema público de saúde, controlados por milicianos ou não, serão os mais atingidos. Invisibilizados, em chacinas ou em pandemias de casos não notificados, comporão o exército de cadáveres de reserva, fornecedores de ganhos para funerárias, cartórios e cemitérios, quando existir corpos, ou de mais poder territorial para milicianos, na ausência do que enterrar. Com ou sem corpo, a morte é ocultada, por atestados de óbitos sem a causa verdadeira, por cemitérios clandestinos ou não, pelas águas dos rios. Mas quanto mais ocultada, mais a morte se torna forte. A morte é para ser sentida, vivida, na dor da ausência, no sofrimento do desamparo, na solidão e no medo. A morte sem corpo é o paroxismo do desamparo dos que não podem fazer nada. Membros de uma comunidade soltam o cadáver de uma pessoa executada e dada como desaparecida, dos galhos imersos dentro de um rio no qual ele foi jogado, pelo simples fato de que ninguém ali se imagina na mesma situação dele, ou seja, sem direito a corpo, luto, caixão e enterro. A morte sem corpo, invisível, é o cúmulo do terrorismo do Estado, de onde vêm os novos, não tão novos assim, algozes, travestidos de benfeitores, a serem enaltecidos em redes sociais, palanques e eleições. A morte sem causa verdadeira, vírus transformado em insuficiência respiratória, junta no mesmo buraco os contaminados ou não. É o pico estratosférico da angústia de uma nação inteira desigual, desinformada, desalentada onde a morte fez sua morada, para permitir que capitães, milicianos e empresários seus apoiadores, destruam direitos dos trabalhadores, liquidem políticas sociais e movimentem a economia dos seus ganhos repartidos entre os que sempre lucraram com a invisibilidade programada dos mais pobres.

A cova, contudo, é berço. Cada cadáver, uma semente. Na morte, uma nova vida. O que germina não é a covardia e o medo. Estes são heranças de colonizadores, burgueses, ditadores, torturadores, milicianos e assassinos. O que brota é a esperança, tão monolítica quanto o passado. Os que nunca desistem jamais se renderão. Quanto mais a milícia e o vírus avançam, novas formas de resistência, imunidade, proteção e conhecimento surgirão. A guerra criminosa ou biológica não possui determinismos. Pois o humano, pelo seu conhecimento, adaptabilidade e resiliência sempre seguiu avançando. Claro que entramos numa nova fase de mortes globais, numa escalada capitalista que destrói a natureza, envenena alimentos, desmonta sistemas de saúde, amplia lucros legais/ilegais de Bancos/Financeiras/Empreiteiras/Agronegócio/Mineradoras/Estados/Máfias/Milícias/Cartéis e aprofunda a espoliação do trabalhador e da natureza. Entretanto, se a morte é mais ampla e a cova/berço é mais funda, maior será o dossel da floresta que hoje erguemos. Nela, amigo, sua morte não será em vão. Todos os que tombaram estarão segurando os braços dos que se erguem por um mundo sem donos, senhores nem carrascos.

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