Publicado em português em: Krisis – Crítica a sociedade da mercadoria / Tradução: Marcos Barreira

A crítica do capitalismo está em qualquer lugar. Um anticapitalismo radical e emancipatório precisa se libertar da megalomania do sujeito revolucionário e desmascarar como supérfluo o próprio sistema que declara supérfluas as pessoas e suas necessidades. A fase atual do desenvolvimento capitalista é fundamentalmente diferente das anteriores. Desde os dias da Revolução Industrial, o avanço dos princípios formais da sociedade da mercadoria – trabalho, direito e política – funcionaram como um processo de integração repressiva. Hoje, por outro lado, sua dominação equivale a uma dessocialização repressiva. Na periferia do mercado mundial, desapareceu de uma vez por todas a perspectiva da formação de economias nacionais funcionais e da inclusão da maioria da população na moderna sociedade do trabalho. Mesmo com um pretenso modelo de sucesso como a China, o desenvolvimento capitalista leva apenas à formação de ilhas minoritárias do mercado mundial rodeadas por um oceano de miséria em massa. Até nos centros do mercado mundial, porém, o sistema de valorização contribui cada vez menos para a manutenção da reprodução social, da qual ele mesmo se tornou dependente. Não só mais e mais pessoas são descartadas como inutilizáveis; também são discutidas a educação gratuita, a assistência médica independente da renda, uma rede abrangente de transportes públicos e outras partes da infraestrutura pública. Não há capitalismo sem a degradação das pessoas a apêndices na máquina de valorização, sem a adaptação das necessidades. O capitalismo global dos dias atuais se destaca das fases anteriores de desenvolvimento à medida que um trauma historicamente novo se sobrepõe à exploração e ao ajustamento. O prêmio dos servos do capital pela obediência aos princípios formais da sociedade da mercadoria – trabalho, direito e política – é que eles e as respectivas necessidades coletivas, mesmo em sua forma combalida, são progressivamente abandonados como irrelevantes. O paradigma da exploração é substituído por uma nova experiência primordial, o trauma das pessoas supérfluas – a partir da perspectiva capitalista – com reivindicações supérfluas. O futuro dos diversos campos sociais depende decisivamente de como eles escapam desse trauma. É possível que ele se torne o ponto de partida para um novo anti-capitalismo, e o que é necessário para consegui-lo? A resposta depende de como o anti-capitalismo é definido. Quem não pensa somente em conceitos emancipatórios não precisa mais esperar pelo renascimento do anti-capitalismo – ele já está aqui. Em vista da devastação provocada pelo mercado total, o pêndulo ideológico oscila agora na direção oposta. Quer seja o regime clientelista de esquerda de Hugo Chávez, o transnacionalismo islâmico, os nazis orientados pela frente transversal (Querfront), ou os caçadores de gafanhotos socialdemocratas, “de algum modo” hoje todos criticam o capitalismo. Até mesmo a Time diagnosticou há pouco tempo um “fracasso de mercado” global. A idéia de uma ruptura consciente com a lógica capitalista e o objetivo de uma “livre associação de produtores” (Marx) a nível mundial estão, por outro lado, totalmente fora de questão. Mais do que nunca, cada um deles é considerado absurdo e insensato e, de fato, também a esquerda radical colocou de lado a ideia de uma transformação emancipatória. Uma razão para o fracasso do anticapitalismo radical reside na imagem superada que ele faz de si mesmo, que o impede de se posicionar quanto ao trauma primordial (Urtrauma) da nossa época. As grandes correntes anticapitalistas do passado cresceram a partir de um sentimento de força, a saber, a força no interior de um contexto emergente do capitalismo. O movimento operário clássico foi o primeiro a formular essa representação de si. Anticapitalismo significava, então, inculcar nas massas operárias que eles, como “criadoras de todos os valores”, eram chamados a recriar o mundo à sua própria imagem e a preencher a política, o trabalho e o direito com um conteúdo humanitário. O lugar do proletariado industrial mais tarde foi tomado por outros “sujeitos revolucionários”. O modelo básico foi persistentemente reproduzido. A fonte da autoconsciência anticapitalista continuou a ser a crença de que ela representa as forças sociais que contam também para manter coeso o núcleo da sociedade capitalista assentada nas formas básicas do valor, do trabalho, do direito e da política. Essa exaltação que os movimentos emancipatórios do passado faziam de si mesmos os ajudou no uso da margem de manobra disponível numa era de integração repressiva. Sob as condições de “dessocialização repressiva”, porém, a prática de invocar sua própria força no terreno do trabalho e da política entra em curto-circuito, com consequências desastrosas. Ou os anticapitalistas caem em desespero com a imutabilidade das condições ou perdem o senso da realidade. Nesse contexto “retrô”, diversas posições neo-operaistas foram amiúde fortemente criticadas no Jungle World como teoricamente insatisfatórias. Isso é justificado, mas, tendo em vista os conceitos alternativos apresentados, também foi pouco. O conceito de “multidão”, de Hardt e Negri, cuja produtividade ilimitada, aliás, já representaria o comunismo, e que estaria apenas sujeita ao poder parasitário exterior do “Império”, apresenta alucinadamente a força que as correntes emancipatórias imanentes à forma perderam. O que, nas condições atuais, significa a submissão aos imperativos do trabalho e da política desaparece por detrás das ilusões de grandeza. Mas o pós-operaísmo de modo algum está só na eliminação da experiência de impotência. Com meios um pouco diferentes, as abordagens concorrentes se dedicam à mesma operação. Especialmente tais posições não são exceção, ao reconhecer empiricamente a debilidade das forças emancipatórias, a fim de explicá-las como resultado de relações sociais de força mais ou menos fortuitas e, portanto, tratá-las como reversíveis no terreno do trabalho e do valor. As lutas distributivas entre os sujeitos concorrenciais da mercadoria formam uma esfera neutra, na qual supõe-se que, com os esforços adequados, tudo pode acontecer. Tendo em vista a desvalorização estrutural da mercadoria força de trabalho na sequência da revolução microeletrônica, o próprio campo de batalha já é o problema, não apenas a posição no conflito. O mesmo dilema surge no que diz respeito à relação positiva com a política, com o equilíbrio dos interesses gerais da sociedade da mercadoria. Na fase atual do capitalismo, quem aceita, como anticapitalista, a criação de um interesse geral com base no trabalho, no valor etc., como uma orientação indiscutível, tenta transformar um interesse excludente e pacificador no seu contrário. O agravamento da desigualdade social observado nas últimas décadas é prontamente entendido na discussão de esquerda como intensificação do “conflito de classes”. Essa interpretação pretende realçar o caráter antagônico das contradições sociais atuais. Ao examinar mais de perto, contudo, a fuga da constelação histórica atual já começa com o recurso à categoria de classe. Quando é retirada a exuberância romântico-revolucionária e o conceito de classe se reduz ao seu núcleo analítico, então a oposição de classe é uma oposição entre diferentes categorias de proprietários de mercadorias. Entender “burguesia” e “precariado” igualmente como classes significa igualar o seu conflito à oposição entre capital e trabalho na fase ascendente da sociedade das mercadorias, e, assim, atribuir-lhe um caráter simétrico. O conflito de classes aparece como uma disputa entre opositores que, pelo menos em princípio, teriam crescido juntos no campo do valor, da política e do trabalho. O surgimento de um precariado, no entanto, não leva de volta à formação de classes, como sugere o emprego errôneo do conceito de classe, mas é expressão de processos de desclassificação. Mesmo que a sociedade excludente encontre resistência, o conflito preserva um caráter assimétrico. Para pensar em resistência, no entanto, os anticapitalistas devem parar de mascarar o trauma original da nossa época. Em vez disso, precisam tornar possível uma reação igualmente lógica e radical: é supérfluo o sistema que declara supérfluas as pessoas e as necessidades. Se a valorização do valor desconecta a sua reprodução da reprodução social, então a única saída emancipatória é desconectar a reprodução social da valorização do valor.

Jungle World 48/2007

Ernst Lohoff é cofundador e membro da redação da revista Krisis – contribuição à crítica da sociedade da mercadoria. Autor de numerosos artigos, vive atualmente como publicista independente em Nuremberg. Publicou, entre outros livros, “A grande desvalorização – porque a especulação e a dívida estatal não são as causas da crise” (2012), junto com Norbert Trenkle.

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