Publicado originalmente em português: https://lavrapalavra.com/

Tradução: Rodrigo Gonsalves

Agora, deve-se admitir que o argumento de Marx – para a proposição de que a propriedade comum especial compartilhada por todas as mercadorias é o trabalho – é insatisfatório. Mas adentrar totalmente nos porquês e nos motivos do argumento de Marx iria, eu acho, nos distrair. Portanto, vou simplesmente declarar minha opinião, que é esta: a conclusão de Marx está correta, mas seu argumento a favor dela não. E dado isso, vamos apenas aceitar a conclusão de Marx por enquanto, como uma hipótese de trabalho, e seguir.


Dinheiro: a forma do valor

Todos nós sabemos que partes da realidade representam ou medem outras partes da realidade. Uma régua mede o comprimento, um termômetro mede a temperatura e assim por diante. Criamos esses dispositivos de medição com um propósito definido.

Mas o significado do dinheiro, o que ele pode significar ou representar, é menos claro. O dinheiro é claramente uma tecnologia humana que entrou no estágio histórico há mais de 2.000 anos. Mas precisamente por que os humanos “criam” o dinheiro e o que seu símbolo pode representar continuam sendo um assunto controverso.

Para ser claro, por “dinheiro” não quero dizer moedas ou notas reais, mas sim as quantidades numéricas que vemos estampadas em moedas ou impressas em notas, ou armazenadas como bits em computadores e assim por diante. Para ser preciso, devo realmente dizer “unidade de contabilidade”. Mas dizer “dinheiro” é mais simples, desde que estejamos claros sobre o que queremos dizer.

Agora, Marx aborda o significado do dinheiro em seus famosos capítulos iniciais do primeiro volume de seu O capital. Ele observa que a troca de mercadorias no mercado implica que há algo igual ou equivalente sobre elas. Por exemplo, se eu vender 20 metros de linho por 10 libras e depois gastar minhas 10 libras em um novo casaco, então, indiretamente, 20 metros de linho foram transformados em 1 casaco pelo ato da troca.

Se os preços de mercado fossem inteiramente aleatórios, não haveria nada a dizer, porque essa equivalência seria acidental. Mas embora os preços flutuem, eles não são aleatórios. Há um sinal forte no ruído. Normalmente, você não pode vender uma caneta e depois comprar um avião. E você não pode trabalhar por um dia e depois gastar o seu ganho do dia para comprar uma mansão. Existem exceções. Mas as exceções sustentam a regra.

Portanto, durante qualquer período de tempo, existem preços de mercado definidos e bem estabelecidos que determinam as relações nas quais as mercadorias podem ser trocadas, ou seja, equalizadas entre si.

A afinidade mágica de todas as coisas

Um mergulho rápido em qualquer livro de antropologia revela rapidamente que os humanos nutrem as mais diversas e extraordinárias crenças sobre como o mundo funciona e como devemos conduzir nossa vida cotidiana. O que algumas culturas consideram normal, outras consideram estranho e bizarro.

Raramente temos um ponto de vista antropológico sobre nossa própria cultura. Isso porque é difícil de se fazer. Requer sair de sua estrutura conceitual e olhar para o comum e aceito como incomum e questionável. E não fomos educados a fazer isso. Na verdade, geralmente somos educados para fazer o oposto.

Somente ocultistas fervorosos, detentores de conhecimento altamente esotérico, ousariam afirmar que tudo o que vemos ao nosso redor, todas as coisas e atividades no mundo, são – apesar de todas as aparências – realmente iguais. Aquele 1 kg de caviar, pescado no Mar Cáspio, é “o mesmo que” 1000 pessoas diferentes, que vivem em locais diferentes ao redor do mundo, clicando no mesmo anúncio de internet. Ou fazer palhaçada em uma festa infantil é na verdade “o mesmo que” 200 cartuchos de munição de espingarda. Ou que 1 mês de tempo de computação em uma máquina de alta-especificação na nuvem é “o mesmo que” 1 tonelada de batatas. Somente os altamente adeptos, educados em anos de treinamento, devoção e meditação, podiam ver a verdade de tais afinidades e identidades mágicas.

Mas nós mais do que vemos a verdade disso. Nós abertamente e regularmente a alcançamos. Nós manifestamos essas afinidades mágicas entre diversas coisas diariamente. Tratamos quantidades de ovas de peixe, atenção humana, performances de palhaço, munição, tempo de computação, batatas e uma série desconcertante de outras coisas, como “o mesmo” – porque, no mercado, todos eles podem ser trocados uns pelos outros, mediados por esta tecnologia misteriosa que chamamos de dinheiro.

A magia tradicional, de maneira humilde, apenas propõe a existência de afinidades entre planetas, minerais e o destino humano. Mas as operações mágicas de nosso mundo comercial moderno – onde cada coisa, atividade e até eventos futuros são reduzidos com sucesso a quantidades comparáveis ​​desta substância que chamamos de “dinheiro” – superam esmagadoramente, em escala e ambição, as fantasias mais perturbadas da época dos grimórios medievais. A troca de mercado atinge uma afinidade universal entre todas as coisas sob o sol.

Os mistérios econômicos

É por essas razões que Marx escreve sobre o “mistério das mercadorias” com sua “magia e necromancia”.

As sociedades de mercado alcançam uma abstração conceitual titânica: cada coisa que trocamos entre nós é marcada com uma única propriedade quantitativa que chamamos de valor de troca. Mas, um tanto misteriosamente, nenhuma pessoa, nenhuma consciência única, é responsável pela abstração que chamamos de valor de troca. E, na grande maioria dos casos, nenhuma instituição humana tem o objetivo, ou o poder, de estabelecer preços. Ninguém está controlando essa abstração.

Portanto, temos dois mistérios econômicos: uma abstração social onipresente sem qualquer conteúdo óbvio e uma abstração sem um “abstrator”.

Portanto, quero dissipar um pouco do mistério, mas também acrescentar a ele. O trabalho científico não apenas explica, mas também descobre coisas que não percebíamos antes. Nesta palestra tentarei responder a duas questões: o que representa a abstração do valor de troca? e quem, ou o quê, está fazendo a abstração?

O conteúdo do valor ou trabalho abstrato

Então, vamos começar com o primeiro mistério. O que é essa abstração? O que essas quantidades de dinheiro realmente denotam?

Marx argumenta que o valor de troca se refere a uma propriedade comum especial compartilhada por todas as mercadorias – a de serem produtos do trabalho. Portanto, caviar e cliques são iguais porque, para manifestá-los como mercadorias no mercado, requerem o sacrifício do trabalho de alguém.

Agora, deve-se admitir que o argumento de Marx – para a proposição de que a propriedade comum especial compartilhada por todas as mercadorias é o trabalho – é insatisfatório. Mas adentrar totalmente nos porquês e nos motivos do argumento de Marx iria, eu acho, nos distrair. Portanto, vou simplesmente declarar minha opinião, que é esta: a conclusão de Marx está correta, mas seu argumento a favor dela não. E dado isso, vamos apenas aceitar a conclusão de Marx por enquanto, como uma hipótese de trabalho, e seguir.

Marx então diz que a propriedade comum não pode ser tipos específicos de trabalho – porque pescar caviar, escrever softwares publicitários, fazer palhaçadas ou fabricar munições – são atividades muito diferentes.

O ato de troca abstrai das peculiaridades individuais das diferentes atividades laborais, deixando algo comum a todas elas, o que Marx chama de “trabalho humano abstrato”, ou trabalho abstrato. As mercadorias, de acordo com Marx, têm valor econômico “apenas porque o trabalho humano em abstrato foi incorporado ou materializado nele”.

Agora, temos que ter cuidado com o termo “incorporado”. Marx não significa literalmente que o trabalho abstrato é inerente ao corpo material da mercadoria. O trabalho abstrato não é uma propriedade física de uma coisa. O que ele quer dizer é que alguma fração do tempo total de trabalho da sociedade deve ser usada, ou gasta, para produzir a mercadoria e colocá-la no mercado.

Portanto, trabalho abstrato não é trabalho concreto, não é um tipo específico de atividade laboral, mas algo mais, algo mais profundo e geral. Como afirma Marx, o trabalho abstrato tem “o caráter de força de trabalho média da sociedade”. Portanto, uma boa primeira aproximação é pensarmos no trabalho abstrato como denotando os poderes casuais do trabalhador típico ou médio. Isso não está certo, mas servirá por enquanto.

Assim, segundo Marx, a abstração titânica alcançada pela troca de mercadorias refere-se a um conteúdo específico, que é uma propriedade do mundo material que ele chama de trabalho abstrato.

Como medimos o trabalho abstrato?

Marx, nos capítulos iniciais de O Capital, imediatamente faz a pergunta óbvia: “Como, então, a magnitude desse valor deve ser medida?” e ele responde, de maneira aparentemente direta, que é medido “por sua duração, e o tempo de trabalho, por sua vez, encontra seu padrão em semanas, dias e horas”. Então, estamos falando sobre unidades de tempo.

Podemos supor, portanto, que podemos puxar imediatamente nossos cronômetros e começar a medir a quantidade de tempo que as pessoas passam trabalhando, e então correlacionar nossas medições com os preços que observamos no mercado. Porque se os preços realmente representam o tempo de trabalho, então devemos, em princípio, ser capazes de verificar cientificamente essa afirmação.

Mas isso seria muito precipitado. Antes mesmo de podermos considerar a verificação empiricamente da teoria do valor de Marx, precisamos de mais clareza sobre o que essa teoria realmente é. A teoria deve preceder a medição.

Agora, não tenho tanta certeza do quão deliberado é isso, especialmente porque li Marx traduzido. Mas pode ser digno de nota que Marx não pergunta: “Como nós devemos medir quantidades de trabalho abstrato?”, e também não responde dizendo que “nós podemos medi-lo por sua duração”.

E isso porque nós não medimos trabalho abstrato. Outra coisa mede isso.

Esta propriedade da teoria de Marx – que dinheiro se refere ao tempo de trabalho em virtude de nossa atividade social coletiva e independentemente de nossos pensamentos sobre ela – é radicalmente diferente da economia política clássica de sua época e também da teoria econômica moderna.

A abstração não é nossa porque nossa cognição não está realizando a abstração. Não somos os “abstradores”[abstractor]. Em vez disso, o misterioso “abstrador” está medindo o tempo de trabalho e conectando a forma do valor, que é o dinheiro, ao seu conteúdo, que é o trabalho abstrato.

Portanto, como cientistas, nosso primeiro trabalho não é começar a medir o tempo de trabalho. Nosso primeiro trabalho é entender o que é o “abstrador” e como ele conecta sua abstração ao seu mundo. Precisamos de uma teoria desta entidade, e seus poderes, antes de embarcar na verificação empírica.

Quem ou o que são os “abstradores”?

Portanto, temos uma resposta parcial para o primeiro mistério econômico. A abstração do valor de troca, ou mais simplesmente o dinheiro, refere-se ao “trabalho abstrato”. Então, vamos voltar ao segundo mistério: quem está fazendo a abstração? Quem ou o que é o misterioso “abstrador”?

Na verdade, Marx já nos disse quem é. Às vezes, os mistérios se escondem à vista de todos. A grande pista é a escolha de Marx do título para sua magnum opus. O abstrador é o que Marx chama de “Capital”.

Mas o termo “capital”, especialmente agora, não evoca as imagens e associações certas. Em primeiro lugar, faz-nos pensar em grandes somas de dinheiro. Uma soma de capital. Mas Marx não está realmente falando sobre grandes somas de dinheiro. E, em segundo lugar, a teoria econômica moderna reduziu o termo “capital” a um termo contábil anódino que consegue misturar, de forma confusa, bens de capital com grandes somas de dinheiro.

Mas o capital, para Marx, é antes de mais nada uma prática social. O capital denota um conjunto de atividades que certas pessoas realizam regularmente, embutidas em um sistema de direitos de propriedade, contratos e poder coercitivo. O capital é um circuito, onde uma soma de capital inicial é “investida” na produção e, em seguida, tipicamente retorna com um incremento de lucro. O capital se amplia sempre que pode. Esse circuito é mediado não apenas pelo dinheiro, mas também pela própria produção econômica, incluindo o disciplinamento e a exploração dos trabalhadores.

A linguagem de Marx – do capital, das relações sociais de produção, circuitos de acumulação e assim por diante – não evoca, na minha opinião, totalmente o que está acontecendo. Então, em vez de dizer “capital”, também direi “o controlador”. Porque o capital é um sistema de controle, não apenas no sentido político, mas no sentido mais profundo e cientificamente importante de ser um sistema de controle de feedback negativo. O capital é literalmente um controlador. Portanto, se o capital é um controlador, como funciona e o que controla?

Capital é um sistema de controle por feedback negativo

Em um sistema totalmente capitalista, o lucro-renda deve ser reinvestido para gerar mais lucro. Esta é a principal diretriz para quem possui uma soma capital de dinheiro. Se esta diretiva não for seguida, o capital irá diminuir rapidamente e expirar.

Proprietários de capital – isto é, capitalistas – não podem colocar todos os ovos na mesma cesta. Isso é muito arriscado porque as empresas podem entrar em colapso e os ativos podem se depreciar. Assim, os capitalistas possuem uma carteira de investimentos com diferentes perfis de risco, como títulos do governo, ações de diferentes empresas e apostas mais especulativas em setores de alto crescimento.

Cada capital individual tenta maximizar o retorno sobre seu portfólio. Se falhar, diminuirá e, eventualmente, deixará de ser capital.

E é aqui que encontramos a estrutura habitual de um sistema de controle de feedback. O capital tem seu próprio estado objetivo, entradas sensoriais, tomada de decisão e capacidade de agir sobre o mundo no qual está inserido.

Vamos analisar cada um deles separadamente. (i) O objetivo de um capital individual é maximizar o retorno médio de cada dólar (ou libra) investido. (ii) Os “dados sensoriais” são as diferentes taxas de lucro obtidas em toda a carteira. (iii) O capitalista, ou os especialistas financeiros que eles empregam, comparam as diferentes taxas de lucro e (iv) o ciclo de feedback é fechado por ações que retiram capital de investimentos de baixo desempenho e injetam capital em investimentos de alto desempenho.

Essa ciclo de controle se manifesta como uma busca insaciável e incessante por altos retornos.

O ciclo de controle não se importa como seu capital é realmente usado na produção. Ele abstrai inteiramente todas as atividades concretas. A única coisa que pode sentir, comparar e usar é o valor abstrato.

Assim, os pontos altos da economia global consistem em um enorme conjunto de capitais individuais, cada um lutando energicamente pelo lucro, reagindo aos sinais de retornos diferenciais recebidos de seus tentáculos que se estendem a todas as atividades produtivas sob seu domínio, continuamente injetando e retirando capital para e de diferentes setores industriais e regiões geográficas. A totalidade dos recursos materiais do mundo, incluindo o tempo de trabalho de bilhões de pessoas, são repetidamente direcionados e reorganizados de atividades de baixo e alto lucro. No espaço de meses, setores industriais inteiros podem ser levantados, realocados ou derrubados.

O capital tende a se concentrar em poucas mãos. Em conseqüência, a escala e o poder de algumas capitais rivalizam com os Titãs de outrora.

Todos esses ciclos de controle autônomo têm o objetivo único de extrair lucro das atividades do mundo. Se uma atividade falha em atender a esse objetivo, o controlador retira seu capital e a atividade é interrompida.

Assim, no ápice da economia, temos uma coleção concorrente de controladores idênticos – com um nível atávico e baixo de inteligência – que injetam e retiram uma substância social que parece possuir o poder mágico de animação, de trazer as coisas vivas, de criação; mas também parece possuir o poder demoníaco de aniquilação, de asfixia, de levar as coisas a um fim, de destruição.

O controlador e o controlado

Portanto, o capital é um sistema de controle. A substância do dinheiro, com a qual ele trata, flui para dentro e através de todos os aspectos de nossas relações sociais, como o sangue dentre veias. Mas o que o controlador realmente controla?

Às vezes é óbvio o que um determinado sistema de controle controla, porque nós o projetamos. Por exemplo, sabemos que um termostato controla a temperatura ambiente e que um regulador controla a velocidade de uma máquina a vapor.

Mas a grande maioria dos sistemas de controle não é projetada por pessoas. A natureza está repleta deles, de mecanismos homeostáticos simples a cérebros de animais incrivelmente complexos. Esses sistemas evoluíram, sem um designer, e, portanto, devemos trabalhar mais para determinar o que eles controlam e o que suas representações internas podem, ou não, representar no ambiente em que atuam.

Vou pular os detalhes de uma teoria científica para determinar quais controladores de fato controlam. Não é uma história simples. Acho que a complexidade dessa história explica parcialmente por que o argumento de Marx de que o trabalho abstrato é a substância, ou o conteúdo, do valor, nos capítulos iniciais de O Capital – capítulos que ele notoriamente trabalhou e retrabalhou, que Engels brincou trazendo as marcas de Marx carbúnculos dolorosos – não é inteiramente satisfatório. Marx havia tropeçado em um problema difícil que não poderia ser totalmente resolvido com as ferramentas conceituais de sua época.

Então, vou pular o desvio metodológico e, em vez disso, pular para a conclusão e simplesmente declarar o que o capital, como um sistema de controle, de fato controla.

Já sabemos que os capitais, grandes e pequenos, estão intimamente ligados ao processo de produção. O empreendimento capitalista precisa pedir capital emprestado para comprar insumos e meios de produção e contratar trabalhadores. Os trabalhadores fornecem mão-de-obra concreta para produzir valores de uso específicos para venda no mercado.

Agora, o controlador julga todas as diferentes atividades concretas que ocorrem em seu portfólio da mesma maneira: quais atividades geram retornos acima da média e quais não? O controlador recompensa as empresas que obtêm lucros comparativamente altos com novas injeções de investimento; mas pune as empresas que obtêm lucros ou perdas comparativamente baixos, retirando seu capital. Essas recompensas e punições monetárias fluem através das empresas para o mercado de trabalho e recompensam o trabalho concreto com o pagamento de salários, ou punem com sua retirada e desemprego.

Nesse sentido muito real, o capital quer tipos específicos de atividades concretas e não quer outros tipos. Os tipos de atividades que ela deseja são aquelas que geram lucro acima da média. O capital, portanto, está nos controlando. Ele controla como gastamos nosso tempo.

Trabalho abstrato: um tipo de trabalho que o capital deseja

Então, que tipo de atividades o capital deseja? Simplificando um pouco, podemos identificar duas propriedades essenciais que o trabalho concreto deve possuir para produzir lucro.

Em primeiro lugar, o trabalho concreto deve ser útil aos outros, ou seja, produzir mercadorias que possam ser vendidas no mercado. Ninguém vai comprar um casaco com três braços.

Em segundo lugar, o trabalho concreto deve ter eficiência acima da média; em outras palavras, uma empresa obtém mais lucro se usar menos tempo de trabalho do que seus concorrentes que produzem a mesma mercadoria.

E é por isso que, logo após a introdução do conceito de trabalho abstrato, Marx imediatamente aponta que apenas o trabalho socialmente necessário e útil conta como trabalho abstrato.

O capital não quer que os trabalhadores percam tempo cheirando as rosas com sua família e amigos. Essa atividade não produz valores de uso vendáveis. O capital também não quer que os trabalhadores relaxem no trabalho ou fiquem doentes. Preguiça ou doença não são eficientes. O capital, se conseguisse ter completamente seu jeito sobre nós, nos faria gastar todo o nosso tempo trabalhando na empresa na mais alta intensidade possível, lutando continuamente para superar a concorrência de outros trabalhadores no mercado de trabalho. Esse é o tipo de comportamento que o capital deseja.

Assim, o capital controla o trabalho concreto, as atividades laborais reais da população trabalhadora em todas as suas diversas manifestações. E o capital controla o tempo de trabalho real, os tempos reais do relógio de pessoas reais fazendo coisas reais. É o próprio capital que segura um cronômetro metafórico em suas mãos, medindo e contabilizando, julgando e condenando; sempre à espreita do menor descuido ou insubordinação.

E o objetivo do capital é converter o trabalho concreto em trabalho abstrato, no tipo de trabalho que se encaixa na divisão do trabalho, para que possa ser trocado por outro trabalho, e no tipo de trabalho que se sacrifica totalmente ao capital, dá-se como tributo, a fim de gerar lucros para a empresa capitalista e, em última instância, para os capitais controladores e dominantes.

Em outras palavras, o “trabalho abstrato” é manifestado, trazido à realidade, pelo próprio capital. Maximizar o lucro é identicamente o processo de maximizar a manifestação do trabalho abstrato a partir do trabalho concreto.

É por isso que Marx diz que apenas o trabalho abstrato “cria valor”. O trabalho concreto pode ou não criar valor. Caso contrário, não é trabalho abstrato, e o capital como controlador rapidamente trabalha para erradicar sua existência, retirando capital das empresas que o empregam.

Uma cognição estranha que liga forma e conteúdo

Acho que ver o capital como um sistema de controle de feedback negativo é a melhor maneira de entender o que ele realmente é, e o papel fundamental que desempenha na formação de nossa sociedade e no tipo de vida que levamos. A linguagem dos sistemas de controle é, na verdade, apenas uma maneira mais precisa de falar sobre a relação dialética entre a forma do valor e seu conteúdo.

Portanto, o capital é um controlador que emprega uma forma de valor – dinheiro – para controlar o conteúdo do valor – que é nosso tempo de trabalho. A forma e o conteúdo estão ligados, semanticamente ligados em uma relação de representação ao referente, pelas regularidades legítimas instanciadas pela produção generalizada de mercadorias.

Os sistemas de controle instanciam versões atávicas dos elementos básicos da cognição. Eles de fato sentem, decidem e agem. Na verdade, eles têm representações internas que se referem ao mundo em que atuam. Em consequência, a teoria do valor de Marx é fundamentalmente uma teoria de uma cognição estranha que nos controla. Seus instintos estavam “no dinheiro” quando escreveu sobre a necromancia da produção de mercadorias porque apenas as tradições religiosas, mágicas e ocultas em nossa história têm conceitos adequados para expressar nossa situação.

Uma egrégora é uma entidade não física que existe em virtude das atividades rituais coletivas de um grupo, mas opera de forma autônoma, de acordo com sua própria lógica interna, para influenciar materialmente e controlar as atividades do grupo. O grupo cria a egrégora, e a egrégora cria o grupo, em um ciclo de feedback de auto-reforço.

Em cultos tradicionais, a egrégora normalmente assume a forma de um deus. No entanto, as atividades rituais dos cultos capitalistas iniciais eram tão bem-sucedidos materialmente que rapidamente se metastatizaram e, em alguns séculos, engolfaram o mundo. O que é universal passa a ser o pano de fundo não percebido. Portanto, a egrégora, em nossa sociedade, é difícil de se ver. Ela se esconde à vista de todos. Nós nos referimos a ele, é claro, mas indiretamente, usando nomes soporíficos, como “a economia” ou “capital”. Precisamos de um nome melhor para ele, que nos desperte de nosso sono.

O capital é uma egrégora. Não metaforicamente ou ironicamente, mas de fato. O capital é um ser, uma entidade autônoma, com pensamentos primitivos sobre nós. O dinheiro é como ele nos mede, e o dinheiro é como ele nos comanda. O capital é uma cognição estranha que atua no mundo para vincular a forma do valor ao seu conteúdo.

Nem materialismo ingênuo nem idealismo subjetivo

Portanto, sabemos agora o que é o “abstrador”. E agora que temos uma compreensão mais clara da estrutura central da teoria do valor de Marx, torna-se muito mais fácil detectar interpretações errôneas dela.

Existem interpretações errôneas que enfatizam o conteúdo em detrimento da forma. A teoria de Marx não é nada parecida com o materialismo ingênuo que encontramos na economia política clássica, ou com as interpretações Sraffianas modernas de Marx, que postulam causalidade unilateral do tempo de trabalho para os preços monetários. Em vez disso, devemos pensar em ciclos de feedback, sobre causalidade bidirecional, do conteúdo à forma e da forma de volta ao conteúdo.

Mas existem outras interpretações erradas que enfatizam a forma em detrimento do conteúdo.

Claramente, a teoria de Marx é uma teoria objetiva do valor. Apesar das pretensões das teorias subjetivas da utilidade do valor, não podemos coletivamente desejar que os aviões sejam mais baratos do que as canetas. Não somos o controlador dominante, somos os controlados. O consumidor individual não é rei.

Mas variantes mais sofisticadas de subjetivismo também interpretam mal a teoria de Marx. Alguns marxistas pensam que o capital sonha com o trabalho abstrato, que o trabalho abstrato é uma invenção do sistema capitalista, que na verdade não se refere a algo que existe independentemente na realidade objetiva. Este é um tipo de construtivismo social, onde a teoria de Marx é reduzida a uma paródia pós-modernista de formas fantasmagóricas e ideais.

Nessas más interpretações, a forma não tem conteúdo. E assim, dinheiro não se refere a qualquer propriedade que exista independentemente dele. O forma cria um conteúdo ilusório. Nessa visão, o trabalho abstrato pode de fato ter efeitos reais, da mesma forma que a crença em um Papai Noel pode fazer as pessoas oferecerem biscoitos e leite, mas não o faz realmente existir. Esta parece ser uma posição sofisticada, mas no final das contas se reduz ao niilismo de valor, onde existem apenas preços e não há nada escondido por trás deles.

Mas a teoria de Marx é essencialmente sobre o controle do tempo de trabalho concreto, as reais condições objetivas de trabalho de milhões de pessoas. Qualquer interpretação de Marx que afirma que o trabalho abstrato não pode ser medido independentemente dos mercados e preços, ou que não pode fornecer uma definição do conteúdo do valor sem contar com coeficientes mágicos que dependem dos preços – deu errado. (Talvez não seja muito surpreendente, tanto as interpretações ingênuas quanto às sofisticadas de Marx são abundantes na academia burguesa).

Claro, como qualquer entidade, os pensamentos do capital podem não refletir perfeitamente, ou representar, a realidade em que está embutido. No entanto, se um sistema de controle os controla com sucesso, então suas representações internas terão uma correspondência verdadeira com a realidade. E o capital é um controlador de muito sucesso.

E, em última análise, é por isso que podemos verificar a teoria de Marx: o trabalho já é disciplinado para ser eficiente e útil. E assim a maior parte do trabalho concreto já é trabalho abstrato. Em conseqüência, se escolhermos um grupo de 50 trabalhadores aleatoriamente, eles irão se aproximar do poder de produção de valor de 50 unidades de trabalho abstrato. Pegue agregados maiores e a aproximação só melhora. Sacar o nosso cronômetro não funcionará no nível de um trabalhador individual porque não há garantia de que seu trabalho concreto acabará contando como trabalho abstrato. Mas nosso cronômetro medirá o trabalho abstrato se coletarmos amostras suficientes. Como Marx afirmou, o trabalho abstrato tem o caráter de média da força-de-trabalho na sociedade. Portanto, o sucesso do controle do capitalismo significa que podemos medir quantidades de trabalho abstrato antes que o trabalho seja igualado e homogeneizado no mercado.

Uma analogia pode ajudar aqui. Um etologista, estudando o comportamento de um animal na selva, não consegue realmente entrar na cabeça do animal e ver o mundo através de seus olhos. O etologista nunca pode saber totalmente o que é ser um morcego. Mesmo assim, os etologistas desenvolveram teorias detalhadas sobre a ecolocalização e como a cognição de um morcego representa seu ambiente. De forma semelhante, estamos estudando o comportamento de uma entidade autônoma, chamada capital, com sua cognição estranha. O trabalho abstrato é o seu conceito, não o nosso. Mas podemos formar um conceito de trabalho abstrato que corresponda ao seu conceito de trabalho abstrato. Afinal, nós, os controlados, e ele, o controlador, vivemos todos no mesmo mundo. E podemos falar sobre e representar uma propriedade objetiva dele.

E o que é essa propriedade objetiva? Podemos agora refinar nossa definição inicial aproximada de trabalho abstrato. Não é apenas trabalho médio, ou as forças causais comuns do trabalho humano. É algo mais específico, algo mais determinado e contingente historicamente.

Trabalho abstrato é uma coleção de poderes causais possuídos pelo trabalho humano que podem se manifestar como uma habilidade de produzir uma variedade infinita de coisas úteis para os outros, para obter lucros trabalhando mais ou mais, para melhorar as técnicas de produção para que mais possa ser produzido com menos e para competir com os outros em uma luta incessante pelo lucro. Se nós, trabalhadores, não tivéssemos esses poderes causais, o capital não conseguiria nos moldar nas unidades homogêneas e criadoras de valor que ele deseja. (E, como um aparte, é precisamente porque as máquinas, os animais e outros fatores de produção não humanos carecem desses poderes causais, carecem de nossa centelha divina, que seu “trabalho” não pode, e não tem como ser considerado trabalho abstrato.)

Filhos do demiurgo

OK, vamos encerrar e tentar resumir.

Perguntamos, no início, o que o dinheiro representa, e a resposta é trabalho abstrato, que é trabalho que cria lucro para o capital. E perguntamos quem faz a abstração? E a resposta é o capital que faz isso, quando entendemos capital como um controlador autônomo que sobrevém às nossas práticas sociais, mas não é redutível a elas.

A forma de valor, a abstração titânica que controla nossas vidas é, em certo sentido, a linguagem primitiva do controlador. Ele vê e julga nossas atividades em termos de valor abstrato, comparando as taxas de lucro diferenciadas em seu portfólio. Mas também comanda nossas atividades por meio de valor abstrato, injetando e retirando seu ser substancial, que é o dinheiro. O capital nos comanda. Nosso trabalho real, vivo e concreto é o objeto de seu controle: ele trabalha para moldar, emoldurar e disciplinar a força de trabalho total da sociedade na forma específica de trabalho abstrato, que é o trabalho que se entrega, total e completamente, como homenagem ao capital.

Portanto, a forma de valor participa tanto da medição do tempo de trabalho quanto do controle do tempo de trabalho. Não devemos nos surpreender que a forma de valor também tenha semântica imperativa. A troca de mercadorias generalizada não tem planejador ou plano consciente e, portanto, o comando e o controle necessários para organizar a divisão do trabalho são alcançados por meio da alocação de capital, da transmissão de dinheiro e da estrutura de preços.

O capital comanda o tempo de trabalho concreto para se manifestar como tempo de trabalho abstrato e, portanto, traz à existência o que já está latente dentro de nós. Mas o capital intensifica e aperfeiçoa apenas uma parte de nós. Somos mais do que meras criaturas capazes de manifestar trabalho abstrato. Temos o poder de fazer muito mais do que apenas produzir coisas úteis trabalhando intensamente por longas horas. Claro, apesar do governo do capital, cavamos bolsões de resistência, onde podemos ser mais plenamente nós mesmos. Mas o capital não quer que brinquemos, aprendamos, exploremos, cuidemos ou doemos livremente. O capital quer que produzamos indefinidamente. E, portanto, nós, sob o domínio do capital, somos reduzidos a sombras, meras abstrações estreitas do que poderíamos ser.

Permitam-me terminar com uma analogia muito direta. As vacas podem fazer muitas coisas. Mas tudo o que nos preocupamos é que eles produzam o máximo de leite e carne possível. E então nós as criamos, as injetamos, as guiamos e as controlamos para fazer apenas isso. Às vezes, seus úberes ficam tão distendidos pela produção excessiva que rasgam, se partem e vazam.

Somos gado para o capital. Nós também ficamos distorcidos e desfigurados por seu governo. Ele nos marca como trabalho abstrato. Mas também somos indivíduos concretos. A forma não esgota o conteúdo. E essa não identidade aparentemente inócua entre forma e conteúdo é a razão fundamental pela qual, um dia, escaparemos do domínio do capital.

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