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in memoriam

Piero Simondo

25 de agosto de 1928 – 6 de novembro de 2020

Por toda parte, a modernização parece instaurar novas formas de controle social. A programação e vigilância algorítmica dos corpos, catástrofes calculadas e rentabilizadas, simulações de um futuro já capitalizado. O imprevisível na vida cotidiana já foi previsto. O que resta do acaso nas atuais condições de existência? Quais são suas virtualidades e os seus limites?

O texto a seguir foi escrito por Guy Debord em 23 de maio de 1957, destinado a uma monografia organizada pelo pintor Piero Simondo que acabou não sendo publicada. Não por acaso, foi na casa de Piero na vila italiana de Corsio di Arroscia que, no verão daquele ano, nasceu a Internacional Situacionista. O texto se manteve inédito até o ano de 2006 com a publicação das obras completas de Guy Debord (Œuvres; Gallimard). Esta é a primeira vez que tentamos sua tradução para português.

IK

“Por sua vez, [Asger Jorn] achou ótimo meu texto destinado à tua monografia. Isso se explica. Ele já não quer mais te agradar, o que ele espera mesmo é que você fique descontente comigo (já que neste texto eu falo do jogo, mas não da tua pintura)” Carta de Guy Debord a Piero Simondo, 18 de junho de 1957

SOBRE O ACASO

1. Não podemos reduzir o acaso. O que se pode é conhecer, nas condições existentes, todas as possibilidades limitadas do acaso (estatísticas).

2. Nas condições conhecidas, o papel do acaso é conservador. Assim, os jogos de azar não dão lugar à nenhuma novidade. Do mesmo modo, as cartomantes lidam apenas com um pequeno número de acasos que podem se manifestar na vida pessoal. Muitas vezes elas “preveem” os acontecimentos, na medida em que a vida média de um indivíduo é tão pobre quanto as variações clássicas de suas previsões.

3. Todo progresso, toda criação é organização de novas condições do acaso.

4. Neste nível superior, o acaso é realmente imprevisível – divertido – por um certo tempo: mas o novo campo do acaso fixa à sua ação outros limites, que virão a ser estudados e precisamente conhecidos.

5. O homem nunca deseja o acaso enquanto tal. Ele deseja outra coisa; e espera do acaso encontro com aquilo que deseja. É uma situação passiva e reacionária (a mistificação surrealista) se não for corrigida por uma invenção de condições concretas que determinem o movimento dos acasos desejados.

Tradução de Artur B.

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