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TÁBULA RASA

passagem de Raoul Vaneigem, O Livro dos Prazeres, 1979

“Ante a aurora para onde aponta a vida, estende-se a longa noite da mercadoria, única e derrisória luz de uma história inumana. Será que já não basta de termos, ao longo destes séculos, inclinado as paixões ao olhar oblíquo da morte, engrenado inversamente os desejos  do vivente e fundado a maior parte da existência nessa busca sangrenta pelo lucro e o poder? Será que já não basta também de colocar as tarefas de sangue intelectual no fronte das vossas revoluções? Também a violência vai mudar de base.

Sendo a sobrevivência hoje soldada no desastre do mercado de trocas, é a produção de miséria cotidiana — indústria totalitária — que por sua vez sucumbe àquilo que vocês chamam de crise, que não é outra coisa senão o colapso de vossa civilização mortífera.

A sociedade mercantil nada fez de humano, se este não for apenas o recipiente paródico que serviu para propagá-la por toda parte. O esfacelamento que o valor de troca impõe aos viventes não tolerou senão fragmentos humanos, embriões pacientemente dissecados nos tubos de ensaio social da rentabilidade, seres condenados a nunca pertencerem a nada pois pertencem antes de mais nada à um poder despojado do manto divino, então desnudado de seu couro ideológico até finalmente revelar o mecanismo esquelético de sua abstração: a Economia. Desde que tudo foi jogado sobre ela, o destino então jogaria contra nós.”

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