Publicado em: http://www.sinaldemenos.org Ano 10, n°13, 2019. Texto publicado originalmente em: revista Marxistische Kritik, n. 1, 1986 com o título Die Kategorie der abstrakten Arbeit und ihre historische Entfaltung. Tradução: Marcos Barreira

Observações metodológicas preliminares


“Parece ser correto começarmos pelo real e pelo concreto, pelo pressuposto efetivo, e, portanto, no caso da economia, por exemplo, começarmos pela população, que é o fundamento e o sujeito do ato social de produção como um todo. Considerado de maneira mais rigorosa, entretanto, isso se mostra falso. A população é uma abstração quando deixo de fora, por exemplo, as classes das quais é constituída. Essas classes, por sua vez, são uma palavra vazia se desconheço os elementos nos quais se baseiam. P. ex., trabalho assalariado, capital etc. Estes supõem troca, divisão do trabalho, preço etc. O capital, p. ex., não é nada sem o trabalho assalariado, sem o valor, sem o dinheiro, sem o preço etc. Por isso, se eu começasse pela população, esta seria uma representação caótica do todo e, por meio de uma determinação mais precisa, chegaria analiticamente a conceitos cada vez mais simples; do concreto representado [chegaria] a conceitos abstratos [Abstrakta] cada vez mais finos, até que tivesse chegado às determinações mais simples. Daí teria de dar início à viagem de retorno até que finalmente chegasse de novo à população, mas desta vez não como a representação caótica de um todo, mas como uma rica totalidade de muitas determinações e relações. A primeira via foi a que tomou historicamente a Economia em sua gênese. Os economistas do século XVII, p. ex., começam sempre com o todo vivente, a população, a nação, o Estado, muitos Estados etc.; mas sempre terminam com algumas relações determinantes, abstratas e gerais, tais como divisão do trabalho, dinheiro, valor etc., que descobrem por meio da análise. Tão logo esses momentos singulares foram mais ou menos fixados e abstraídos, começaram os sistemas econômicos, que se elevaram do simples, como trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca, até o Estado, a troca entre as nações e o mercado mundial. O último é manifestamente o método cientificamente correto. O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações, portanto, unidade da diversidade” (Grundrisse, p.21).

No que se segue, aderimos estritamente a este “método cientificamente correto”. Portanto, não começamos a partir do turbilhão da superfície social, nem das incontáveis investigações empíricas e históricas, em parte meritórias, mas sobretudo da lógica conceitual do capital como tal, da maneira como fora desenvolvida na obra de Marx. Quando Marx desenvolve a lógica do capital a partir de determinadas relações gerais, abstratas, até os fenômenos superficiais do mercado mundial, o crédito, etc., a análise do componente variável do capital teve de partir das relações gerais, abstratas, que determinam tal componente. A categoria mais importante para o trabalho vivo, além de sua divisão, é a categoria trabalho humano abstrato. Ela é apresentada por Marx em O Capital, Livro I, capitulo 1, como base de toda a produção de mercadorias.

Sempre que buscamos de uma maneira “ortodoxa”, partindo de uma categoria real marxiana abstrata até às novas reestruturações da classe operária, como essa categoria se desenvolve na história, tal abordagem inicialmente irrita a maioria dos leitores. Por mais evidente que nosso método devesse ser para os marxistas, tornou-se, no entanto, incomum. O positivismo e o empirismo raso minaram completamente as ideias da teoria na esquerda, e também o marxismo foi dissolvido, entre outros, numa coleção de teoremas políticos, sociológicos, econômicos. Seus teóricos costumam usá-lo como uma prateleira de supermercado, separando um ou dois pedaços da obra de Marx e ajustando-os em suas construções enviesadas. Perde-se irremediavelmente a conexão entre a obra de Marx e seu método dialético. Este parece ser uma mera exterioridade, um discurso antiquado do qual é preciso se abster para chegar ao conteúdo positivo da teoria de Marx. Ainda que a dialética, a ascensão do abstrato para o concreto, o desdobramento da lógica conceitual, seja a essência da obra de Marx, muitos dos seus discípulos consideram-na como um capricho individual, uma relíquia da sua pré-história filosófica. Os teóricos da esquerda, com impulso irreprimível para a prática política, ficaram muito aquém da posição da Escola de Frankfurt na querela positivista, entregando-se incondicionalmente ao domínio dos fatos empíricos e estabelecendo-se como retaguarda de esquerda do positivismo. Uma vez que estão familiarizados com a ciência apenas em sua caricatura positivista, eles também reduzem o marxismo a uma ciência positiva. Como tal, é claro, ele já não pode compreender a totalidade do processo social e, como qualquer outra ciência positivista, depende da adição de outras ciências particulares. Assim, tornou-se costumeiro um certo entusiasmo com a crise do marxismo – crise que não é outra coisa senão a crise da redução prévia da recepção de Marx e sua adulteração – o que autoriza a sua diluição com adições do empreendimento científico burguês para, em seguida, submetê-lo ao ataque dessa teoria substituta assim obtida como “suplemento ao marxismo” ou como seu mais elevado “aprimoramento”. Embora as várias tentativas sejam geralmente de curta duração e geralmente se condenem rapidamente por sua própria deficiência, à parte o fato de que isso agora é incorporado como virtude de imobilidade e modéstia na estratégia de marketing, o princípio subjacente revela-se extremamente resistente e generalizado.

Há muito tempo se esquece que o caráter básico dos textos de Marx, inclusive nos seus títulos, é o de serem críticas. Nas mãos dos teóricos da esquerda, a obra principal de Marx, O Capital, se transforma de uma “Crítica da economia política” em um livro de economia, perdendo, é claro, a capacidade de presumir o contexto social global. Se o objetivo é capturar a conexão entre a obra de Marx e sua força crítica explosiva, devemos antes de tudo levar a sério seu método dialético, que dá origem a ambos. Poucos teóricos marxistas o fizeram para identificar o alcance das categorias reais de Marx e sua dinâmica.

A maioria considera essas categorias como cascas vazias ao lado ou anteriores à análise real, com as quais fazem malabarismos e tentam, na medida em que se compreendem explicitamente como marxistas, expressar nelas os resultados de pesquisa; mas nisso se esgotam suas ações. Ao se limitarem a atestar o caráter ainda capitalista da sociedade de hoje, enfatizam a continuidade, a contradição social básica sempre idêntica, em vez de conceituar o capitalismo atual como uma forma mais desenvolvida dos antagonismos capitalistas e, portanto, também as categorias reais subjacentes como algo novo, como uma ruptura com o próprio passado. A dinâmica de desenvolvimento lógico das categorias de modo algum flui na análise. Elas são manejadas de forma estática, como leis imutáveis da relação de capital, fixadas desde o início e de uma vez por todas. Marx, por outro lado, estava sempre e essencialmente preocupado com a conexão entre o desenvolvimento lógico-conceitual e histórico do capital. As categorias por ele elaboradas definem o capital em seu desenvolvimento processual.

Exemplar aqui é o tratamento da categoria trabalho humano abstrato. Marx já o introduziu no primeiro capítulo de O Capital, mas apenas para que ele caísse no esquecimento, entendido erroneamente pelos epígonos como um mero pressuposto, permanecendo ali até mofar. Na realidade, não é simplesmente um pré-requisito para o capital, mas sim, pelo menos em suas formas mais desenvolvidas, um produto bastante tardio. Desdobra-se apenas com o desenvolvimento da própria relação de capital e, como uma tendência para colocar o trabalho vivo em uma abstração crescente, permeia a história do capital variável como seu conteúdo real. Marx aborda esse tema nos Grundrisse: “A indiferença em relação ao trabalho determinado corresponde a uma forma de sociedade em que os indivíduos passam com facilidade de um trabalho a outro, e em que o tipo determinado do trabalho é para eles contingente e, por conseguinte, indiferente. Nesse caso, o trabalho deveio, não somente enquanto categoria, mas na efetividade, meio para a criação da riqueza em geral e, como determinação, deixou de estar ligado aos indivíduos em uma particularidade. Tal estado de coisas encontra-se no mais alto grau de desenvolvimento na mais moderna forma de existência da sociedade burguesa – os Estados Unidos. Logo, só nos Estados Unidos a abstração da categoria “trabalho”, “trabalho em geral”, trabalho “puro e simples”, o ponto de partida da Economia moderna, devém verdadeira na prática. Por conseguinte, a abstração mais simples, que a Economia moderna coloca no primeiro plano e que exprime uma relação muito antiga e válida para todas as formas de sociedade, tal abstração só aparece verdadeira na prática como categoria da sociedade mais moderna” (Grundrisse, p.25).

É claro que, quando Marx reconhece uma história para o trabalho humano abstrato, reconhecendo-a como materialmente prática, ela não termina nos Estados Unidos de meados do século passado. Inerente à relação do capital, essa tendência à abstração do trabalho não encontrou sua forma material final naquela época, mas, com o tempo, se tornou ainda mais “praticamente verdadeira” no desenvolvimento ulterior do capital.

O desenvolvimento da relação de capital e a tendência para tornar o trabalho cada vez mais abstrato coincidem: “… essa relação econômica – o caráter que o capitalista e o trabalhador portam como os extremos de uma relação de produção – é desenvolvida tanto mais pura e adequadamente quanto mais o trabalho perde todo caráter de arte; a sua perícia particular devém cada vez mais algo abstrato, indiferente, e devém mais e mais atividade puramente abstrata, puramente mecânica, por conseguinte, indiferente à sua forma particular; atividade simplesmente formal ou, o que dá na mesma, simplesmente física, atividade pura e simples, indiferente à forma” (Grundrisse, p.204).

A tendência de tornar o trabalho cada vez mais abstrato, esvaziado, expressa, em relação ao trabalho vivo, como o capital se defronta com as forças produtivas existentes, eliminando vestígios pré-capitalistas e criando materialmente uma base adequada, uma base à sua própria imagem.

O fazer-se abstrato do trabalho, a alienação, o esvaziamento, não é uma possibilidade entre muitas, mas segue como uma tendência principal imediata da lógica do capital. Todas as fantasias do trabalho autodeterminado, “atividade menos alienada” no interior do domínio capitalista, podem ser apenas fantasias. A corrente principal do desenvolvimento histórico corre exatamente na direção oposta, sempre que existe a relação de capital, contrariando Kern e Schumann.[2] O capital só excepcionalmente abre nichos, e apenas para fechá-los o mais rápido possível. Em qualquer caso, isto se aplica aos produtores diretos criadores de mais-valia, mas não só a eles.

O ponto de partida histórico

Certo grau de abstração do trabalho é, em si mesmo, uma condição prévia para o surgimento do modo de produção capitalista. Assim sendo, a indústria manufatureira não se aproveita primeiro das corporações altamente desenvolvidas e altamente especializadas com suas obras igualmente especializadas e separadas, “mas da indústria rural acessória, fiar e tecer, o trabalho que requer menos habilidade especializada ou formação artística (…) A indústria rural acessória contém a base ampla da manufatura, ao passo que a pequena indústria urbana exige um grande avanço da produção para poder ser explorada em escala fabril” (Grundrisse, p. 410). Esse progresso da produção permite então desmantelar o trabalho em tais áreas de produção tradicionais associativas, esvaziá-lo para o produtor imediato e torná-lo abstrato. Historicamente, no entanto, o capital produtivo só pode começar em indústrias nas quais o trabalho vivo consumido tem um caráter geral per se, no trabalho tradicionalmente feito no campo por quase todos, enquanto as guildas urbanas especializadas bloqueavam por muito tempo a sua capitalização. Não é por acaso que o capital que começa a se misturar à produção tem de começar no campo, onde é feito o trabalho geral da produção pré-capitalista.

Subsunção formal do trabalho sob o capital

 Com a separação do produtor imediato de seus meios de produção, isto é, a criação do assalariado livre, já existe uma estranheza formal e uma externalidade do trabalhador diante tanto do processo quanto do produto do trabalho. O valor de uso da força de trabalho no processo de produção já recai no capital, que entra na esfera da circulação e avança no processo de produção, ainda que os trabalhadores se preocupem apenas com o valor de troca da sua força de trabalho. “Por outro lado, o próprio trabalhador é absolutamente indiferente à determinabilidade de seu trabalho; o trabalho enquanto tal não tem interesse para ele, mas tão somente na medida em que é trabalho em geral e, enquanto tal, valor de uso para o capital” (Grundrisse, p.204). No mesmo contexto, escreve Marx: “O material que ela trabalha [a capacidade de trabalho, EL] é material estranho; da mesma maneira, o instrumento é instrumento estranho; seu trabalho aparece somente como acessório das condições objetivas, que aparecem como a substância, e, por isso, objetiva-se em algo que não lhe pertence. Na verdade, o próprio trabalho vivo aparece como estranho perante a capacidade de trabalho, da qual ele é trabalho, da qual ele é a manifestação vital peculiar, porque o trabalho vivo é cedido ao capital em troca de trabalho objetivado, em troca do produto do próprio trabalho. A capacidade de trabalho comporta-se, em relação ao trabalho vivo, como algo estranho, e se o capital quisesse pagar a ela sem a fazer trabalhar, aceitaria o negócio com prazer. Por conseguinte, o seu próprio trabalho lhe é tão estranho – e o é também no que diz respeito à sua orientação etc. – quanto o material e o instrumento” (Grundrisse, p.366). Esse estranhamento, no entanto, afeta nessa etapa apenas o lado da propriedade, não o processo de produção em si mesmo. O capital historicamente começa submetendo o processo de produção ao seu comando tal como o encontra. Assim, lemos em Marx: “A fortuna em dinheiro não inventou nem produziu a roda de fiar e o tear. Mas, separados de sua terra, os fiandeiros e tecelões caíram com seus teares e rodas de fiar sob o domínio da fortuna em dinheiro etc. Próprio do capital é unicamente a união das massas de mãos e instrumentos que ele encontra. Ele os aglomera sob seu comando” (Grundrisse p. 407).

Enquanto o capital assume apenas as forças produtivas já dadas, principalmente incorporadas nos meios de trabalho, seu domínio sobre o processo de produção permanece formal. A extrassão de mais-valia funciona nessa fase unicamente pela extensão implacável do dia útil, portanto, impondo a mais-valia absoluta. O alargamento da jornada é forçado até o limite físico dos produtores, embora a estrutura do próprio trabalho permaneça nas mãos dos produtores imediatos. Com a criação do assalariado livre, se dá a possibilidade de o trabalho vivo se tornar abstrato, na medida em que o valor de uso da força de trabalho do trabalhador não lhe diz respeito e pode ser usado para tudo de acordo com a vontade do capital. No entanto, o capital deve primeiro criar materialmente a possibilidade de que se possa usar o trabalho de maneira diferente da tradicional. Até então, permanece no processo de produção o intercâmbio orgânico tradicional de produtores imediatos e meios de produção.

Subsunção real do trabalho sob o capital

O primeiro passo nessa direção é o desmembramento do trabalho na manufatura, mas é somente com a introdução da maquinaria que o capital realmente consegue garantir a possibilidade de tornar o trabalho abstrato. Só isso lhe permite submeter realmente o processo de produção de uma maneira específica. Se a transição para o modo especificamente capitalista da produção de mais-valia, a produção de mais-valia relativa, começa com a combinação dos operários na manufatura, o desenvolvimento na indústria aprofunda e consolida esse passo decisivo. O desenvolvimento do meio de trabalho em maquinaria não é casual para o capital; é a reconfiguração do meio de trabalho tradicionalmente herdado na forma adequada ao capital (Grundrisse, p. 586). “A maquinaria aparece, portanto, como a forma mais adequada do capital fixo, e o capital fixo, na medida em que o capital é considerado na relação consigo mesmo, como a forma mais adequada do capital de modo geral” (Grundrisse, p. 586). Somente a maquinaria torna o trabalho materialmente abstrato, porque “com a ferramenta de trabalho, o virtuosismo em sua condução também passa do trabalhador à máquina” (Das Kapital, I, MEW volume 23, p. 442).

Acumulação de forças produtivas sociais como esvaziamento do trabalho imediato

“O saber aparece na maquinaria como algo estranho, externo ao operário; e o trabalho vivo é subsumido ao trabalho objetivado que atua autonomamente” (Grundrisse, p. 586). “A acumulação do saber e da habilidade, das forças produtivas gerais do cérebro social, é desse modo absorvida no capital em oposição ao trabalho, e aparece consequentemente como qualidade do capital, mais precisamente do capital fixo, na medida em que ele ingressa como meio de produção propriamente dito no processo de produção” (Grundrisse, p. 586). Na mesma medida em que a aplicação do conhecimento social se converte em uma força produtiva, e o processo de produção é cada vez mais socializado materialmente pelo capital, o trabalho vivo se torna progressivamente mais miserável. “Se o trabalho individual enquanto tal deixa de todo de aparecer como produtivo, mas, ao contrário, só é produtivo nos trabalhos em comum que submetem a si as forças da natureza, e se essa elevação do trabalho imediato à condição de trabalho social aparece como redução do trabalho individual à impotência diante da comunidade concentrada representada no capital” (Grundrisse, p.588), uma maior socialização, o desenvolvimento final da ciência como força produtiva, não pode transformar essa tendência no interior do quadro capitalista. Isso é cada vez mais fundamental: “A atividade do operário, limitada a uma mera abstração da atividade, é determinada e regulada em todos os aspectos pelo movimento da maquinaria, e não o inverso. A ciência, que força os membros inanimados da maquinaria a agirem adequadamente como autômatos por sua construção, não existe na consciência do operário, mas atua sobre ele por meio da máquina como poder estranho, como poder da própria máquina. Na produção baseada na maquinaria, a apropriação do trabalho vivo pelo trabalho objetivado – da força ou atividade valorizadora pelo valor existente por si, inerente ao conceito do capital – é posta como caráter do próprio processo de produção, inclusive de acordo com os seus elementos materiais e seu movimento material. O processo de produção deixou de ser processo de trabalho no sentido de processo dominado pelo trabalho como unidade que o governa. Ao contrário, o trabalho aparece unicamente como órgão consciente, disperso em muitos pontos do sistema mecânico em forma de operários vivos individuais, subsumido ao processo total da própria maquinaria, ele próprio só um membro do sistema, cuja unidade não existe nos trabalhadores vivos, mas na maquinaria viva (ativa), que, diante da atividade isolada, insignificante do operário, aparece como organismo poderoso. Na maquinaria, o trabalho objetivado se contrapõe ao trabalho vivo no próprio processo do trabalho como o poder que o governa, poder que, de acordo com sua forma, o capital é como apropriação do trabalho vivo. A assimilação do processo do trabalho como simples momento do processo de valorização do capital também é posta quanto ao aspecto material pela transformação do meio de trabalho em maquinaria e do trabalho vivo em mero acessório vivo dessa maquinaria, como meio de sua ação” (Grundrisse, p.584-585). Nesta forma desenvolvida, no entanto, é só muito tarde que o trabalho abstrato penetra em toda a produção social. A cientifização da produção finalmente se firma só após a Segunda Guerra Mundial.

Tendências opostas na história da relação capital

Na história, esta tendência ao trabalho abstrato é rompida. Em parte, o capital, com base tecnológica modificada, novamente restaura a integração da força de trabalho com sua capacidade de trabalho específica. Especialmente na Alemanha, antes da Primeira Guerra Mundial, o capital criou extensas formações de operários qualificados, que se caracterizavam por uma posição relativamente independente e, portanto, uma posição forte no processo de produção que os identificava em grande medida com seu trabalho e permitia que se definissem por meio da sua particularidade. Havia o monopólio do conhecimento real da produção e, portanto, o capital só podia controlar de maneira limitada a materialidade do processo produtivo. Eles estavam longe de se colocar miseravelmente nus diante do processo de produção. Politicamente, isso teve consequências imensas. Foram precisamente essas formações de operário qualificados artesanais que formaram a coluna vertebral da força da luta proletária e moldaram profundamente o movimento operário clássico. O orgulho do trabalho e a posição de força no processo de produção determinaram tanto as expressões políticas e os objetivos, quanto as formas de organização. Não é de admirar, então, que a ideia popular do socialismo naquela época se limitasse à remover sem reparação os “parasitas capitalistas”, enquanto a crítica do valor e do fetiche do salário não desempenhava nenhum papel significativo, como tampouco se pensou em uma transformação da própria produção. Isso não foi diferente nem mesmo onde tais camadas se tornaram radicais. Por exemplo, a sua “… posição… estava materialmente mais predisposta a assumir um programa político-organizacional como o dos conselhos operários, ou seja, a autogestão da produção. A recepção que essa ideia de autogestão operária encontrou no movimento conselhista alemão… não teria sido tão difundida sem a existência de uma força de trabalho que estava inextricavelmente ligada à tecnologia do processo e que – profundamente determinada por valores profissionais e corporativos – foi naturalmente levada a cabo para destacar o seu próprio papel como produtora”.[3] Por toda parte, o movimento operário tradicional proclamou o orgulho do produtor imediato, “aquele que cria todos os valores”, e a proletarização não foi vista como uma desgraça especial a ser abolida, mas como uma honra sem o devido reconhecimento social. Isso se aplica tanto à linha socialdemocrata-marxista no movimento operário quanto ao sindicalismo. Somente em tal cenário é que se torna compreensível a limitação dos sindicalistas italianos à empresa individual no período de crise até a tomada do poder por Mussolini, com a renúncia deliberada à ação política fora do espaço da empresa. A forte posição das formações operárias qualificadas no processo de produção predispôs tanto a força de combate quanto a limitação do movimento operário clássico.

Composição de classe e história do movimento operário

A história do movimento operário na época da II Internacional e após o seu declínio só pode ser entendida no contexto desta composição particular da classe. Em geral, a história da constituição da classe é a base material real da história do movimento operário. A classe operária vem à luz como capital variável e isso permanece fundamental. A história do movimento operário é, em primeiro lugar, a história da classe e seus segmentos no e para o processo de produção capitalista. No entanto, essa base ficou, aliás, em grande parte, debaixo de uma história puramente partidário-organizacional. Eis uma razão importante para a recepção da história do movimento operário pela Nova Esquerda ter permanecido, em geral, tão insatisfatória. Abandonada sua base material, essa recepção esgotou-se em um debate organizacional ainda idealista e na repetição minuciosamente maçante das lutas ideológicas da Segunda e Terceira Internacionais, enquanto seu conteúdo material era amplamente ignorado. As abordagens disponíveis no início do século, p.ex., a tese de Lênin sobre a aristocracia operária, não foram desenvolvidas.

Taylorismo como etapa do desenvolvimento capitalista

Mesmo que o movimento operário clássico fosse determinado precisamente por uma tendência contrária à imediata redução abstrata do trabalho vivo, para além desse momento retardador, a principal tendência na história do capital continua sendo a perda de poder do produtor imediato, sua subsunção direta no processo mecânico. Com a difusão do taylorismo, essa tendência também alcançou os tipos tradicionais de operários qualificados e começou a destruir sua antiga base. A essência do taylorismo é a expropriação dos operários qualificados tradicionais a partir do conhecimento da produção via ciência do trabalho. A ciência do trabalho é apenas um sinônimo de transferência e monopolização do conhecimento de produção que cresceu junto com o produtor imediato. O antigo operário qualificado despojado de seu conhecimento produtivo, que, como uma quasi propriedade, assegurou sua posição relativamente privilegiada diante do capital, no futuro, o enfrentará como algo estranho, coagulado em máquinas e organização do trabalho. As diferentes etapas de trabalho que o antigo operário qualificado combinou em sua profissão são divididas em ações individuais e, como tais, atribuídas pelo comando capitalista a diferentes operários. A linha de montagem como símbolo da nova divisão do trabalho torna possível, entre outras coisas, esse desmembramento do processo de trabalho. Somente através dele, o capital controla materialmente o processo de produção. As etapas concretas de produção permanecem, até esse momento, as mesmas, pois a ciência do trabalho orienta-se tecnicamente para os processos de trabalho tradicionais, simplesmente tentando torná-los mais eficazes, embora o conhecimento sobre eles, antes distribuído entre os vários trabalhadores qualificados, agora esteja centralizado pela capital. Embora o trabalho vivo como um todo continua sendo um agente do processo de produção, o trabalho individual é reduzido à “impotência” diante da “coletividade concentrada no capital”.

Na Alemanha, mas não só lá, a Primeira Guerra Mundial é um ponto de inflexão decisivo a esse respeito. A produção de guerra como produção em massa permitiu a transição para a produção fragmentada e parcialmente mecanizada, que simplesmente não era viável em suas áreas nas séries menores anteriores à guerra. Por outro lado, a reestruturação da própria classe operária está relacionada com a guerra, pois a perda de muitos operários qualificados bem treinados através do seu uso militar e o preenchimento das lacunas por parte de pessoas não qualificadas, especialmente as mulheres, tornou esse passo inevitável. Na transição para a produção em tempo de paz, essas novas realizações foram gradualmente incorporadas à esfera civil.

Ciência do trabalho e ciência da natureza

A aplicação da ciência do trabalho ao desmembramento das atividades até então integradas não substitui a nova mecanização, mas a prepara. É somente com a grande escala do modo de produção capitalista que a aplicação da ciência natural na produção via maquinaria pode ocorrer, independentemente da aplicação da gestão científica do trabalho, e saindo de sua esfera de influência. Marx já antecipou isso nos Grundrisse: “por um lado, é a análise originada diretamente da ciência e a aplicação de leis mecânicas e químicas que possibilitam à máquina executar o mesmo trabalho anteriormente executado pelo operário. Contudo, o desenvolvimento da maquinaria por essa via só ocorre quando a grande indústria já atingiu um estágio mais elevado e o conjunto das ciências já se encontra cativo a serviço do capital; por outro lado, a própria maquinaria existente já proporciona elevados recursos. A invenção torna-se então um negócio e a aplicação da ciência à própria produção imediata, um critério que a determina e solicita. Porém, esta não é a via que deu origem à maquinaria no geral, e menos ainda a via pela qual ela avança no detalhe. Tal via é a análise – pela divisão do trabalho, que transforma as operações dos operários cada vez mais em operações mecânicas, de tal modo que a certa altura o mecanismo pode ocupar os seus lugares. Por conseguinte, um modo de trabalho determinado aparece aqui diretamente transposto do operário para o capital na forma da máquina, e por meio dessa transposição sua própria capacidade de trabalho é desvalorizada” (Grundrisse, p. 591).

A taylorização e a substituição do trabalho taylorizado pela maquinaria se comportam da maneira esboçada por Marx. Somente com uma ampla substituição do trabalho mecanizado pela maquinaria, o trabalho vivo finalmente “se situa ao lado do processo de produção em vez de ser seu principal agente” (Grundrisse, p. 593). Só então o processo de produção é completamente formado pela aplicação da ciência natural. O trabalho abstrato muda sua forma aparente com esta etapa. Anteriormente, suas formas mais distintivas eram as operações esvaziadas, repetitivas e constantes realizadas com as mãos, enquanto agora a sua nova marca característica é a exterioridade das mãos em relação ao processo de produção em si. Sua tarefa principal é o monitoramento e controle constante do processo de produção, que ocorre automaticamente como um processo natural e requer intervenção humana apenas pontual e em caso de falhas. Esse trabalho dificilmente é mais humano, mas exige um grau relativamente alto de concentração e não permite o alívio da habitualização. O estresse físico não desaparece, mas diminui relativamente o seu peso.

Esse processo de substituição de uma forma de trabalho abstrato pela sua forma mais desenvolvida avança de modo gradual e diferente de um ramo para outro. O trabalho vivo, como trabalho diretamente produtivo, é preservado durante muito tempo como um substituto no sistema automático de máquinas. Com a introdução da microeletrônica, esse desenvolvimento está dando um salto qualitativo, cuja importância não deve ser subestimada. Ele conduz o nível esboçado de abstração do trabalho até o seu fim consequente e, ao mesmo tempo, o eleva a um novo nível que ainda queremos delinear. O primeiro pode ser lido de modo simples e ilustrativo no estudo do IG-Metall sobre “as consequências negativas da racionalização”: “Há cada vez menos influência do tempo. A influência imediata dos trabalhadores na concepção do processo de trabalho diminui”. (p. 63 do resumo de 1983). “Os trabalhadores e empregados da execução, assim como os quadros médios da gerência, são privados (‘expropriados’) do conhecimento, da experiência e das vantagens da senioridade que advinham da sua maior proximidade da produção. Relações hierárquicas e de influência consolidadas se transformam. Por exemplo, supervisores e planejadores já não fazem especificações diretamente, mas sim a gerência superior, através da possibilidade de controle permanente da produção. As relações de poder empresariais foram de fato centralizadas”. (p.63 do resumo). Deste ponto de vista, a microeletrônica apenas aperfeiçoa Taylor em uma nova base técnica. Por outro lado, ela impulsiona o processo de produção capitalista para além de Taylor, pois cada vez mais elimina o trabalho produtivo imediato.

Taylorismo e organização hierárquica da classe operária

Com a ampla expropriação de seus conhecimentos de produção pela ciência do trabalho, o antigo operário qualificado perde sua base tradicional em muitas áreas, mas ele não desaparece sem substituição, renascendo como comandante e subcomandante. Para o operário da produção imediata, ele é, como mestre e capataz, a encarnação da combinação do trabalho por meio do capital. Enquanto parte da hierarquia operacional, ele representa a totalidade do processo de produção frente à maioria dos produtores imediatos reduzidos à personificação de um movimento manual. Quanto mais diferenciada a divisão do trabalho, mais miserável é a posição do produtor direto isolado e mais importante se torna aquela função comparada com eventuais habilidades técnicas restantes. O lado técnico-artesanal sobrevive apenas nas áreas que acompanham a produção em grande escala (manutenção, etc.). Além disso, o antigo operário qualificado tende a se tornar organizador do trabalho e, portanto, aparece fora do processo de produção imediato.

A diferenciação entre as especificidades de trabalho e artesanato vai para o segundo plano, enquanto a força de trabalho é predominantemente dividida de acordo com sua posição na hierarquia de comando. Repete-se o que Marx disse n’ O Capital para a transição da manufatura à grande indústria: “As diferenças produzidas artificialmente entre os trabalhadores parciais são substituídas pelas diferenças naturais de idade e sexo” (MEW 23, Das Kapital, p.442). Igualmente importante é uma característica quase naturalizada que aqui não é mencionada por Marx: a nacionalidade.

Na Alemanha, em particular, a divisão do trabalho de acordo com o ponto de vista étnico tem uma longa e infeliz tradição. Esse mecanismo de divisão de classes celebrou sua origem neste país com a imigração polonesa no final do século XIX e teve sua coroação no sistema de trabalho forçado do fascismo nos últimos anos da guerra. Naquela época, havia um sistema de separação e desmembramento que se estendeu do extermínio pelo trabalho para prisioneiros de guerra judeus, poloneses e russos até os prisioneiros de guerra da Europa ocidental, e recrutava à força os “trabalhadores estrangeiros” quase voluntários italianos e, finalmente, os capatazes alemães privilegiados (o principal privilégio consistia em estar razoavelmente a salvo de ser enviados para o fronte caso desempenhassem, como “indispensáveis”, principalmente os trabalhos forçados que lhes eram atribuídos).

Após a guerra, esse sistema foi convertido às condições civis e aperfeiçoado como um momento constituinte do “modelo Alemanha”. Aqui se encontra uma base material essencial para o racismo, que ainda ornamenta este país e que nenhum choramingar humanitário pode mudar minimamente. O mesmo se aplica ao campo do trabalho feminino. Em muitas áreas do emprego feminino industrial, as posições do mestre e do capataz ainda estão reservadas para os homens. Em ambos os casos, as diferenças biológicas e quase biológicas solidificam a estrutura hierárquica. Os sindicatos são tudo menos hostis a isso. Se os sindicatos, antes da Primeira Guerra Mundial, representavam principalmente os operários qualificados, eles se estabeleceram cada vez mais como defensores dos interesses de capatazes e mestres, os subcomandantes do capital. Em consequência, ele mudou de caráter. O corporativismo de operários especializados relativamente independentes deu lugar ao corporativismo dos subcomandantes e executores do capital. O pacto de produtividade entre capital e sindicatos tem também raízes em partes da base sindical de mentalidade “motivacional”. Mesmo que os sindicatos de tempos em tempos se esforcem para atrair filiados de outras camadas operárias, isso não altera seu caráter fundamental. A recente reestruturação da classe nos anos 1980 torna isso ainda mais visível.

A ciência natural microeletrônica como agente da produção e o trabalho concreto-abstrato

Hoje, com a revolução técnica da produção por meio da microeletrônica, o trabalho vivo consumido no processo de produção está sendo profundamente revolucionado. Seu poder relativo ainda existente como agente do processo de produção finalmente sucumbe à destruição. Somente agora o prognóstico de Marx se torna realidade. A cientifização da produção coloca o trabalho vivo em um estado de abstração e impotência relativamente ao poder social comprimido no capital, o que era impensável no início dos anos 1970. A socialização da produção material, levada aos extremos, aparece ao lado do trabalho vivo como seu completo devir abstrato.

A aplicação da ciência natural, coagulada na microeletrônica, está se tornando gradualmente a base técnico-científica comum em uma ampla gama de aplicações. Ela se torna base comum em um âmbito muito mais amplo, especialmente no que diz respeito ao trabalho vivo, do que no caso do sistema mecânico clássico. As revoluções industriais do passado revolucionaram principalmente os sistemas de propulsão (vapor, petróleo, eletricidade) e generalizaram sua aplicação produtiva, mas preservaram os processos de trabalho em suas particularidades. O sistema mecânico transferiu o conhecimento específico do artesanato para a máquina, que, por sua vez, reproduzia novamente essa especificidade. Daí resultaram máquinas especiais com funcionalidades bastante diferentes, correspondendo a diferentes trabalhos concretos, dependendo do ramo industrial que as utilizava. A antiga particularidade artesanal do trabalho concreto se transferia em certo grau de especificação do trabalho nessa maquinaria, que seguia os seus traços. Somente a cientifização da produção por meio da microeletrônica resolve isso eliminando a experiência do artesanato e dos preciosismos isolados.

A ciência da natureza como um todo social torna-se a base material geral da produção da riqueza social. É o mesmo conhecimento científico e a análoga tradução técnica em áreas sempre crescentes, “que aparece como o grande fator decisivo da produção de riqueza” (Grundrisse, p. 593). Para os processos de trabalho concretos, isso significa que eles são ajustados uns aos outros em uma dimensão até agora desconhecida. Conforme os estudos IG Metall sobre as consequências negativas da racionalização, isso é expresso no fato “impressionante de que as mesmas atividades laborais sejam identificadas como causadoras de doenças por comissões de segurança de empresas em setores, tamanhos e localizações diferentes” (p. 62 do resumo de 1983). Pois “as novas tecnologias são tecnologias de racionalização e controle universais que, devido à sua flexibilidade, podem penetrar em quase todas as áreas da atividade humana” (p.66). O trabalho já não se revela abstrato apenas no sentido de que “os indivíduos passam com facilidade de um trabalho a outro” (Grundrisse, p.25), como Marx descreveu os EUA no século XIX, já que os diferentes trabalhos concretos em si mesmos dificilmente continuam a variar. Aqueles que alternam o seu trabalho não fazem nada qualitativamente diferente do que era feito. A mesma instalação técnica, com apenas uma pequena modificação, pode produzir produtos completamente diferentes, e outra instalação requer do trabalho vivo operações quase idênticas. Desaparece o vínculo até pouco tempo inequívoco entre um trabalho concreto, útil e o produto particular no qual ele entra. Aquele já não está ligado a um determinado valor de uso, mas aparece diretamente como uma partícula indeterminável desse processo socializado que gera toda a riqueza material. Isso mina a dicotomia entre o trabalho humano abstrato e a utilidade concreta que Marx apresenta no Capítulo 1 d’ O Capital. Se, na análise de Marx, o caráter social dos produtos se manifesta apenas no fato de eles serem valores de uso não para seu produtor, mas para outros; que ele produz para o mercado e seu trabalho é trabalho social apenas na circulação, ou seja, quando aparece no lado do valor da troca, ainda que, ao mesmo tempo, siga sendo trabalho privado como trabalho concretamente útil, essa relação agora está completamente rompida. O trabalho é agora trabalho social não só no que diz respeito ao valor de troca, mas é também socializado no lado material, na produção de valores de uso. Seu caráter social geral não se esgota na conhecida combinação de diferentes operários pelo capital individual na empresa individual, onde o material que entra no produto ainda podia ser claramente circunscrito à empresa individual na qual o trabalho foi desempenhado e, portanto, só pode ser um produto privado, se não do capitalista individual, pelo menos da força de trabalho claramente definida dessa empresa particular (ideia dos conselhos). Essa demarcação clara desapareceu. Por trás da produção de cada pino aparece a infraestruturada sociedade como um todo. A dicotomia entre o valor de uso produzido concretamente pelo trabalho útil e o valor de troca produzido pelo trabalho humano abstrato está ligada ao caráter privado da produção e desaparece com ele. O momento decisivo do processo de produção não é mais o trabalho realmente despendido em um produto, mas desde o início a aplicação de uma potência social, a ciência natural. Se os produtos se tornam materialmente sociais, isto é, produtos de uma força produtiva social global, os processos de trabalho perdem igualmente sua conexão com o valor de uso específico que foi produzido e não podem mais permanecer como particularidades intercambiáveis. Os trabalhos concretos são completamente subsumidos na força produtiva socializada. Em termos conceituais, Marx demonstra tal contexto nos Grundrisse, que historicamente, só hoje ganha contornos e precisa fazer explodir pelos ares a lei do valor: “Não é mais o trabalhador que interpõe um objeto natural modificado como elo mediador entre o objeto e si mesmo (…) Ele se coloca ao lado do processo de produção, em lugar de ser o seu agente principal. Nessa transformação, o que aparece como a grande coluna de sustentação da produção e da riqueza não é nem o trabalho imediato que o próprio ser humano executa nem o tempo que ele trabalha, mas a apropriação de sua própria força produtiva geral, sua compreensão e seu domínio da natureza por sua existência como corpo social – em suma, o desenvolvimento do indivíduo social. O roubo de tempo de trabalho alheio, sobre o qual a riqueza atual se baseia, aparece como fundamento miserável em comparação com esse novo fundamento desenvolvido, criado por meio da própria grande indústria. Tão logo o trabalho na sua forma imediata deixa de ser a grande fonte da riqueza, o tempo de trabalho deixa, e tem de deixar, de ser a sua medida e, em consequência, o valor de troca deixa de ser [a medida] do valor de uso. O trabalho excedente da massa deixa de ser condição para o desenvolvimento da riqueza geral, assim como o não trabalho dos poucos deixa de ser condição do desenvolvimento das forças gerais do cérebro humano. Com isso, desmorona a produção baseada no valor de troca…” (Grundrisse, p. 592/593).

Na discussão marxista essa passagem foi tantas vezes referida quanto mal interpretada. “O desenvolvimento do indivíduo social… coluna de sustentação da produção e da riqueza” sempre foi interpretado como um objetivo a ser realizado apenas no socialismo, bem como o fim da lei do valor, e não como um processo que, embora catastrófico, se inicia no interior das relações de capital. Para a consciência confinada na lei do valor, considerada mais ou menos como uma lei natural, seu solapamento por meio do próprio processo capitalista desapareceu completamente, e isso ainda mais à medida que o movimento operário clássico confrontava um estágio de desenvolvimento produtivo que por muito tempo ainda se moveria no interior da lei do valor. Se a abolição da lei do valor foi tomada, ainda de maneira relativamente justificada, como uma tarefa pós-revolucionária do proletariado na sua auto-superação final, hoje a sua decomposição prenhe de catástrofes e o daí resultante desastre do capitalismo do pós-guerra devem ser o ponto de partida de uma estratégia revolucionária. Hoje temos que levar a sério esses comentários de Marx, porque nesse meio-tempo eles se tornaram praticamente verdadeiros. O próprio capital destrói o valor, seu fundamento lógico. A iminente crise prolongada do capital, em última análise, se baseia no fim histórico de sua categoria fundamental. “O próprio capital é a contradição em processo, [pelo fato] de que procura reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, ao mesmo tempo que, por outro lado, põe o tempo de trabalho como única medida e fonte da riqueza. Por essa razão, ele diminui o tempo de trabalho na forma do trabalho necessário para aumentá-lo na forma do supérfluo; por isso, põe em medida crescente o trabalho supérfluo como condição – questão de vida e morte – do necessário. Por um lado, portanto, ele traz à vida todas as forças da ciência e da natureza, bem como da combinação social e do intercâmbio social, para tornar a criação da riqueza (relativamente) independente do tempo de trabalho nela empregado. Por outro lado, ele quer medir essas gigantescas forças sociais assim criadas pelo tempo de trabalho e encerrá-las nos limites requeridos para conservar o valor já criado como valor. As forças produtivas e as relações sociais – ambas aspectos diferentes do desenvolvimento do indivíduo social – aparecem somente como meios para o capital, e para ele são exclusivamente meios para poder produzir a partir de seu fundamento acanhado. De fato, porém, elas constituem as condições materiais para fazê-lo voar pelos ares” (Grundrisse, p. 593/594).

Portanto, se falamos anteriormente da corrosão da dicotomia do trabalho humano concreto útil e trabalho abstrato, isso expressa apenas a decomposição da lei do valor. Se o próprio trabalho concreto se torna abstrato, então nele se externaliza a rebelião das forças produtivas já socializadas pelo capital contra a lei do valor baseada na propriedade privada e no trabalho privado separado que se tornou imaginário. O trabalho concreto tornado abstrato anuncia seu colapso iminente, o surgimento de proletários que não podem mais ser um proletariado e, portanto, que são forçados a abolir a relação capital. O trabalho humano abstrato nesse sentido é o complemento vivo da produção materialmente socializada. O trabalhador abstrato, mesmo que ele faça trabalho simples e com pouco potencial, é ele próprio um produto social, uma força produtiva social gerada pela abrangente infraestrutura de formação. Na dependência de um trabalhador social geral, o capital é obrigado, em sua nova forma, cada vez mais, a livrar a formação técnica da esfera da família e dos restos estamentais e mantê-la livre de casuísmos. A expansão do sistema escolar com a reforma da educação socialdemocrata apenas cria a mão de obra social adequada para o capital do final do século XX. A formalização das qualificações, a mudança de ênfase da educação prática-operacional para a formação escolar são manifestações necessárias da socialização da produção. A importância decrescente da experiência artesanal e da qualificação desloca o peso a favor de uma qualificação mais geral. Uniformização e enquadramento da formação correspondem à padronização da tecnologia e às exigências que ela coloca ao trabalho vivo. A educação socializada recai cada vez mais sobre o capitalista global ideal, e a especificação operacional do seu conhecimento torna-se menos importante. O trabalho da empresa permanece importante apenas como uma adaptação contínua à constante evolução científica e tecnológica, como luta da força de trabalho isolada contra seu desgaste moral. Nas áreas mais qualificadas, importa menos onde a força de trabalho atuou especificamente do que ela ter sido utilizada nos últimos anos e que tenha sido capaz de se adaptar aos novos padrões técnicos.

Desenvolvimento lógico e histórico da relação de capital (excurso)

É claro que isso é apenas uma tendência e não se tornou realidade da mesma forma em todas as áreas da produção e da reprodução sociais. Determinar a amplitude e a velocidade desse desenvolvimento é, em si mesmo, uma tarefa. Aqui duas coisas me interessam. Antes de tudo, quero demonstrar que as categorias marxianas fornecem um instrumento analítico adequado para a análise dos modernos processos de reestruturação do capitalismo atual; em segundo lugar – e diretamente relacionado com isso – elas mostram que esse tão deplorado fenômeno aqui indicado, longe de invalidar a lógica do capital e o antagonismo entre o capital e o trabalho, ao contrário, representa apenas a lógica capitalista levada ao extremo, a ponto de explodir a si mesma. Em primeiro lugar, estou preocupado com a tendência geral, cuja aplicação exata, naturalmente, aguarda uma investigação mais aprofundada. Quando tomo as categorias reais marxistas como o quadro da minha análise e sigo sua lógica, é para deixar claro o quanto a realidade mais moderna vai na sua direção.

Como Lênin já sabia, quem pretende antecipar o curso das circunstâncias corre o risco de se adiantar a elas. Isso é uma característica do conjunto da obra marxiana. Marx expôs a lógica conceitual do capital num momento em que o seu desenvolvimento histórico, medido pelo seu estado atual, ainda estava na infância. A tendência do capital para abolir a lei do valor e a correspondente criação de um proletariado, que é então compelido a executar essa tendência, só se torna realidade progressivamente, mais de 100 anos após a morte de Marx. Durante décadas, o desenvolvimento histórico da relação de capital manteve-se irremediavelmente aquém de sua descoberta teórica. Eis a causa fundamental do reducionismo das interpretações tradicionais de Marx. A teoria de Marx não conseguiu compreender as massas na sua forma autêntica, porque a própria realidade ainda não estava pronta o suficiente para impelir as ideias de Marx. Os teóricos marxistas apenas mantiveram essa tensão até o final e abordaram na obra de Marx tão só os pedaços que já eram, até certo ponto, tangíveis na realidade.

O trabalho humano abstrato em sua forma mais desenvolvida não o era para o proletariado qualificado e seus representantes intelectuais no período do movimento operário clássico, nem as potencialidades revolucionárias associadas a ele. Os mais qualificados, como estrato que dava suporte ao movimento proletário, não tinham o menor interesse na sua autoabolição, de modo que nas ideias socialistas concretas essa autoabolição praticamente foi para debaixo da mesa. A base material para a revolução proletária elaborada teoricamente por Marx foi criada pela microeletrônica. É só hoje que surge uma revolução não mais baseada no desenvolvimento insatisfatório da relação de capital ou em fricções passageiras em seu desenvolvimento, mas, justamente o contrário, que está a ponto de conduzir às últimas consequências e, portanto, para além de si mesma.

A ironia da história consiste no fato de que o marxismo autêntico, completamente enterrado sob a limitação historicamente necessária de sua teoria, é descartado pela esquerda como sem utilidade, no momento em que a realidade social começa a atingir o auge de suas reflexões teóricas. Como eles identificam o marxismo com suas emasculações tradicionais, a esquerda decide abandonar Marx no momento em que, pela primeira vez, uma interpretação abrangente e maciça de Marx se torna possível, politicamente efetiva e, portanto, imperiosamente necessária.

Novas tecnologias e “trabalho precário”

O trabalho concreto, já socializado pelo capital, portanto, abstraído, perde sua estreita conexão com a empresa individual e com uma indústria específica. Com o desaparecimento da empresa individual como ponto de referência exclusivo da produção material também é dissolvida a base material das formações operárias tradicionais. A cooperação produtiva rompe os limites do capital individual, sobretudo os da empresa individual, e desse modo explode a coesão do contexto operário tradicional. A sua decomposição é apenas o outro lado da socialização material da produção através da respectiva cientifização. O que é interpretado por Gorz e outros como o fim do proletariado não é senão o reverso da crise da lei do valor. O que é realmente um novo patamar na socialização aparece, no lado dos operários, como atomização e individualização.

Na década de 1980, experimentamos um salto qualitativo na história da mercadoria força de trabalho, cujas dimensões podem apenas ser esboçadas. As profundas revoluções tecnológicas delineadas coincidem com o desemprego em massa e todas as consequências mais fundamentais dessa época. O capital aproveita a oportunidade oferecida pela crise para produzir uma nova força de trabalho, conforme a estrutura tecnológica modificada. Flexibilização é a palavra-chave sob a qual o capital absorve o trabalho abstrato residual em qualquer proporção em condições tecnologicamente revolucionárias. O capital não precisa mais competir por cada besta de carga, como nos anos de alta conjuntural, mas pode colocar a permutabilidade da força de trabalho a seu favor. Nas condições de um persistente desemprego em massa, o núcleo da força de trabalho está cada vez mais reduzido aos subcomandantes e aos setores de capital especialmente intensivo sujeitos a falhas. O núcleo da força de trabalho que se tornou escassa é complementado por uma diversidade de trabalhos precários. As formas de trabalho precárias, antes apenas um fenômeno marginal e residual de tempos passados, estão se tornando um fenômeno de massa. Trabalho temporário ilegal e legal, ainda desconhecido no início da década de 1970, está se espalhando, bem como novas formas de relação de trabalho temporárias, trabalho parcial e trabalho em casa [Heimarbeit]. O capital procura minimizar sua porção variável, e o principal meio para fazê-lo é reduzir os custos salariais indiretos. As conquistas sociais das décadas de 1960 e 1970 (salário regular, pagamento de férias, proteção contra demissão, acumulação de ativos, etc.) são minadas pelo capital para uma parte precária e crescente da classe e transformadas em privilégios da parte central da força de trabalho. O que foi celebrado como progresso para todos os “empregados” torna-se um motivo e um meio para o capital dividir a classe. As reformas, que visavam a relação de trabalho normal (permanente, em tempo integral), são elas próprias um incentivo para que o capital dissolva essa relação de trabalho normal em muitas esferas.

Todas as formas de trabalho precário são mais ou menos caracterizadas pela exterioridade em relação à empresa individual e um alto grau de mobilidade e permutabilidade. A separação em relação à empresa individual leva, em primeiro lugar, à individualização e ao isolamento da força de trabalho frente ao poder concentrado do capital. O trabalhador precário isolado está em grande parte alheio aos acordos coletivos de negociação, bem como dos direitos tradicionais de proteção e participação do conselho de empresa e sindicato. Não há o menor interesse em integrá-lo. A tendência geral de tornar o trabalho cada vez mais abstrato parece, na sua forma mais moderna, não mais ser a homogeneização da classe, mas a sua completa dispersão e segmentação.

A classe operária divide-se em dois campos contraditórios. De um lado, o núcleo da força de trabalho, cujos interesses estão intimamente interligados à empresa individual e que defende seus interesses individuais de forma mais decisiva contra a parte precária da classe. Do outro lado, esse campo precário é ele mesmo em muitos casos segmentado. Aqui, a externalidade prevalece sobre a empresa individual, a alta mobilidade e a flutuação; há aqui um intercâmbio ativo com as várias formas do exército industrial de reserva.

A decomposição da classe operária tradicional anuncia a nova composição da classe nas condições de decadência da lei do valor. O nível da socialização material do trabalho alcançado e a sua abstração tornam possível uma organização fundamentalmente nova do trabalho, por exemplo, novas formas de trabalho em casa como produto das novas tecnologias da informação. Eles permitem separar espacialmente as complexas operações de trabalho sem romper o processo de trabalho para o capital. “O uso de um meio eletrônico, que atualmente ainda transmite sobretudo informações escritas e gráficas, leva a uma comunicação mais eficaz, a uma restrição da comunicação a conteúdos essenciais e a uma redução do ‘ruído social’ comum na conversação” (citado de acordo com o Relatório de pesquisa da BMFT DV 82-002, agosto de 1982). “O fato de o posto de trabalho ser subcontratado implica uma limitação de oportunidades de cooperação direta entre colegas. Essa colaboração ainda está presente quando envolvida na criação de um produto, resolução de problemas ou qualquer outra coisa em que se trata de várias pessoas. No entanto, dificilmente é percebida como uma relação pessoal direta, uma vez que se “esconde” em uma divisão do trabalho abstrata, talvez nem sequer compreensível concretamente para o trabalhador parcial” (a.a.O.).

O capital pode manter a combinação de operários sem ter que colocá-los em contato pessoal durante o processo de trabalho. A precária economiazinha local [Klitschenwirtschaft] em qualquer empresa fornecedora está diretamente ligada às necessidades de exploração de empresas multinacionais, apesar da separação espacial e da segmentação parcial das grandes empresas. A FIAT-Turin é um excelente exemplo, seguido pela fábrica da Volkswagen. Os operários temporários legais e ilegais não só mudam constantemente a empresa em que estão empregados, mas também enfrentam um capitalista (mutuário e credor) combinado.

Não é apenas para a parte precária crescente da classe que a empresa individual em grande parte desaparece como ponto de referência. O próprio capital em seu desenvolvimento há muito desdobrou a estrutura da empresa individual e relativizou sua importância como unidade de produção. Isso vale especialmente para grandes empresas. Seu desmembramento aponta o caminho para a grande versão capitalista do small is beautiful. O processo capitalista de socialização começou concentrando espacialmente a força de trabalho, forçando os operários a se comunicarem e, em seguida, devolveu-os à dispersão. Os pontos de contato em que os operários isolados devem travar relações pessoais devido à combinação capitalista do trabalho tornam-se cada vez menores, precisamente por causa do desenvolvimento continuo da combinação. Neste nível, isso também se aplica à empresa individual, e ainda mais naturalmente para os setores subcontratados. Dentro da empresa individual, o capital constante está crescendo em meio ao decréscimo da força de trabalho. A coesão na empresa enfraquece juntamente com o significado da empresa individual em geral.

“Adeus ao proletariado” ou nova luta de classes

O movimento operário tradicional, ou o que sobrou dele em restos e reminiscências, continua a ser essencialmente afetado por esse desenvolvimento. Os sindicatos finalmente degeneram em representação de pequenos estratos decrescentes da aristocracia operária. Os meios tradicionais de luta e de pensamento estão se tornando obsoletos, e não surpreende que a esquerda tradicional, incluindo quase todo o espectro emergente dos rudimentos organizacionais da Nova Esquerda, afundando em denúncias e lamentações, confunda o fim de uma formação operária ultrapassada ou a nova composição da classe pelo capital com o fim de todo o movimento operário. Seu instrumental teórico inadequado é incapaz de compreender as implicações gerais desse desenvolvimento, bem como as possibilidades revolucionárias aí contidas. Como de costume, a esquerda em conjunto se atrapalha com a armadura de cavaleiro no campo de batalha, agora atômico, e choraminga porque, em meio à escuridão, deixa a sua própria quixotada às claras. Mas apenas incidentalmente.

Sabe-se que o capital suspende suas contradições apenas para aprofundá-las em novos níveis. Ainda que a reestruturação da classe operária puxe o antigo campo de batalha sob os pés do marxismo revolucionário, é apenas para construir um novo campo, mais desenvolvido. Esse terreno ainda virgem precisa ser explorado. Nele o marxismo terá novamente que se colocar à prova.

Uma coisa é clara: a socialização, impulsionada pelo capital, obriga que as futuras lutas proletárias, se quiserem ser mais do que mera caricatura, se deem em um nível de universalidade que permaneceu estranho ao movimento operário tradicional, mesmo em suas formas mais desenvolvidas. Por exemplo, o caráter internacionalista de um novo movimento operário é desde o início uma necessidade indispensável e não uma simples reivindicação moral. Mas o mesmo se aplica às nações tomadas individualmente e aos respectivos mercados; e também o lado político (intervenções estatais, etc.) está mais intimamente ligado às lutas econômicas do que nunca. Há pouco espaço objetivo para a separação entre lutas políticas e econômicas. Neste contexto, modifica-se a dialética da espontaneidade e da organização, e o lado teórico da luta torna-se uma conditio sine qua non. Aqui, no entanto, não há lacunas, mas abismos.

Notas:

[1] 1 Publicado na revista Marxistische Kritik, n. 1, 1986 com o título Die Kategorie der abstrakten Arbeit und ihre historische Entfaltung. NOTA DO TRADUTOR: Surgida em 1986, a revista Marxistische Kritik, organizada em torno de Robert Kurz e do IMK [Initiative Marxistische Kritik] foi a precursora da revista Krisis. Os pontos de vista apresentados na antiga revista eram ainda marcados decisivamente pelo pensamento marxista tradicional, como a definição ontológica do trabalho e o ponto de vista da “classe operária”. Tratava-se de uma “revista de teoria e política revolucionária”, qualificação que permaneceu até o início dos anos 1990. O texto de Ernst Lohoff que ora publicamos faz parte do primeiro volume da MK, juntamente com “A crise do valor de troca”, ensaio “fundador” da teoria da crise de Robert Kurz (publicado em 2018 pela Editora Consequência, juntamente com outros materiais da MK). Ambos os ensaios abordam o valor e o trabalho abstrato em sua dinâmica histórica, recusando o tratamento “estático” que lhes era dado pelo pensamento marxista. Especialmente no ensaio de Lohoff, o argumento é desenvolvido sempre em companhia dos textos de Marx e da reivindicação do seu método “ortodoxo”. É a partir deles que o autor acompanha o trabalho abstrato em sua relação com o desenvolvimento das forças produtivas e as “contradições objetivas” da sociedade capitalista madura. Aqui os processos produtivos ditados pela microeletrônica aparecem como a plena realização do trabalho abstrato, a eliminação de qualquer vínculo entre o “trabalho concreto” e o produto do trabalho. Ao mesmo tempo, com a progressiva eliminação do trabalho vivo nos processos produtivos tem início uma nova fase de socialização material da produção cuja tendência é a abolição da lei do valor. No argumento então desenvolvido nos primeiros ensaios da Marxistische Kritik, essa tendência, que se manifesta como crise da classe operária tradicional, também indicaria o novo grau de socialização material que constitui a base para a revolução antecipada teoricamente por Marx. Daí a conclusão de Lohoff e do antigo circulo da IMK, segundo a qual, o aprofundamento das contradições do capital produzem não um “adeus ao proletariado”, mas uma reestruturação da classe operária e exigem a redefinição do objetivo socialista (M. B).

[2] Horst Kern e Michael Schumann, estudiosos dos processos de racionalização/requalificação do trabalho industrial e defensores da tese da “polarização das qualificações”, segundo a qual as transformações nos processos produtivos levariam, ao mesmo tempo, a formas de qualificação e desqualificação do trabalho. Publicaram, em 1984, Das Ende der Arbeitsteilung? [O fim da divisão do trabalho?]. No primeiro número da MK, apareceu uma crítica das teses de Kern e Schumann, Die Chance der Möglichkeit eines menschenfreundlichen Kapitalismus [As chances de um possível capitalismo humanitário], por Rainer Büschel e Rainer Jahn. [NdT]

[3] Sergio Bologna in “Zusammensetzung der Arbeiterklasse und Organisationsfrage“. Berlin: Merve-Verlag, 1973.

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