Publicado originalmente em: krisis.com.br

Uma entrevista de Joachim Wille com Norbert Trenkle [Grupo Krisis]

O economista Norbert Trenkle fala sobre o fim do trabalho numa entrevista com o Frankfurter Rundschau – 01/05/2015.

O senhor previu o “fim do trabalho”. O que é que significa isso?

NT: Deveríamos falar, antes, de uma crise do trabalho, realmente uma crise fundamental que avança de modo altamente contraditório. De um lado, cada vez mais trabalho é racionalizado por causa da alta produtividade; de outro lado, a maioria das pessoas continua a depender da venda da sua força de trabalho para viver. Isso aumenta o fosso entre a oferta e a procura no mercado de trabalho e reforça a pressão para que as pessoas se ofereçam sempre em condições pioradas.

Robôs em vez de empregos mais adequados – isso é um horror ou um paraíso?

NT: Isso depende. Em condições capitalistas, o desenvolvimento tecnológico significa uma tendência de as pessoas se tornarem supérfluas para a produção de mercadorias, restando-lhes apenas a escolha entre desemprego ou trabalho precário. Numa sociedade liberta, por outro lado, a alta produtividade poderia ser usada para permitir uma boa vida a todas as pessoas e para produzir de um modo adequado em termos ecológicos.

Nos últimos anos experimentamos uma disparidade crescente na sociedade, incluindo a vida profissional. Há quem lucre bem com o sistema, e outros que, no pior dos casos, já não tem mais utilidade. Quais são as razões para isso?


NT: Isso porque a dinâmica capitalista atual não se baseia mais no trabalho em massa na indústria, mas deslocou o seu foco para os mercados financeiros e para os setores de produção e aplicação do conhecimento. Quem trabalha aqui também está sujeitos à pressão permanente por mais desempenho, mas pelo menos são bem pagos por isso. A massa dos demais vendedores de força de trabalho, por outro lado, tem de lutar por empregos que não são necessariamente “relevantes para o sistema”. Quer sejam vendedores ou entregadores de encomendas, são obrigados a trabalhar à exaustão, caso contrário já não conseguem pagar as contas.

O salário mínimo ajuda?

NT: O salário mínimo freia até certo ponto essa superexploração. Mas está se tornando evidente que ele está sendo contornado em larga escala. E como a pressão da concorrência é particularmente grande no setor precário, muitas das pessoas afetadas não se defendem.

Ou seria melhor uma renda básica sem restrições?

NT: Isso poderia levar a um alívio da obrigação geral de trabalhar, desde que seja realmente suficiente para viver. Nesse caso, também abriria espaço para a luta por alternativas sociais.

O horário de trabalho semanal deve ser reduzido? Nos sábados, terças e quintas-feiras os pais ficam com os filhos?

NT: Claro. Seria absolutamente correto converter os enormes efeitos da racionalização em tempo disponível para todos. Mas, em última análise, isso exigiria uma ruptura com a lógica capitalista, pois é ela que empurra na direção oposta, para o prolongamento dos horários de trabalho e para o trabalho mais intensivo.

O que poderia tomar o lugar do trabalho caso ele não fosse mais necessário?

NT: O trabalho não decai gradualmente, mas, de modo paradoxal, na sua crise aumenta a pressão que ele exerce sobre a sociedade. É por isso que são necessários movimentos sociais para questionar a coerção de ter de sobreviver diariamente da venda da força de trabalho. Somente dessa forma pode-se abrir caminho para atividades sociais livres, sem coerção externa.

Seriam mais felizes as pessoas que tem liberdade para colher a salada na horta pela manhã, cuidar das crianças à tarde, escrever textos à noite, sem que se tornem agricultores, professores ou escritores?

NT: As pessoas certamente ficariam mais felizes se pudessem decidir de livre acordo com os outros o que fazer e como fazer. Isto, naturalmente, inclui também a possibilidade de passar de uma atividade para outra. Não significa, no entanto, que todos nós temos de nos tornar criativos. Essa seria novamente uma fantasia da mania de desempenho capitalista. Liberdade também pode significar limitar-se a umas poucas atividades ou mesmo não fazer nada algum dia, se eu quiser. Mas isso também não deveria ser a norma, tal como o seu oposto.

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