Na madrugada de 10 de março de 1952, o general Fulgencio Batista, apoiado pelos Estados Unidos, a oligarquia cubana e o setor mais reacionário dos militares, efetuou um Golpe de Estado que revogou a Constituição de 1940 e lançou uma brutal repressão contra os trabalhadores organizados, o movimento estudantil e seus opositores políticos.

Além de romper com a ordem constitucional, o golpe militar aplicou medidas econômicas com vistas a favorecer os latifundiários e industriais cubanos à custa da exploração e miséria dos trabalhadores, além de entregar as riquezas do país às empresas estadunidenses, inclusive hospedando as atividades da Máfia que eram reprimidas nos Estados Unidos.

Fugencio Batista com o chefe do Estado Maior do Exército dos EUA, Malin Craig/ Crédito: wikimidia comons

Efetuado o golpe militar, o jovem advogado Fidel Castro entendeu que Batista e seus aliados utilizariam todos os métodos, por mais desonestos e criminosos que fossem, para permanecer no poder; que havia sido negado ao povo todos os instrumentos legais e pacíficos de participação política, e que, a única forma de desmantelar a ditadura e estabelecer um regime realmente democrático era através da insurreição popular armada.

Para despertar essa insurreição popular, Fidel e alguns companheiros concluíram que era necessário formar um grupo e realizar uma ação que servisse de referência revolucionária para o povo cubano. Partindo dessa ideia, decidiram tomar o quartel Moncada, situado na cidade de Santiago de Cuba, e o quartel Carlos Manuel de Céspedes, localizado na cidade de Bayamo.

A intenção dos revolucionários era, ao tomar os quartéis, desencadear uma sublevação na região oriental do país, convocar uma greve geral e possibilitar a mobilização da luta em nível nacional. Se essas ações não produzissem a derrubada do regime ditatorial, os revolucionários continuariam a luta nos campos e montanhas através de uma guerra irregular.

De caráter clandestino, a formação do grupo de jovens revolucionários estava sob a liderança de Fidel Castro e Abel Santamaría. Guerrilheiros notáveis que participaram do triunfo da Revolução Cubana em 1959, também estavam no grupo, como Haydée Santamaría, Juan Almeida, Melba Hernández e Raúl Castro. Por orientações de Fidel, os membros do grupo deveriam ser recrutados entre as classes e setores humildes da população. Impregnados pelo ideário de José Martí, os combatentes estavam dispostos a entregar suas vidas para defender os interesses das classes exploradas e libertar o país do jugo estadunidense.

Fidel Castro (centro) e Abel Santamaría (da esquerda para a direita, ao lado de Fidel) com um grupo de em Los Palos, província de Havana, durante os preparativos para o assalto ao quartel de Moncada/ Crédito Revista Bohemia

Vários motivos levaram os revolucionários a escolherem tomar o quartel Moncada e realizar a ação no dia 26 de julho. Do ponto de vista estratégico, o quartel Guillermón Moncada era a segunda fortaleza militar de Cuba e ocupada por cerca de mil homens. Por estar muito distante da capital do país, Havana, isso criaria dificuldades para o envio de ajuda ao exército localizado na região oriental da ilha. Além disso, a cidade de Santiago de Cuba se situa junto ao mar e está rodeada de montanhas, condições que facilitariam aos revolucionários a defesa da cidade se esta fosse tomada, e o rápido início da luta guerrilheira caso fossem obrigados a abandoná-la. Historicamente, a região oriental foi o cenário inicial das guerras de luta pela independência de Cuba e originou diversos levantes populares no período da República Neocolonial (1902-1958). Para evitar que a presença de jovens de outros lugares do país levantasse suspeita, a ação foi marcada para o dia 26 de julho, um domingo de carnaval no ano de 1953.

Neste mesmo dia também seria assaltado o quartel Carlos Manuel de Céspedes, localizado em Bayamo, município próximo de Santiago de Cuba. A ação tinha como objetivo apoiar o assalto ao quartel Moncada, impedindo o envio de reforços e desviando a atenção dos militares.

Na madrugada do dia 26 de julho de 1952, os jovens revolucionários, vestidos com uniformes do Exército, se organizaram em três grupos para assaltar o quartel Moncada e outros dois edifícios adjacentes. Sob o comando de Fidel Castro um dos grupos tomaria o quartel, os outros dois grupos, liderados respectivamente por Abel Santamaría e Raúl Castro, teriam a incumbência de tomar o Hospital Civil Saturnino Lora e o Palácio de Justiça.

Os grupos liderados por Abel e Raúl cumpriram seus objetivos. O grupo principal, comandado por Fidel, foi surpreendido por uma patrulha que imediatamente iniciou um tiroteio. Perdido o fator surpresa, os revolucionários, inferiores em número de armas e homens, tiveram seus planos frustrados e acabaram capturados. Ao mesmo tempo, o assalto ao quartel em Bayamo também fracassou. Abel Santamaría, como a maioria dos assaltantes, foi torturado e assassinado. Os sobreviventes, entre eles Fidel e Raúl Castro, julgados e condenados a prisão.

Registros da imprensa após a tentativa de assalto ao quartel Moncada. No canto superior direito, as revolucionárias Melba Hernández e Haydée Santamaría / Crédito: Radio Ciudad del Mar

Apesar de derrotadas militarmente, do ponto de vista político, as ações de 26 de julho de 1953 demonstraram ser um acontecimento decisivo para o desenvolvimento do movimento revolucionário. As ações possibilitaram a criação de uma nova organização revolucionária – o Movimento 26 de Julho – que rechaçava o reformismo dos partidos burgueses e defendia uma prática política radical, além de servir de experiência para a luta guerrilheira em Sierra Maestra. As ações não representaram o término, mas o início de uma nova etapa da luta revolucionária que triunfou em janeiro de 1959. Como evidenciou Fidel anos depois: “Moncada nos ensinou a transformar os reveses em vitórias”.

* Rodrigo Teixeira é historiador e diretor da Associação Cultural José Martí do Rio de Janeiro.

Referências bibliográficas:

ASALTO AL CUARTEL MONCADA (1953). In: EcuRed. Disponível em: <https://www.ecured.cu/index.php?title=Asalto_al_cuartel_Moncada_(1953)&oldid=3479734>. Acesso em: 30 jul. 2020.

BLANCO, Abelardo e DÓRIA, Carlos A. Revolução cubana: de José Martí a Fidel Castro (1868-1959). São Paulo: Brasiliense, 1982.

NAVARRO, José Cantón. Historia de Cuba. El desafio del yugo y la estrella. La Habana, Cuba: Editorial José Martí, 2017.

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